Quando a lanterna apagou, a escuridão que tomou conta do corredor não foi apenas a ausência de luz.
Foi algo mais profundo.
Mais pesado.
Uma sombra densa que parecia preencher cada centímetro do espaço ao redor de Lívia e Daniel.
Como uma presença viva.
Algo que respirava lentamente dentro do silêncio da casa.
Por alguns segundos que pareceram se estender indefinidamente, nenhum dos dois disse absolutamente nada.
O silêncio era tão absoluto que chegava a ser perturbador.
Lívia sentia o próprio coração batendo com tanta força que parecia ecoar dentro de sua cabeça.
Tum.
Tum.
Tum.
Cada batida parecia alta demais.
Quase como se a casa inteira pudesse ouvi-la.
O ar frio que circulava naquele corredor antigo parecia agora mais pesado.
Espesso.
Como se cada respiração exigisse um pequeno esforço.
Ela inspirou devagar.
O ar tinha um cheiro estranho.
Um odor antigo.
Madeira úmida.
Poeira.
E algo mais.
Algo levemente metálico.
Como ferro enferrujado.
Ou algo que lembrava sangue seco.
— Daniel… — murmurou ela, quase sem voz.
Ele estava ali.
Muito perto.
Ela conseguia ouvir sua respiração curta e tensa na escuridão.
— Estou aqui — respondeu ele.
O som da voz dele trouxe um mínimo de conforto.
Mas não foi suficiente para afastar a sensação de que algo mais estava ali com eles.
Algo que não precisava de luz para enxergar.
Daniel começou a bater levemente na lanterna com a palma da mão.
O som seco ecoou pelo corredor.
— Deve ser a bateria — disse ele, tentando manter um tom calmo.
O clique do botão sendo pressionado ecoou novamente.
Nada.
Ele tentou outra vez.
Clique.
Nada.
A lanterna continuava morta.
A escuridão permanecia absoluta.
E então…
Eles ouviram novamente.
Passos.
Lentos.
Arrastados.
Vindos do fundo do corredor.
Lívia prendeu a respiração.
O som era inconfundível.
Algo estava caminhando ali.
Devagar.
Como se não tivesse pressa.
Como se soubesse que não havia para onde eles fugirem.
Mas o mais perturbador era outra coisa.
Os passos não pareciam vir de um único ponto.
Eles ecoavam.
Multiplicavam-se.
Como se mais de uma pessoa estivesse se movendo pelas sombras da casa.
Ou como se o próprio corredor estivesse distorcendo os sons.
— Você ouviu isso? — sussurrou ela.
Daniel respondeu no mesmo tom.
— Ouvi.
Os passos continuaram.
Rangidos suaves do assoalho antigo.
Tábuas cedendo sob um peso invisível.
Estalos breves que quebravam o silêncio como pequenas rachaduras no ar.
Lívia sentiu os dedos ficarem frios.
Seu instinto gritava uma única coisa.
Saia daqui.
Agora.
Daniel puxou algo do bolso.
Lívia ouviu o pequeno clique metálico.
Um isqueiro.
A chama surgiu.
Pequena.
Fraca.
Tremendo levemente no escuro.
A luz era mínima.
Mas suficiente para revelar fragmentos do corredor ao redor deles.
As paredes.
Descascadas.
Manchadas pelo tempo.
O chão de madeira irregular.
Coberto por uma camada fina de poeira.
E pegadas.
Lívia arregalou os olhos.
Havia pegadas na poeira.
Mas não eram deles.
Eram pegadas antigas.
Algumas pequenas.
Outras grandes demais.
Algumas pareciam… deformadas.
Como se algo tivesse caminhado ali há muito tempo.
Mas ninguém tivesse limpado.
A porta aberta atrás deles ainda estava ali.
Mas o fim do corredor permanecia mergulhado em escuridão.
Uma escuridão tão profunda que parecia engolir a luz.
— Temos que sair daqui — disse Daniel.
Lívia concordou imediatamente.
A presença naquele lugar parecia crescer a cada segundo.
Como se algo estivesse se aproximando.
Eles começaram a caminhar de volta pelo corredor.
Guiando-se pela pequena chama do isqueiro.
Mas algo estava errado.
Muito errado.
Depois de alguns passos, Lívia percebeu algo que fez seu estômago se contrair.
O corredor parecia…
Diferente.
Ela tinha certeza absoluta de que a porta de entrada ficava no início daquele caminho.
Mas agora havia mais portas.
Muito mais.
Portas que ela não lembrava de ter visto antes.
Algumas entreabertas.
Outras completamente fechadas.
Algumas com marcas profundas na madeira.
Como se unhas tivessem arranhado a superfície repetidamente.
Lentamente.
Com força.
Mais quadros nas paredes.
Retratos antigos.
Pessoas que pareciam ter vivido naquela casa há muito tempo.
Homens.
Mulheres.
Crianças.
Mas havia algo estranho nos retratos.
Os olhos.
Os olhos pareciam seguir Lívia enquanto ela caminhava.
Como se soubessem que ela estava ali.
Como se a reconhecessem.
— Daniel… — disse ela lentamente.
— Eu sei.
Ele havia percebido também.
O corredor estava maior.
Muito maior.
Mais comprido do que deveria ser.
Como se a casa estivesse mudando enquanto eles caminhavam.
Como se estivesse reorganizando seu próprio interior.
Como um organismo vivo.
Respirando.
Se esticando.
Mudando.
O isqueiro tremulou quando uma corrente de ar frio passou pelo corredor.
A chama quase apagou.
E naquele breve instante em que a luz vacilou…
Lívia viu algo.
Uma sombra.
Muito próxima deles.
Parada ao lado de uma das portas.
Alta.
Imóvel.
Ela virou rapidamente a cabeça.
— Daniel!
Ele apontou o isqueiro naquela direção.
Nada.
Apenas a porta fechada.
Mas então…
TOC.
Algo bateu na parede atrás deles.
Os dois se viraram imediatamente.
O som parecia ter vindo de dentro da própria madeira.
Como se alguém estivesse batendo do outro lado da parede.
TOC.
Desta vez foi mais alto.
Mais insistente.
Lívia sentiu o estômago se contrair.
Daniel aproximou a chama da parede.
A madeira parecia antiga.
Rachada.
Mas nada indicava que houvesse espaço dentro dela.
Mesmo assim…
TOC.
A batida ecoou novamente.
Mais próxima.
Mais urgente.
— Isso não é possível… — murmurou Daniel.
O som mudou.
De batidas…
Para algo mais lento.
Arranhões.
SCRAAAAATCH.
Um som longo.
Áspero.
Algo estava arranhando a parede.
Movendo-se dentro dela.
Como se houvesse algo vivo no interior das estruturas da casa.
Lívia deu um passo para trás.
O arranhão continuou.
Seguindo-os.
Acompanhando cada movimento deles.
Como se estivesse rastejando dentro das paredes ao lado deles.
SCRAAAAATCH.
A madeira vibrou levemente.
Como se algo grande estivesse pressionando por dentro.
Daniel apertou o isqueiro com mais força.
— Continue andando.
Eles avançaram novamente.
Mas então ouviram outra coisa.
Respiração.
Pesada.
Lenta.
Atrás deles.
Lívia sentiu um frio percorrer todo o seu corpo.
A respiração não parecia humana.
Era profunda demais.
Como o fôlego de algo enorme.
Ela virou a cabeça muito devagar.
O corredor atrás deles estava mergulhado na escuridão.
Mas havia algo ali.
Algo alto.
Parado.
Uma forma mais escura que a própria escuridão.
Ela não conseguia ver o rosto.
Nem os detalhes.
Mas sabia que estava sendo observada.
Sentia isso.
Como um peso invisível sobre sua pele.
Daniel percebeu sua expressão.
— O que foi?
Lívia m*l conseguiu falar.
— Tem… alguma coisa atrás da gente.
Daniel virou-se imediatamente.
O isqueiro iluminou apenas um pequeno círculo de luz.
Nada.
Apenas o corredor vazio.
Mas naquele exato momento…
A chama se apagou.
A escuridão voltou.
Total.
E então, no silêncio que tomou conta da casa novamente…
Os sussurros retornaram.
Primeiro fracos.
Distantes.
Como vozes atravessando paredes antigas.
Mas desta vez não estavam nas paredes.
Nem no corredor.
Estavam perto.
Muito perto.
Tão perto que Lívia sentiu algo roçar levemente seu ouvido.
Um sopro frio.
E uma voz baixa.
Arrastada.
Quase carinhosa.
Sussurrou novamente:
— Lívia…
O coração dela disparou.
Porque agora não havia mais dúvida.
Aquilo não estava apenas chamando por ela.
Aquilo…
Sabia exatamente quem ela era.
E naquele instante terrível…
Lívia percebeu algo que fez seu sangue gelar.
A casa não estava apenas observando.
Ela estava esperando.
Esperando por ela.
Desde muito antes de ela chegar.