Capítulo 10

1106 Words
O corredor parecia não ter fim. Cada passo que Lívia e Daniel davam fazia a madeira antiga ranger de forma perturbadora, como se estivesse gemendo de dor, reclamando da presença deles. O ar estava pesado, úmido, com um cheiro de mofo e algo mais, indefinível, que queimava levemente o nariz. Cada respiração parecia puxar a tensão para dentro dos pulmões, tornando difícil pensar com clareza. Lívia segurava o braço de Daniel com força, como se fosse o último vínculo com o mundo real. Os sussurros ainda ecoavam ao redor deles, misturados a sons que não deveriam existir: passos lentos que surgiam do nada, rangidos das paredes, estalos das tábuas, e o ocasional sussurro do seu próprio nome. Lívia podia jurar que o corredor inteiro vibrava com aqueles sons, como se estivesse vivo, observando, testando-os. — Daniel… — sua voz saiu quase como um fio de ar. — Tem algo errado. Muito errado. Ele assentiu, sem conseguir desviar os olhos da escuridão que se estendia à frente. — Eu sei… mas não podemos parar agora. Temos que descobrir o que está acontecendo. O isqueiro tremia em sua mão, lançando uma luz fraca que iluminava apenas alguns centímetros à frente. Foi nesse instante que eles notaram algo estranho: uma porta que não existia antes estava à direita. Pequena, baixa, de madeira antiga e gasta, com a pintura descascando em camadas irregulares. Havia algo… diferente naquela porta. Algo que parecia chamar por Lívia. Ela se aproximou lentamente, cada passo cuidadoso, quase flutuando acima do chão. Quanto mais se aproximava, mais a sensação de déjà vu aumentava. Uma memória antiga começou a emergir, fragmentada, confusa. Ela era criança novamente, correndo pelo corredor de uma casa desconhecida, rindo, sendo chamada por alguém, mas… não se lembrava exatamente quem. Até agora. Daniel percebeu a mudança na expressão dela. — Lívia… você está bem? Ela balançou a cabeça, incapaz de falar. Algo a puxava para a porta, uma força invisível e irresistível, como se a própria casa tivesse mãos que a guiavam. O ar parecia vibrar ao redor dela, sussurrando palavras inaudíveis, impossíveis de entender, mas cheias de significado. Com um tremor nas mãos, Lívia abriu a porta. O que encontrou atrás dela fez seu coração congelar. Era um quarto. Um quarto que não existia antes. Pequeno, escuro, mas intensamente real. O cheiro era o mesmo da infância: madeira velha, poeira, um toque de ferro. Mas havia algo mais. Algo vivo. No centro do quarto estava a boneca. A mesma boneca que viram no corredor, agora sentada em uma pequena cadeira de balanço que se movia lentamente, sem vento, sem nenhum toque humano. Os olhos de vidro brilhavam na penumbra, fixos em Lívia, penetrantes, vivos. Ela engoliu em seco. — Eu… eu conheço essa boneca… — murmurou, a voz trêmula. Daniel se aproximou, tentando conter o terror que crescia dentro dele. — O que quer dizer? — Ela… ela esteve comigo quando eu era criança. Mas eu não lembrava… — Lívia respirou fundo, tentando controlar o pânico. — Eu devia ter uns cinco anos. Estava… brincando sozinha em casa. Mas a memória some depois disso. Eu não sei por quê. Enquanto falava, o quarto parecia mudar ao redor deles. As paredes se alongavam, os cantos se escureciam ainda mais. O isqueiro de Daniel lançava sombras que se moviam de forma própria, quase como se a casa estivesse respirando, reorganizando seu espaço. E então, o impossível aconteceu: a boneca se levantou sozinha. Os movimentos eram lentos, quase humanos. Ela colocou os pés no chão, balançou a cabeça, como se estudasse cada passo de Lívia e Daniel. Um silêncio absoluto caiu no quarto, interrompido apenas pelo ranger do piso de madeira e pelo bater do coração deles. — Lívia… — murmurou Daniel, a voz fraca, quase engolida pelo medo. — Isso não é real… não pode ser real… Mas Lívia sabia que era. Sabia porque… ela já tinha sentido isso antes. A mesma sensação quando criança: alguém observando, alguém presente, algo que existia para além da sua visão e que sabia exatamente quem ela era. A boneca se aproximou lentamente. Cada passo fazia o chão ranger, cada movimento parecia estudar, medir, pesar. E então… Lívia sentiu uma memória chegar com força total. Ela era criança, correndo pelo corredor, rindo, sentindo a presença da casa, e alguém a chamando. Alguém ou algo que morava dentro daquela casa. E a boneca… a boneca sempre esteve lá, guardando-a, vigiando-a. Protetora? Ou prisioneira? Ela não sabia. Mas agora entendia que a casa não tinha esquecido dela. Nunca. O quarto começou a se expandir lentamente. As paredes se alongaram, os móveis surgiram do nada: um berço antigo, uma cadeira de balanço que se movia sozinha, prateleiras com brinquedos antigos, livros antigos, fotos amareladas de crianças que Lívia não conhecia, mas sentia uma conexão estranha. Como se aquelas vidas tivessem se cruzado com a dela de alguma forma. — Daniel… — murmurou, a voz trêmula. — Eu… eu vivi aqui. Mas não lembro como saí. Daniel olhou para ela, assustado, mas tentando manter a calma. — Então… isso significa que… você cresceu longe desta casa, mas de alguma forma ela nunca te deixou. Lívia assentiu. O peso da revelação esmagava sua mente. A casa não era apenas assombrada. Ela era viva. Guardava memórias, manipula o tempo, observava cada movimento, chamava aqueles que pertenciam a ela. A boneca, agora parada a poucos metros deles, olhou para Lívia. Lentamente, estendeu a mão em direção a ela. O ar ao redor parecia vibrar. Os sussurros voltaram. Desta vez, mais altos, mais claros. Uma mistura de vozes de crianças, adultos e algo… mais antigo. Algo ancestral. — Lívia… venha… — sussurravam, repetindo seu nome em uníssono, como um coro sombrio. Ela sentiu um frio profundo subir pela espinha. Cada fibra de seu ser gritava para fugir, mas ao mesmo tempo, algo dentro dela… algo antigo… a chamava para permanecer. Para entender. Para aceitar. E naquele instante, ela soube que a casa, a boneca e as memórias que tinha perdido estavam entrelaçadas de uma forma que mudaria tudo o que ela pensava sobre sua vida, sua infância, e sobre si mesma. O quarto respirava. A casa respirava. O passado de Lívia respirava. E o presente não pertencia mais a eles. Daniel apertou o braço dela com força, tentando ancorá-la à realidade. — Lívia… nós precisamos sair daqui… agora. Mas ela não conseguia se mover. A boneca a observava, e com cada segundo que passava, parecia que algo invisível começava a rodeá-los, envolvendo-os, puxando-os para o interior do quarto que jamais deveria existir… E a casa… a casa finalmente sussurrou de novo. — Volte para mim, Lívia…
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