Por alguns longos segundos, nenhum dos dois conseguiu dizer nada.
A casa erguia-se diante deles como uma presença impossível, algo que parecia existir fora da lógica do mundo ao redor, como se tivesse sido arrancada de outro tempo e colocada ali apenas para ser observada naquela noite específica. A neblina se movia lentamente ao redor da construção, deslizando pelas paredes escuras e pelos degraus da antiga varanda de madeira, como se estivesse viva e quisesse esconder certos detalhes da visão de quem se aproximasse.
Lívia sentiu o coração bater mais forte contra o peito.
Ela lembrava claramente do que Daniel havia contado mais cedo naquele dia. O incêndio. A destruição da casa. O desaparecimento da família Montenegro.
Aquilo não deveria estar ali.
E ainda assim estava.
A construção parecia antiga, mas sólida. As paredes de madeira estavam escurecidas pelo tempo, e algumas partes do telhado pareciam ligeiramente afundadas, como se décadas de chuva e vento tivessem deixado marcas silenciosas sobre a estrutura. As janelas eram altas e estreitas, muitas delas cobertas por poeira e rachaduras, mas algumas deixavam escapar uma luz fraca que pulsava suavemente dentro da casa.
Luz.
Como se alguém estivesse lá dentro.
Daniel deu um passo à frente.
— Isso… não faz sentido — murmurou ele.
A lanterna em sua mão iluminou parcialmente a varanda, revelando tábuas antigas que rangiam sob o leve sopro do vento.
Lívia avançou ao lado dele, sentindo a estranha mistura de medo e curiosidade que parecia empurrá-la cada vez mais perto daquela construção impossível.
O silêncio da floresta era absoluto.
Nenhum pássaro.
Nenhum inseto.
Apenas o vento.
E a casa.
Eles subiram lentamente os degraus da varanda.
Cada passo produzia um rangido baixo e prolongado, como se a madeira estivesse protestando contra a presença deles depois de tantos anos de abandono. O corrimão estava coberto por uma camada grossa de poeira e pequenas teias de aranha que se estendiam entre as colunas da varanda.
Daniel levantou a lanterna e apontou para a porta principal.
Era enorme.
Feita de madeira escura, com entalhes antigos que pareciam formar padrões estranhos ao redor da maçaneta de ferro.
Por um instante, os dois ficaram apenas olhando para ela.
Então Daniel estendeu a mão.
A maçaneta estava fria.
Ele a girou lentamente.
A porta se abriu.
O som que ecoou naquele momento foi longo e profundo, um rangido arrastado que pareceu atravessar toda a casa como um suspiro antigo sendo liberado depois de décadas de silêncio.
O interior estava escuro.
A luz da lanterna atravessou a entrada e revelou um corredor amplo coberto por poeira, com paredes revestidas por madeira escura e quadros antigos pendurados em intervalos irregulares.
O ar lá dentro tinha um cheiro estranho.
Algo entre madeira úmida, poeira e algo mais antigo, difícil de identificar.
Lívia deu um passo para dentro.
Assim que cruzou o limite da porta, sentiu algo estranho.
Uma mudança quase imperceptível na temperatura.
O ar parecia mais frio ali dentro.
Mais pesado.
Daniel entrou logo atrás.
A porta se moveu lentamente atrás deles.
E então…
CRAAACK.
Os dois se viraram imediatamente.
A porta havia se fechado sozinha.
Daniel franziu a testa.
— Deve ter sido o vento — disse ele, embora não houvesse nenhuma corrente de ar perceptível dentro da casa.
Lívia não respondeu.
Ela estava olhando para o corredor.
Algo naquele lugar parecia errado.
O corredor era longo.
Mais longo do que deveria ser para uma casa daquele tamanho.
A luz da lanterna iluminava apenas uma pequena parte do caminho à frente, e as sombras pareciam se esticar pelas paredes como manchas líquidas que se moviam lentamente.
— Você percebeu isso? — perguntou ela em voz baixa.
— O quê?
— O corredor.
Daniel apontou a lanterna para frente.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— É… grande — disse finalmente.
Mas havia algo mais.
O chão estava coberto por uma camada grossa de poeira.
Exceto por uma coisa.
Pegadas.
Marcas recentes atravessavam o corredor.
Como se alguém tivesse caminhado por ali não muito tempo antes.
Daniel se abaixou.
— Isso não é bom — murmurou.
— O senhor Antunes? — perguntou Lívia.
Ele não respondeu imediatamente.
Então levantou-se lentamente.
— Talvez.
Eles começaram a caminhar.
Cada passo produzia um rangido baixo do assoalho antigo, um som que parecia ecoar pela casa inteira.
À medida que avançavam pelo corredor, Lívia começou a perceber algo ainda mais perturbador.
O caminho parecia… mudar.
Ela tinha certeza de que já deveria ter chegado ao final do corredor.
Mas ele continuava.
Portas apareciam dos dois lados, algumas entreabertas, outras completamente fechadas.
A lanterna iluminou uma delas.
Daniel empurrou devagar.
A porta abriu com um rangido.
Era uma sala de estar antiga.
Móveis cobertos por lençóis brancos estavam espalhados pelo ambiente, formando silhuetas estranhas que pareciam quase humanas sob a luz fraca.
Um grande espelho estava preso à parede.
E por um instante, quando Lívia passou diante dele, teve a impressão de que seu reflexo demorou um segundo a acompanhar seu movimento.
Ela parou.
Olhou novamente.
Agora parecia normal.
Talvez fosse apenas o reflexo da lanterna.
— Vamos continuar — disse Daniel.
Eles voltaram ao corredor.
E foi então que ouviram.
Um som.
Muito baixo.
Tão baixo que no início parecia apenas o vento passando pelas frestas da casa.
Mas não era vento.
Era… voz.
Um sussurro.
Lívia parou imediatamente.
— Você ouviu isso?
Daniel também parou.
O som veio novamente.
Um murmúrio distante, arrastado, como se várias vozes estivessem falando ao mesmo tempo em algum lugar profundo dentro da casa.
As palavras eram impossíveis de entender.
Mas havia algo perturbador nelas.
Algo que parecia… chamar.
Lívia sentiu os pelos de seus braços se arrepiarem.
— Tem alguém aqui — murmurou Daniel.
Ele ergueu a lanterna e apontou para o fim do corredor.
O sussurro parecia vir daquela direção.
Eles começaram a caminhar novamente.
Mais devagar agora.
Mais cautelosos.
O corredor parecia ainda mais longo do que antes.
Cada passo parecia levar mais tempo.
Cada sombra parecia mais profunda.
E o sussurro…
O sussurro parecia ficar um pouco mais alto.
Como se percebesse a aproximação deles.
Como se estivesse esperando.
De repente, uma das portas do corredor se moveu.
Sozinha.
Devagar.
CREAAAAAK.
Lívia sentiu o coração disparar.
A porta abriu alguns centímetros.
O interior da sala era completamente escuro.
Daniel apontou a lanterna.
Nada.
Apenas um quarto vazio.
Mas o sussurro continuava.
Agora mais próximo.
Mais claro.
E por um instante que pareceu congelar o tempo ao redor deles, Lívia teve a impressão de ouvir algo diferente dentro daquele murmúrio indistinto.
Uma palavra.
Uma única palavra.
Seu nome.
— Lívia…
Ela congelou.
— Daniel… — murmurou.
Mas ele também parecia ter ouvido.
Os dois se entreolharam em silêncio.
Porque naquele momento ficou claro que não estavam sozinhos naquela casa.
E enquanto a lanterna tremia levemente na mão de Daniel, projetando sombras inquietas pelas paredes antigas do corredor interminável…
Os sussurros continuaram.
Mais próximos.
Mais numerosos.
Mais atentos.
Como se a casa inteira tivesse despertado.
E como se, de alguma forma impossível…
Ela soubesse exatamente quem havia entrado.