Capítulo 39

1157 Words
Naquela manhã, a cidade parecia diferente para Lívia, mesmo que tudo ao redor seguisse como sempre. As pessoas caminhavam pelas ruas, as lojas abriam lentamente e o som distante de carros e vozes criava o murmúrio habitual de um lugar que despertava para mais um dia comum. Ainda assim, para ela, nada parecia realmente normal. Desde que havia conversado com Daniel, uma inquietação constante permanecia dentro de seu peito. A notícia do desaparecimento do vigia não saía de sua cabeça, e quanto mais ela pensava nisso, mais difícil ficava ignorar a possibilidade de que aquilo estivesse ligado à casa na colina. Ela tentou continuar sua rotina durante a manhã, mas era impossível manter a concentração em qualquer coisa. Seus pensamentos voltavam sempre para o mesmo lugar: a trilha que levava até o alto da colina e a casa silenciosa que os observava lá de cima. Por volta do meio-dia, Daniel chegou até a rua onde ela morava. O céu estava claro, e uma brisa leve movia as folhas das árvores ao longo da calçada. Quando Lívia saiu de casa e o viu encostado no carro, percebeu imediatamente que ele parecia tão inquieto quanto ela. — Você também não conseguiu parar de pensar nisso, não é? — ela perguntou, assim que se aproximou. Daniel deu um pequeno sorriso cansado. — Nem por um minuto. Eles ficaram em silêncio por alguns segundos. Não era necessário dizer muito mais. Ambos sabiam exatamente no que estavam pensando. — Você falou com alguém sobre o vigia? — perguntou Lívia enquanto entravam no carro. — Um pouco — respondeu Daniel, ligando o motor. — Passei no café da praça mais cedo. Algumas pessoas estavam comentando. O nome dele era Eduardo Braga. Lívia repetiu o nome em voz baixa, tentando gravá-lo na memória. — E ninguém sabe o que aconteceu? Daniel balançou a cabeça. — Só sabem que o carro dele estava no depósito onde ele trabalhava. O telefone também. Ele simplesmente… desapareceu. Enquanto o carro começava a se mover pelas ruas da cidade, Lívia sentiu novamente aquele aperto no estômago. O silêncio que se instalou entre os dois parecia carregado de pensamentos que nenhum deles queria dizer em voz alta. Depois de alguns minutos, Daniel voltou a falar. — Tem mais uma coisa. Lívia virou o rosto para ele. — O quê? — Uma senhora que mora perto da estrada da colina disse que viu algo estranho durante a madrugada. — O quê exatamente? Daniel respirou fundo antes de responder. — Ela disse que viu uma luz na casa. Lívia ficou imóvel. — Luz? — Sim. Na janela do andar de cima. Por um momento, nenhum dos dois disse nada. O som do motor do carro parecia muito mais alto do que realmente era. — Talvez tenha sido só imaginação dela — disse Lívia finalmente, embora sua própria voz não parecesse muito convincente. Daniel não respondeu imediatamente. — Ela disse outra coisa também. — O quê? Ele hesitou por um segundo. — Que viu alguém parado na janela. Lívia sentiu um arrepio percorrer seus braços. — Alguém? Daniel assentiu. — Uma silhueta. Parada lá dentro. Ela olhou pela janela do carro, observando as casas e árvores passando lentamente. Uma parte dela queria acreditar que aquilo tudo não passava de coincidência ou imaginação. Mas outra parte… a mesma parte que a havia feito aceitar subir novamente até a casa… sentia que havia algo muito mais profundo acontecendo. Pouco tempo depois, as ruas da cidade começaram a ficar mais vazias. As casas deram lugar a terrenos mais abertos, e a estrada que levava para fora da cidade apareceu diante deles, estendendo-se silenciosamente até a base da colina. Daniel estacionou o carro perto do início da trilha. Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu. A colina se erguia diante deles, coberta por árvores altas e vegetação densa. De baixo, era impossível ver claramente a casa, mas ambos sabiam que ela estava lá. Esperando. Lívia respirou fundo antes de abrir a porta do carro. — Ainda dá tempo de desistir — disse Daniel. Ela olhou para ele. — Você vai desistir? Ele balançou a cabeça. — Não. — Então vamos. O início da trilha parecia exatamente como da última vez que estiveram ali. A terra batida, as pedras espalhadas pelo caminho e os galhos baixos das árvores que se inclinavam sobre a passagem criavam a sensação de estar entrando em um lugar que não era visitado com frequência. À medida que subiam, o som da cidade desaparecia lentamente atrás deles. O ar parecia mais frio ali em cima, e o silêncio da floresta era profundo. Lívia tentou ignorar a sensação estranha que crescia dentro dela a cada passo. Era como se o próprio lugar estivesse observando a presença deles. Depois de alguns minutos de subida, Daniel falou em voz baixa: — Você sente isso? — O quê? — Como se o lugar estivesse… diferente. Lívia assentiu. Ela sentia exatamente a mesma coisa. Não era apenas o silêncio. Era algo mais difícil de explicar. Uma sensação de expectativa. Como se algo estivesse aguardando. Finalmente, entre as árvores, a casa apareceu. Ela surgiu lentamente diante deles, exatamente como na última vez que estiveram ali. Grande, antiga e silenciosa, com suas janelas escuras e a pintura desgastada pelo tempo. Por alguns segundos, os dois apenas ficaram parados observando. Mesmo durante o dia, havia algo profundamente inquietante naquele lugar. A varanda de madeira parecia ainda mais antiga do que antes, e algumas tábuas pareciam soltas ou quebradas. As janelas do andar superior refletiam o céu claro, mas o interior permanecia completamente invisível. Daniel começou a caminhar lentamente em direção à casa. Lívia o seguiu. Cada passo parecia ecoar no silêncio ao redor. Quando chegaram à base da varanda, Daniel parou de repente. — Lívia… Ela olhou para ele. — O que foi? Ele apontou para o chão. Lívia baixou o olhar. E então viu. Na madeira da varanda, havia marcas. Marcas de sapatos. Pegadas recentes. A poeira acumulada ali deixava tudo muito claro. Alguém tinha passado por ali recentemente. Muito recentemente. O coração de Lívia começou a bater mais rápido. — Você está vendo isso também, não é? — perguntou Daniel. — Estou. As pegadas seguiam diretamente até a porta da casa. E paravam ali. Lívia levantou lentamente o olhar para a porta. Ela estava entreaberta. Exatamente como se alguém tivesse entrado… e nunca mais saído. Um vento leve passou pela varanda naquele momento, fazendo a porta ranger suavemente. O som foi baixo, mas suficiente para fazer ambos prenderem a respiração. Durante alguns segundos, nenhum deles disse nada. Então Daniel falou, em um tom quase sussurrado: — Acho que encontramos o lugar onde ele entrou. Lívia não respondeu. Seus olhos estavam fixos na escuridão além da porta. E pela primeira vez desde que haviam chegado, um pensamento perturbador surgiu em sua mente. Se Eduardo Braga tinha realmente entrado naquela casa na noite anterior… então talvez… ele ainda estivesse lá dentro.
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