Capítulo 41

1054 Words
Durante alguns segundos, nenhum dos dois disse absolutamente nada. Daniel ainda segurava o celular encontrado no chão do quarto, como se o objeto tivesse se tornado mais pesado de repente. A lanterna do telefone dele iluminava parcialmente o espaço, projetando sombras longas nas paredes desgastadas. A janela atrás deles deixava entrar um pouco da luz da tarde, mas não o suficiente para afastar a sensação de que o quarto estava mergulhado em uma penumbra estranha. Lívia sentia o coração bater forte dentro do peito. O telefone na mão de Daniel era a prova de que o vigia realmente tinha estado ali. Aquilo deixava a situação muito mais real do que qualquer suspeita ou teoria. Eduardo Braga tinha subido até aquela casa. Tinha entrado. Tinha caminhado pelos corredores exatamente como eles estavam fazendo agora. Mas por algum motivo… não tinha saído. — A bateria ainda tem carga — disse Daniel em voz baixa, olhando para a tela. Lívia se aproximou um pouco mais. — Consegue ligar? Ele apertou o botão lateral. A tela piscou por um momento antes de acender completamente. A imagem de fundo apareceu: uma fotografia simples de uma mulher e uma menina pequena sorrindo para a câmera. Provavelmente a família de Eduardo. Aquilo fez o peso dentro do peito de Lívia aumentar. — Talvez tenha alguma mensagem… ou chamada — disse ela. Daniel deslizou o dedo pela tela. O aparelho estava lento, mas ainda funcionava. O histórico de chamadas apareceu primeiro. Havia várias ligações feitas durante a noite anterior, mas nenhuma delas tinha sido completada. Todas canceladas. — Ele tentou ligar para alguém — murmurou Daniel. Lívia sentiu um calafrio. — Talvez quando percebeu que estava preso aqui. Daniel abriu a lista de mensagens. A maioria era antiga, conversas comuns do dia a dia. Porém havia uma mensagem recente, escrita durante a madrugada. Daniel abriu. As palavras eram curtas. “Tem alguém aqui.” Lívia sentiu o ar ficar preso na garganta. — Ele mandou isso para quem? Daniel olhou o destinatário. — Para um colega do trabalho. O silêncio voltou a dominar o quarto. As palavras daquela mensagem pareciam ecoar na mente de Lívia de uma forma inquietante. “Tem alguém aqui.” Não era exatamente uma frase reconfortante para se ler dentro de uma casa abandonada. Daniel guardou o telefone no bolso. — Isso significa que ele não estava sozinho. Lívia olhou ao redor do quarto novamente. O guarda-roupa antigo parecia inclinado para um lado, e a cadeira quebrada no canto estava coberta por uma camada espessa de poeira. Nada parecia indicar a presença de outra pessoa ali. — Talvez ele estivesse assustado — disse ela. — Talvez tenha imaginado alguma coisa. Daniel não respondeu imediatamente. Ele caminhou até a janela e olhou para fora. Do alto da colina era possível ver grande parte da cidade. As ruas pareciam pequenas à distância, e os telhados das casas formavam um mosaico irregular que se estendia até o horizonte. — Essa deve ser a janela que a senhora disse ter visto alguém — comentou ele. Lívia se aproximou também. — A que tinha uma luz? — Sim. Ela tentou imaginar alguém parado ali durante a madrugada, olhando para a cidade adormecida. A imagem era perturbadora, especialmente sabendo que Eduardo tinha estado naquele mesmo quarto. Mas então algo interrompeu seus pensamentos. Um som. Muito baixo. Quase imperceptível. Lívia franziu a testa. — Você ouviu isso? Daniel virou o rosto lentamente. — Ouvi. O som veio novamente. Um rangido. Longo. Profundo. Como madeira se movendo sob peso. Os dois permaneceram completamente imóveis. O som parecia vir de algum lugar abaixo deles. Do andar de baixo. Daniel desligou a lanterna do celular por um momento, como se estivesse tentando ouvir melhor. O silêncio que se seguiu parecia absoluto. Então o som veio outra vez. Desta vez mais claro. Um passo. A madeira do piso rangendo. Lívia sentiu o coração disparar. — Tem alguém lá embaixo — sussurrou. Daniel ficou parado por alguns segundos, tentando decidir o que fazer. Seus olhos estavam fixos na porta aberta do quarto, que dava para o corredor do andar superior. Outro rangido ecoou pela casa. Não era vento. Não era um animal pequeno. Era o som inconfundível de algo — ou alguém — se movendo pelo piso antigo. Lívia aproximou-se um pouco mais de Daniel. — Talvez seja o Eduardo — disse ela, embora sua própria voz não demonstrasse muita convicção. Daniel parecia pensar na mesma coisa. Se Eduardo ainda estivesse dentro da casa, talvez estivesse ferido… ou escondido. Mas havia algo estranho naquela ideia. Porque as pegadas no chão terminavam naquele quarto. Elas não mostravam ninguém descendo novamente. O som no andar de baixo continuou. Um passo. Depois outro. Lento. Arrastado. Como se quem estivesse se movendo tivesse dificuldade para caminhar. Daniel pegou novamente o celular e ligou a lanterna. — Fica atrás de mim — disse ele em voz baixa. Eles saíram do quarto lentamente. O corredor do andar superior parecia ainda mais estreito agora. A luz da lanterna criava sombras irregulares nas paredes, e cada pequeno ruído parecia amplificado pelo silêncio da casa. O som de passos no andar de baixo continuava. Lívia sentiu um frio subir por sua coluna. — Daniel… — Eu sei. Eles chegaram ao topo da escada. Daniel apontou a lanterna para baixo. A escada estava vazia. O corredor do andar inferior também parecia vazio. Mas o som ainda estava lá. Mais próximo agora. Vindo de algum lugar que eles não conseguiam ver. Outro rangido ecoou pela casa. Desta vez mais alto. E então… algo se moveu na escuridão do corredor. Lívia segurou o braço de Daniel com força. — Você viu isso? A lanterna tremia levemente na mão dele. — Vi. Por um breve segundo, parecia que uma sombra tinha passado rapidamente diante da porta de um dos quartos do andar de baixo. Mas agora o corredor estava vazio novamente. Silencioso. Imóvel. Daniel deu um passo em direção ao primeiro degrau da escada. — Talvez seja só alguém que entrou aqui antes da gente. Lívia não tinha tanta certeza. Porque naquele momento, uma sensação muito clara tomou conta dela. A mesma sensação que havia sentido da primeira vez que entrou naquela casa. A sensação de que eles não estavam sozinhos. E de que… algo dentro daquela casa sabia exatamente onde eles estavam.
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