CAPÍTULO 1 — CONHECENDO BIANCA

1957 Words
Bianca De Luca Narrando  Me chamo Bianca De Luca. Tenho vinte e quatro anos e sou a filha mais nova de Vittorio De Luca, o Dom da máfia italiana. Meu sobrenome abre portas. Meu pai pode fazer homens poderosos abaixarem a cabeça. Minha família é respeitada, temida e, para muitos, intocável. Mas existe uma coisa que quase ninguém sabe sobre mim. Eu vivo presa. Não apenas pela cadeira de rodas. Presa dentro da Fortaleza De Luca. Desde os dezessete anos. Foi naquela idade que minha vida mudou para sempre. Um atentado. Um ataque que deveria ter matado a mim e à minha mãe. Ela não sobreviveu. Eu sobrevivi. Ou, pelo menos, foi isso que todos disseram. Às vezes, ainda me pergunto se sobreviver é realmente a palavra certa. Porque sobreviver não significa sair ilesa. Eu perdi minha mãe. Perdi os movimentos das minhas pernas. Perdi a liberdade. E, em algum momento entre os corredores daquela fortaleza e os olhares de pena que recebia todos os dias, percebi que também havia perdido uma parte de mim. Dizem que uma pessoa presa a uma cadeira de rodas é incapaz de lutar. Que precisa ser protegida. Que representa um peso. Aprendi cedo que as pessoas enxergam apenas aquilo que querem ver. Enquanto todos olhavam para minhas pernas, eu observava seus rostos. Enquanto perguntavam se eu estava bem, eu prestava atenção na forma como desviavam os olhos. Enquanto fingiam que nada havia mudado, eu decorava suas palavras. Descobria contradições. Percebia hesitações. Guardava nomes. Datas. Expressões. Mentiras. Minha memória sempre foi meu maior presente. Ou talvez minha maior maldição. Porque eu me lembro de coisas que gostaria de esquecer. Principalmente daquela noite. Do barulho dos tiros. Do cheiro de pólvora. Da voz da minha mãe. Do sangue. E daquele último olhar que ela me deu. Algumas lembranças não desaparecem. Elas apenas aprendem a ficar em silêncio dentro da gente. Cinco anos. Esse foi o tempo que passei escondida na Fortaleza da família De Luca, construída no alto das montanhas italianas. Um lugar enorme. Bonito. Imponente. Perfeito para quem olha de fora. Muros altos cercavam toda a propriedade. Homens armados permaneciam espalhados pelos jardins e corredores. Câmeras vigiavam cada entrada. Ninguém entrava sem autorização. Ninguém saía sem a permissão do meu pai. Meu pai dizia que ali eu estava segura. Eu chamava aquilo de prisão. Talvez ele nunca tenha entendido que segurança demais também pode sufocar. Respirei fundo enquanto fechava o livro sobre estratégia militar que havia terminado pela terceira vez. Passei o dedo pela capa antes de colocá-lo sobre a mesa. Eu já conhecia aquelas páginas quase de cor. Ao meu lado, uma pilha de documentos aguardava minha análise. Rotas. Contas. Nomes. Datas. Movimentações. Tudo relacionado aos negócios da família. Era curioso. Todos acreditavam que eu passava os dias presa naquela biblioteca porque não tinha outra coisa para fazer. Não sabiam que aquela biblioteca era o único lugar onde eu sentia que tinha algum controle sobre a minha própria vida. Ali, eu não era a filha deficiente do Dom. Não era a garota que precisava de proteção. Não era a sobrevivente de um atentado. Eu era Bianca. E minha mente ainda era minha. Poucos sabiam, mas muitos dos planos do meu pai só davam certo porque passavam primeiro pelas minhas mãos. Eu analisava números. Comparava informações. Memorizava rotas. Encontrava falhas. Às vezes, era capaz de perceber um problema antes mesmo que os homens responsáveis pela segurança da família percebessem. Era uma das poucas coisas que me faziam sentir útil. E eu odiava precisar sentir que era útil para acreditar que tinha valor. — Senhorita Bianca... A voz conhecida me tirou dos pensamentos. Levantei os olhos. Lucia entrou na biblioteca carregando uma bandeja com café. Ela sempre batia duas vezes antes de entrar. Era um pequeno hábito que mantinha desde que eu era criança. Talvez por isso eu nunca tivesse conseguido enxergá-la apenas como uma funcionária. Lucia havia permanecido ao meu lado durante os piores anos da minha vida. Depois do atentado, enquanto todos tinham medo de se aproximar demais da garota quebrada, ela ficou. Ajudou-me quando eu não conseguia sequer olhar para a própria cadeira. Ouviu meus silêncios. Enxugou minhas lágrimas quando eu tinha vergonha de admitir que estava chorando. Era praticamente uma segunda mãe para mim. — Seu pai quer vê-la — falou, colocando a bandeja diante de mim. Observei seu rosto por alguns segundos. Ela parecia nervosa. Muito mais do que deveria. Um pequeno detalhe que provavelmente passaria despercebido para qualquer outra pessoa. Para mim, não. — Imagino que não seja para perguntar como estou. – eu falei. Tentei sorrir, mas meu sorriso morreu antes mesmo de chegar aos olhos. Lucia desviou o olhar. Ela sempre fazia isso quando a resposta era óbvia demais. Meu peito apertou. — Aconteceu alguma coisa? – Perguntei. — Seu pai pediu que fosse imediatamente. — ela falou A maneira como ela respondeu foi suficiente. Não insisti. Segurei as rodas da cadeira e comecei a seguir pelo enorme corredor de mármore. O som das rodas ecoou pelo corredor vazio. Aquilo sempre me fazia lembrar o quanto aquela casa era grande. Grande demais. Fria demais. Silenciosa demais. Nas paredes, retratos dos antigos Dons cobriam quase todos os espaços. Homens de ternos impecáveis. Olhares duros. Posturas arrogantes. Todos poderosos. Todos mortos. Passei diante de um dos retratos e parei por um instante. Às vezes eu me perguntava se algum deles tinha sentido medo antes de morrer. Se algum deles tinha amado alguém de verdade. Se tinham tido a chance de escolher alguma coisa na própria vida. Ou se, assim como eu, tinham apenas cumprido o papel que nasceu junto com o sobrenome. Continuei. Quando alcancei o escritório, respirei fundo antes de entrar. Meu pai estava diante da enorme janela. As mãos estavam apoiadas atrás do corpo. Os cabelos grisalhos denunciavam o peso dos anos. Vittorio De Luca ainda era um homem imponente. Mas eu o conhecia o suficiente para perceber quando alguma coisa o preocupava. E naquele momento havia algo em seus ombros. Uma tensão que ele tentava esconder. — Entre. – Sua voz continuava firme. Obedeci. Sem abraços. Sem beijos. Sem perguntas sobre meu dia. Nunca fomos uma família de demonstrações. Meu pai me amava. Eu sabia disso. Mas algumas pessoas foram ensinadas a amar protegendo. E meu pai tinha transformado proteção em uma muralha impossível de atravessar. Ele colocou uma pasta sobre a mesa. — Preciso que memorize tudo isso. – ele falou. Abri o arquivo. Rotas de transporte. Contas bancárias. Nomes de aliados. Esquemas de segurança. Centenas de informações. Passei os olhos pelas primeiras páginas. — Para quando precisa? – Perguntei — Amanhã. – ele falou. Assenti. Para mim, aquilo não era um desafio. Era rotina. Peguei a primeira folha e comecei a ler. Meu pai permaneceu em silêncio. Percebi. Ele não estava ali apenas por causa daquela pasta. Levantei os olhos. — Mais alguma coisa? – Perguntei. Ele não respondeu imediatamente. Foram apenas alguns segundos. Mas eu conhecia meu pai. E aqueles segundos foram longos demais. — Recebi uma ligação de Alessandro Moretti. – ele respondeu. Meu coração pareceu desacelerar. Moretti. O nome era conhecido até por quem não fazia parte daquele mundo. Alessandro Moretti. O novo Dom. O homem que havia conquistado espaço rapidamente dentro da máfia italiana. Diziam que nunca sorria. Que jamais perdoava uma traição. Que construía impérios enquanto destruía famílias inteiras. Eu nunca o conheci. Mas sabia exatamente quem ele era. — O que ele queria? – Perguntei. Meu pai se afastou da janela e caminhou até mim. Seu rosto estava sério. Mais sério do que antes. — Você. – ele respondeu. Franzi o cenho. Por alguns segundos, achei que tivesse entendido errado. — Não entendi. – Falei confusa. Ele me encarou. — Alguém colocou um preço pela sua cabeça. – ele falou. O ar pareceu ficar pesado. Olhei para meu pai. Depois para a pasta. Depois novamente para ele. Não senti medo. Ainda não. Na máfia, todos convivem com a morte. A diferença é que alguns apenas demoram mais para encontrá-la. — Quem? – Perguntei. — Ainda não sabemos. – ele respondeu. Fechei lentamente a pasta. Meus dedos permaneceram sobre a capa por alguns segundos. — Então descubram. – Falei. Minha voz saiu mais firme do que eu esperava. Meu pai respirou fundo. — Até lá, Alessandro insistiu que você ficará sob a proteção dele. — ele falou. Meu estômago se contraiu. Proteção. Novamente aquela palavra. Sempre proteção. Como se eu fosse incapaz de decidir qualquer coisa sobre a minha própria vida. — Não. – Falei firme. Meu pai me encarou. — Não é um pedido. – ele falou. Soltei uma risada curta, sem humor. — Então é uma ordem? – Perguntei. — É a única maneira de mantê-la viva. – ele falou. Apertei os braços da cadeira. As unhas pressionaram minha própria pele. Cinco anos. Cinco anos presa naquela fortaleza. Cinco anos ouvindo que era para o meu bem. Cinco anos tendo cada movimento observado. E agora meu pai queria me entregar aos cuidados de outro homem. Trocar uma prisão por outra não era liberdade. Era apenas uma mudança de endereço. Eu estava prestes a responder quando a porta se abriu abruptamente. Um dos seguranças entrou apressado. O rosto estava pálido. Meu pai se virou imediatamente. — Dom... — ele falou nervoso. — O que houve? — meu pai perguntou. O homem engoliu em seco. Seus olhos foram até mim por um instante. Foi rápido. Mas eu vi. — Encontramos um corpo no portão principal. — ele falou. Meu pai endureceu. — Quem era? — meu pai perguntou. O segurança respirou fundo antes de responder. — Um dos nossos mensageiros. – ele falou. Meu coração começou a bater mais rápido. Dessa vez, senti. O homem continuou: — Ele estava com um envelope preso ao peito por uma faca... Meu estômago revirou. Por alguns segundos, ninguém falou. Meu pai estendeu a mão. — O envelope. — meu pai falou firme. O segurança entregou um celular. Provavelmente com uma foto. Meu pai aproximou a tela. Seus olhos percorreram as palavras. Então ele ficou imóvel. — O que dizia? — perguntei. Ele não respondeu. Foi o segurança quem falou. — "Entreguem Bianca... ou o próximo será alguém da família." Meu corpo ficou completamente imóvel. Não por medo. Pelo menos, não apenas por medo. Havia algo pior. A sensação de que aqueles cinco anos de prisão nunca tinham sido suficientes para me esconder. Eles sabiam onde eu estava. Sabiam meu nome. Sabiam como chegar até mim. Olhei para meu pai. Por um instante, enxerguei não o Dom da máfia italiana. Enxerguei apenas meu pai. O homem que perdeu a esposa naquela noite. O homem que passou cinco anos tentando impedir que perdesse a filha também. Seus olhos encontraram os meus. E, pela primeira vez em muito tempo, vi medo neles. Medo de me perder. Meu peito apertou. Eu queria dizer que estava tudo bem. Queria dizer que não iria morrer. Queria tranquilizá-lo. Mas não consegui. Porque, naquele momento, compreendi uma coisa. Aqueles cinco anos escondida não tinham me tornado invisível. Só tinham feito o inimigo esperar. Fechei os olhos por um instante. Quando os abri novamente, alguma coisa dentro de mim havia mudado. Talvez eu devesse ter medo. Talvez qualquer pessoa sensata estivesse apavorada. Mas eu estava cansada. Cansada de ser escondida. Cansada de ser protegida. Cansada de ser tratada como alguém que precisava permanecer dentro de uma fortaleza para continuar viva. Se alguém realmente queria minha cabeça... teria que vir buscá-la. Meu pai fechou a mão ao redor do bilhete. E eu percebi algo que me fez gelar. Aquilo não era apenas uma ameaça. Era o início de uma guerra. E, pela primeira vez... meu nome estava no centro dela.
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