Vanessa como a boa curiosa que sempre fora, revirou um pouco mais a caixa ...
Pentes,
Leque,
Presilha de cabelo,
Um brilhante par de aliança dourada ...
E o tesouro...
Ela encontrou um pequeno livro de veludo verde, tentou abri-lo, mas estava fechado. Vanessa desceu as escadas praticamente correndo e usando seu lado infantil - e sapeca - pegou um pedaço de arame para abrir o cadeado. O coração dela saltou quando ouviu o click.
Era um diário. Era tudo o que precisava para se entreter e passar o tempo.
Vanessa passou os dedos delicadamente pela caligrafia perfeita e mais do que depressa, começou a ler.
- Que os mortos me perdoem, mas vou invadir essa privacidade. - Falou para si mesma.
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8 de Dezembro de 1816
'' Querido diário, hoje é meu aniversario de vinte e cinco anos, ou melhor dizendo, o fim dele ... Meu marido, o renomeado Conde, mais uma vez chegou no final da noite, notavelmente bêbado e ainda que eu não tenha lhe dito, vi uma imensa marca de batom em seu colarinho. Bom, o que dizer se isso já se tornou parte de mim e de quem sou? O que dizer se sou apenas uma mulher sobrevivendo em um mundo aonde quem manda são os homens? O que dizer se eu sequer me importo em saber aonde ele estava, ou com quem estava? Certamente, não há nada a ser dito. ''
Valentina fechou o pequeno diário, limpou a tinta da caneta e apressadamente virou-se de lado, era melhor fingir que dormia, não queria mais uma vez ser distração para o marido que chegara em casa embrigado e exalando um perfume barato de uma mulher qualquer que ele provavelmente pagara para lhe satisfazer.
- Oh ... Querida ... - Balbuciou enquanto ela ainda fingia dormir. - É uma lástima que tenha dormido. Feliz aniversário. - O Conde deu um beijo molhado nos cabelos de Valentina antes de ela ouvir seu corpo pesado desmoronando-se na cama ao seu lado.
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No dia seguinte, ela acordou com um sorriso no rosto, o mesmo que aprendera a fingir anos atrás. Valentina fora prometida a Marcos quando tinha apenas seis anos de idade, e ele já possuía seus dezoito. Desde então, ela não se lembrava da última vez que fora ela mesma, a mãe lhe ensinara a gostar de tudo o que eu Conde gostava, sua cor preferida era a mesma que a dele, sua música preferida, era a preferida dele também, e seu vinho - quando ele a permitia beber - era também o mesmo que o dele.
O matrimônio fora realizado quando Valentina completara dezoito anos, e desde então ela vivia uma vida repleta de luxos e riqueza, mas vazia de amor. O Conde não era um homem m*l, não a batia e raramente a xingava, mas era infiel e nem um pouco carinhoso. Marcos a culpava todos os dias por ainda não ter lhe dado um herdeiro, a chamava de seca frequentemente e vez ou outra ameaçava devolvê-la aos pais, que Deus a perdoasse, mas esse era seu maior desejo.
Valentina vivia como mandava a sociedade, não desafiava o marido e em eventos sociais fingia ser a pessoa mais feliz do mundo, uma esposa amada e realizada, mas por Deus, somente Ele sabia o quão infeliz era ao lado de seu marido. Não conhecera o amor por parte de seus pais e quando era jovem sonhara em um dia conhecer ao lado do homem que viria a ser seu marido, frustrantemente, esse plano também falhou. Não amava o marido, não se sentia amada e nunca amaria o homem com quem provavelmente dividiria o resto de sua vida.