Capítulo 2

1849 Words
Anne Valencourt O St. Regis não era apenas um hotel; era o templo onde a velha e nova Nova York vinham celebrar os seus ritos de passagem. E eu, Anne Valencourt, estava prestes a ser o sacrifício no altar da maior fusão corporativa da década. Eu estava no camarim privado, ajustando mentalmente a armadura. O espelho de moldura dourada devolvia a imagem de uma noiva feita sob medida para a ocasião: o vestido de seda champagne era uma obra de arte que parecia ter sido esculpida em marfim líquido, mas era tão frio e formal quanto um documento legal. Os diamantes que pontilhavam meu pescoço e orelhas não eram presentes de um noivo apaixonado; eram a garantia da fortuna Valencourt. Minha maquiadora, uma francesa impessoal e eficiente, deu o toque final: batom cor de pétala, neutro e elegante. - Você está magnífica, Mademoiselle. - ela sussurrou, a voz carregada de admiração profissional. - Obrigada. - eu respondi, a voz um sussurro rouco. Eu estava magnífica, mas estava vazia. O Contrato com o nome Robert Rockwell estava gravado a fogo em minha mente. Eu o havia assinado há apenas quatro dias, mas o peso daquele compromisso parecia ter envelhecido em uma década. Eu estava me casando com um nome, uma linhagem de poder que, apesar dos problemas financeiros, carregava uma ressonância de Rocha e Construção Rockwell. Um nome que rivalizava com o meu próprio Valencourt. Mas esse nome vinha amarrado a Robert, o filho problema da família Rockwell. Eu sabia que, neste exato momento, Robert deveria estar em algum lugar do salão, talvez flertando com uma das garçonetes ou reclamando sobre o tédio das festas da alta sociedade. Sua presença era tão previsível quanto seu absenteísmo de última hora nas reuniões importantes. Eu esperava o Robert de sempre: bonito, desinteressado, e ligeiramente desgrenhado, com um sorriso que prometia mais problemas do que soluções. Eu me lembrava da minha conversa com o Dr. Finch mais cedo. A cláusula de infidelidade era draconiana, um seguro vitalício que protegia a fortuna Valencourt. Mas eu sabia que Robert, com seu histórico, seria um alvo constante da mídia. Meu papel seria o de gélida guardiã, a esposa que impunha a ordem. Robert. O homem que eu tinha que desposar. Ryan. O homem que eu, secretamente, desejava. O pensamento de Ryan Rockwell era a minha única rebeldia silenciosa. Ryan, o gêmeo que era a âncora, o estrategista de finanças, o único capaz de carregar o peso do nome Rockwell com dignidade e seriedade, além de Richard. Ele tinha os mesmos traços aristocráticos de Robert, o mesmo cabelo loiro-escuro e os mesmos olhos azuis-aço, mas onde Robert via uma piada, Ryan via responsabilidade. Naquela noite, eu faria um desejo silencioso, algo tão audacioso que m*l ousava verbalizar tal pensamento: que Ryan estivesse lá, por perto, para me lembrar que a sanidade ainda existia no mundo dos Rockwell. A porta se abriu. Meu pai, Henri Valencourt, estava na soleira, imponente e impaciente. - A hora é agora, Anne. Lembre-se, você é uma Valencourt. Cabeça erguida. Ele me ofereceu o braço. A descida da escadaria principal do St. Regis era sempre dramática. Enquanto caminhávamos, eu senti os olhares de centenas de convidados. Não eram apenas bilionários e executivos; era a história de Nova York nos observando. O salão era uma tapeçaria de veludo escuro e ouro. No palco principal, iluminado por um foco de luz quente, estava a família Rockwell: Charles, o patriarca (parecendo um ditador financeiro), e Eleanor, a matriarca (impecável e nervosa). E então, ao lado deles, ele. Robert Rockwell. Ele estava de pé, imponente em um terno cinza-carvão. Parecia Ryan, mas não era ele, eu sabia disso. Ele me viu. E, para meu espanto, não fez a usual careta de tédio ou o aceno exagerado. Em vez disso, ele sorriu. Não o sorriso arrogante de Robert, mas um sorriso mais... contido, mais intenso. Um sorriso que atingiu diretamente meus olhos, me avaliando com uma seriedade que eu nunca havia visto nele. Eu senti um calor subir pelo meu pescoço, uma reação química que me pegou desprevenida. Esse homem me odiou a vida toda, ele não iria se tornar meu noivo carinhoso agora. Quando chegamos ao palco, meu pai apertou a mão dele com a força de um martelo. - Chegou na hora certa, Robert. Pensei que nos pregaria uma peça. - Meu pai brincou, mas havia uma tensão perigosa na voz. Respondeu ele, sua voz baixa e calma. - Estava apenas garantindo que o futuro que estamos prestes a selar fosse o mais sólido possível. A resposta me chocou. Era articulada, estratégica e responsável. Era a resposta que Ryan daria, mas eu me peguei pensando que não teria tal milagre em minha vida. Eu o olhei. Tentei encontrar o tique nervoso, a distração típica, mas ele estava completamente presente, seus olhos fixos em mim. - Anne. - ele disse, pegando minha mão. Seu toque era firme e seco, não o toque suave e superficial de Robert. Ele beijou minha mão, e quando o fez, seus olhos se fixaram nos meus de uma forma que fez meu estômago revirar. Não era flerte. Era reconhecimento. Depois Robert me lembrou do porquê ele nunca quis essa casamento. Cada palavra, cada gesto, ele não escondia que odiava essa história tanto quanto eu. No entanto, eu sabia disfarçar, ele já era explícito, queria que eu soubesse que nunca iríamos ser felizes e que nosso casamento era apenas um grande negócio. O som dos aplausos se transformou em um zumbido distante, a trilha sonora da minha nova e fria realidade. Eu estava ali, a noiva recém-comprometida no palco do St. Regis, usando um anel que era quase um recibo de pagamento. Meu futuro, selado por um aperto de mão e um beijo formal. E Robert? Ele não perdeu tempo em reafirmar quem ele era. m*l a última taça de champanhe foi levantada, ele me soltou como se eu fosse um objeto pesado. — Mantenha o sorriso, Anne. — Ele murmurou, o braço firme em minha cintura, mas o olhar fixo em um grupo de acionistas de Wall Street que estavam perto da mesa de buffet. — Não estrague a estética da fusão. A estética. Eu era apenas isso para ele: uma peça de decoração cara, um adorno necessário para o contrato. Enquanto meu pai, Henri, era congratulado por Charles Rockwell, os dois homens, exaltando a satisfação de predadores que acabaram de fechar um grande negócio, Robert me deixou sozinha no centro do palco. Em vez de cumprimentar os convidados ao meu lado, como seria esperado do noivo, ele se virou e se afastou, juntando-se a uma roda de jovens socialites e modelos que faziam o possível para rir alto demais de suas piadas. A humilhação foi imediata e pública. A velha Nova York, sempre atenta ao espetáculo, trocava olhares. Eu podia ouvir os sussurros, a confirmação de que Robert Rockwell era tão desprezível quanto os boatos diziam. Eu tentei me recompor. Forcei meus músculos faciais em um sorriso perene, um escudo de indiferença polida. Procurei meu pai, buscando um olhar de apoio, um gesto de que ele interviria e chamaria Robert à ordem. Henri estava em uma conversa animada sobre as ações da Rockwell, a testa franzida em concentração. Minha mãe, Eleanor, por sua vez, estava radiante, bebendo a glória social da união sem se importar com a cena do noivo. Eles estavam tão obcecados em não ir à falência, que a minha dignidade havia se tornado uma nota de rodapé irrelevante. Eu estava completamente sozinha. Fui forçada a andar pelo salão cumprimentando desconhecidos, aceitando elogios sobre o vestido e o anel, tudo enquanto meu noivo se esgueirava pelas bordas, com um copo de uísque na mão, evitando-me como se eu fosse contagiosa. Em um momento, cruzei com ele perto da orquestra. Ele estava flertando descaradamente com uma editora de revista. Quando nossos olhos se encontraram, ele sorriu, com um sorriso c***l e desarme que me fez odiar por anos. — Perdida, futura esposa? — Ele sibilou, a voz baixa o suficiente para que apenas eu ouvisse a zombaria no título. — Não se preocupe, o show principal só termina quando eu digo que termina. Vá se misturar um pouco. Mostre a sua cara bonita. Ele me tratava como uma propriedade comprada. E ele estava certo. Eu era exatamente isso. A noite se arrastou. Por fim, sem aviso, Robert indicou que era hora de partir. Não houve despedida calorosa, nem promessas de ver o patriarca em breve. Foi uma retirada abrupta e fria. O carro nos esperava, um Bentley preto com janelas fumê que nos isolavam do mundo. O motorista dos Rockwell fechou a porta, e o silêncio pesado e o cheiro de couro novo se instalaram. Eu finalmente permiti que o meu sorriso vacilasse. Olhei para o perfil de Robert. A luz da rua iluminava seu rosto em flashes rápidos, revelando a mesma perfeição aristocrática de Ryan, mas ele carregava a crueldade que era unicamente dele. — Você encenou um belo drama, Robert. — Eu disse, a voz rouca. — Eu esperava que você pelo menos fingisse consideração por uma hora. Ele riu. Não o riso seco de antes, mas um som áspero e verdadeiro de divertimento. — Consideração, Anne? Você realmente acha que está se casando com um romance de Jane Austen? Você me conhece a vida toda. Nunca fingi nada para você. Ele se virou para mim, com os olhos faiscando no escuro. — Deixe-me ser claro. Você pode ter me prendido neste casamento arranjado. Seus pais podem ter usado a falência deles para me obrigar a assinar aquele maldito contrato. Mas você nunca me terá, Anne. Nunca. Seu tom era gélido e cirúrgico. Cada palavra era calculada para destruir qualquer esperança que eu pudesse ter. — Você conseguiu o nome. Você conseguiu a proteção financeira para o seu clã de parasitas. Seu pai não vai falir. Mas este casamento é uma transação de negócios, nada mais. Eu farei o que é exigido ao meu nome, a presença pública em eventos... Mas eu não sou seu marido. Eu não sou seu companheiro. E, o mais importante, este coração — ele tocou o peito com os dedos —, este, você jamais terá. Ele não faz parte do acordo Valencourt. Eu senti uma lágrima escorrer. A primeira da noite. Eu a limpei rapidamente, furiosa comigo mesma por demonstrar fraqueza. — Eu não esperava nada mais de você, Robert. — Eu menti, olhando para a frente. — Eu sei que não. — Ele respondeu, com satisfação sádica. — Mas eu precisava ter certeza de que você não teria esperanças estúpidas. Não ouse se apaixonar por mim, Anne. Você é a noiva de contrato, a esposa de fachada. Não tente mais do que isso, ou eu farei você se arrepender de ter nascido. Ele se recostou no assento, virando o rosto para a janela, dando-me as costas. Eu estava noiva. Noiva com a crueldade personificada, e nem todo o dinheiro do mundo poderia comprar um pingo de calor ou respeito. Este era o meu preço. E este era o grande Robert Rockwell.
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