capítulo 10

435 Words
Coração Partido Lyra não lembrava como havia saído da fortaleza. As vozes ao seu redor eram apenas um borrão. O brilho das tochas, o frio da noite e o caminho até a vila pareciam distantes, como se ela estivesse caminhando dentro de um pesadelo. A única coisa que conseguia sentir era a dor. Cada passo fazia seu peito arder. Era como se o vínculo rejeitado continuasse tentando unir duas almas que agora haviam sido separadas à força. Helena e Maya caminhavam ao seu lado em silêncio. Nenhuma das duas sabia o que dizer. Não existiam palavras capazes de aliviar aquela ferida. Quando chegaram à pequena casa na floresta, Lyra entrou sem olhar para trás. Assim que a porta se fechou, suas pernas perderam as forças. Ela caiu de joelhos no chão de madeira. O primeiro soluço escapou de seus lábios. Depois outro. E outro. Até que o choro tomou conta de todo o ambiente. Helena ajoelhou-se ao lado dela e tentou abraçá-la. Mas Lyra apenas balançava a cabeça. — Por quê...? Sua voz saiu entrecortada. — O que eu fiz de errado? Helena sentiu o coração se partir. — Você não fez nada, minha filha. — Então por que ele me olhou como se eu não valesse nada? As lágrimas não paravam de cair. — Eu nem o conhecia... — Nunca pedi para ser companheira dele... — Nunca pedi para a Deusa escolher por mim... Cada palavra carregava uma dor que Helena jamais desejara ver na filha. Maya também chorava. Ela nunca tinha visto Lyra daquela maneira. A garota alegre, que encontrava beleza nas flores e nos pássaros da floresta, parecia ter perdido completamente a luz do olhar. Naquela noite, Lyra não conseguiu dormir. Sempre que fechava os olhos, via Kael diante dela. "A Deusa da Lua cometeu um erro." "Eu rejeito você." As palavras ecoavam repetidamente em sua mente. Ela levou a mão ao peito. A dor física ainda estava ali. Sua loba permanecia encolhida, silenciosa. Sem força sequer para uivar. Perto do amanhecer, Lyra saiu da casa sem fazer barulho. Precisava respirar. Precisava fugir daquelas lembranças. Caminhou até o Rio Cristal, o lugar onde sempre encontrava paz. Mas, naquela madrugada, nem mesmo o som da água conseguia acalmar seu coração. Ela ajoelhou-se à margem do rio e observou seu reflexo. Os olhos estavam inchados. O rosto, marcado pelas lágrimas. Ela quase não se reconhecia. — Quem sou eu agora...? — sussurrou. O vento soprou entre as árvores. Nenhuma resposta veio. Apenas o silêncio. E, pela primeira vez desde que Helena a encontrara ainda bebê, Lyra sentiu que estava completamente sozinha no mundo ---
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