Capítulo 14 – Promessas Feitas às Cinzas
Ponto de Vista de Lyra
A casa nunca pareceu tão silenciosa.
Os dias que antes eram preenchidos pelo canto dos pássaros, pelas risadas de Maya e pelas histórias de Helena agora eram tomados por um vazio difícil de explicar.
Lyra permanecia sentada na varanda, observando o vento balançar as lavandas do jardim.
Aquele lugar sempre lhe trouxe paz.
Agora, apenas lhe lembrava que sua vida havia mudado para sempre.
Desde a rejeição, os moradores da vila passaram a olhá-la de maneiras diferentes.
Alguns demonstravam pena.
Outros cochichavam quando ela passava.
E havia aqueles que simplesmente desviavam o olhar, como se a dor dela fosse contagiosa.
Ela odiava aquilo.
Não queria ser a garota que foi rejeitada pelo Alfa Supremo.
Queria voltar a ser apenas Lyra.
Naquela manhã, Helena aproximou-se com uma cesta de ervas.
— Preciso entregar remédios para uma família no outro lado da vila. Você consegue cuidar da estufa?
Lyra sorriu de leve, apenas para não preocupar a mãe.
— Claro.
Assim que Helena saiu, ela entrou na pequena estufa de madeira.
O aroma das ervas medicinais a envolveu imediatamente.
Ali era o único lugar onde sua mente conseguia descansar.
Enquanto regava algumas plantas, ouviu passos do lado de fora.
Era Maya.
Mas, diferente de sempre, ela não entrou sorrindo.
Seu rosto estava sério.
— Lyra...
— O que aconteceu?
Maya hesitou por um momento.
— Estão comentando na praça que uma loba nobre procurou o Alfa Supremo esta manhã.
O regador escapou das mãos de Lyra, caindo no chão.
Ela permaneceu imóvel.
— Quem?
— Dizem que é Selene Blackthorn.
Filha de uma família muito influente.
Lyra fechou os olhos.
Mesmo sabendo que Kael a havia rejeitado, ouvir aquilo doía de um jeito diferente.
Parecia confirmar que ela nunca tivera uma chance.
— Também dizem... que ela seria a Luna perfeita.
As palavras ecoaram como uma sentença.
Lyra respirou fundo.
As lágrimas ameaçaram surgir novamente.
Mas ela as conteve.
Não.
Ela já havia chorado demais.
Depois de alguns segundos, abriu os olhos.
Havia tristeza neles.
Mas também algo novo.
Determinação.
— Sabe de uma coisa, Maya?
A amiga a encarou em silêncio.
— Se ele acredita que meu valor depende do meu sobrenome...
Então ele nunca enxergou quem eu realmente sou.
Maya sorriu pela primeira vez desde que chegara.
— Essa é a Lyra que eu conheço.
Lyra caminhou até a janela da estufa.
Ao longe, era possível ver as torres da Fortaleza Draven.
Ela sustentou o olhar por alguns segundos.
Depois virou as costas.
— Eu não vou mais correr atrás de alguém que me rejeitou diante de toda a alcateia.
Minha vida não pode terminar por causa dele.
Vou continuar vivendo.
Vou aprender.
Vou crescer.
E, um dia...
Quando nossos caminhos voltarem a se cruzar...
Ele não verá a garota que humilhou.
Verá uma mulher que aprendeu a se levantar sozinha.
Naquele instante, uma brisa percorreu a estufa.
As folhas das plantas balançaram suavemente.
E, escondido sob sua roupa, o antigo medalhão voltou a emitir um brilho azul.
Como se a própria Deusa da Lua aprovasse a promessa feita por Lyra.