Capítulo 1 – A Filha da Floresta
A Alcateia Draven despertava cedo.
Antes mesmo do nascer completo do sol, os guerreiros já treinavam no campo de batalha, os ferreiros acendiam suas forjas e os padeiros enchiam a vila com o aroma de pão fresco. Crianças corriam pelas ruas de pedra acompanhadas por filhotes de lobo, e os comerciantes começavam a abrir suas barracas na praça central.
Apesar de toda aquela movimentação, havia um lugar onde a paz parecia reinar.
Nos limites da floresta, cercada por um jardim de lavandas, alecrins e rosas brancas, erguia-se uma pequena casa de madeira. Simples, acolhedora e sempre perfumada pelas ervas medicinais que secavam na varanda.
Ali vivia Lyra Valença.
— Lyra! — chamou uma voz doce do andar de baixo. — O café está pronto!
Ainda sonolenta, a jovem abriu os olhos.
Seu quarto era iluminado pela luz suave da manhã. Sobre a cômoda havia um pequeno vaso com flores silvestres colhidas no dia anterior. Na parede, um arco de madeira e algumas flechas lembravam que, além de ajudar Helena com ervas medicinais, ela também aprendera a sobreviver na floresta.
Lyra afastou as cobertas e caminhou até a janela.
A vista era sempre a mesma.
E, mesmo assim, nunca deixava de encantá-la.
A floresta parecia infinita.
Ao longe, acima das árvores, era possível ver as torres escuras da Fortaleza Draven, residência do Alfa Supremo.
Ela sorriu discretamente.
Desde criança observava aquele castelo à distância.
Era bonito.
Imponente.
Mas parecia pertencer a outro mundo.
Depois de prender os longos cabelos castanho-escuros em uma trança, desceu as escadas.
Na cozinha, Helena retirava uma forma de pão do forno.
O cheiro era irresistível.
— Bom dia, dorminhoca.
Lyra riu.
— Achei que hoje pudesse dormir um pouco mais.
— E perder a melhor hora da floresta?
Helena fingiu indignação.
— Nunca.
As duas riram.
Helena era a única mãe que Lyra conhecia.
Forte, gentil e respeitada por todos na alcateia, era conhecida por seu vasto conhecimento sobre plantas medicinais. Quase todos os moradores da vila já haviam passado por suas mãos em algum momento.
Lyra sempre a admirou.
Embora soubesse que fora adotada quando ainda era bebê, jamais se sentira menos amada por isso.
Para ela, Helena era sua mãe em todos os sentidos.
Uma batida animada interrompeu o café da manhã.
Sem esperar resposta, a porta foi aberta.
— Espero que ainda tenha pão!
Maya Rivers entrou sorrindo.
Seus cabelos ruivos estavam presos em um r**o de cavalo desajeitado, e suas bochechas coradas denunciavam que viera correndo.
— Você realmente deveria aprender a bater na porta e esperar alguém abrir — brincou Helena.
— Mas vocês sempre demoram.
Helena balançou a cabeça, divertida.
— Sente-se antes que eu mude de ideia e esconda o pão.
Enquanto as três tomavam café, Maya não conseguia esconder a empolgação.
— Vocês ouviram? Os primeiros convidados da Cerimônia da Lua de Sangue chegam amanhã!
Lyra ergueu os olhos.
— Já?
— A vila inteira está falando disso.
Segundo Maya, mercadores de outras alcateias estavam montando barracas na praça, músicos haviam sido convidados para as festividades e a fortaleza estava sendo preparada para receber os líderes das cinco grandes alcateias.
Helena serviu chá nas canecas de barro.
— A cerimônia acontece apenas uma vez por ano. É natural que todos estejam animados.
Maya sorriu.
— Principalmente quem ainda não encontrou o companheiro destinado.
Lyra abaixou os olhos para a própria caneca.
Ela nunca pensara muito sobre isso.
Desde pequena aprendera que o vínculo entre companheiros era um presente da Deusa da Lua.
Alguns o encontravam cedo.
Outros passavam a vida inteira esperando.
E alguns... jamais o encontravam.
— Não pense demais nisso — disse Helena, percebendo seu silêncio. — O destino sempre chega na hora certa.
Depois do café, Helena entregou uma cesta de vime para a filha.
— Preciso de artemísia, hortelã-selvagem e valeriana. Nyra virá buscá-las antes do anoitecer.
Lyra pegou a cesta.
— Vamos agora mesmo.
Maya levantou-se imediatamente.
— Eu vou junto!
As duas seguiram pela trilha que levava ao coração da floresta.
O ar era fresco.
O perfume dos pinheiros misturava-se ao cheiro de terra molhada pela chuva da noite anterior.
Pequenos coelhos atravessavam o caminho, esquilos saltavam entre os galhos e o som cristalino de um riacho guiava seus passos.
Lyra respirou profundamente.
Era ali que se sentia em casa.
Longe da agitação da vila.
Longe das preocupações.
A floresta sempre a fazia sentir como se pertencesse àquele lugar desde antes de nascer.
Sem perceber, um pequeno pássaro azul pousou em seu ombro.
Maya sorriu.
— Acho que ele gosta mais de você do que da própria floresta.
Lyra estendeu delicadamente a mão.
O pássaro saltou para seus dedos antes de levantar voo novamente.
— Os animais nunca têm medo de você — comentou Maya.
Lyra deu de ombros.
— Talvez eles apenas sintam que não vou machucá-los.
Continuaram caminhando até chegarem ao Rio Cristal.
A água corria transparente entre pedras cobertas por musgo, refletindo o céu como um espelho.
Enquanto Lyra se ajoelhava para colher as primeiras ervas, uma sensação estranha percorreu seu corpo.
Como se estivesse sendo observada.
Ela levantou lentamente a cabeça.
Do outro lado do rio, entre as sombras dos pinheiros, um enorme lobo n***o permanecia imóvel.
Sua pelagem brilhava sob a luz do sol.
Os olhos prateados estavam fixos nela.
Lyra prendeu a respiração.
Nunca havia visto um lobo tão grande.
Nem tão majestoso.
Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.
O mundo pareceu desaparecer ao redor deles.
Então o animal inclinou levemente a cabeça, como se a reconhecesse.
No instante seguinte, desapareceu silenciosamente entre as árvores.
Maya soltou o ar que nem percebera estar prendendo.
— Lyra... você viu?
A jovem continuava olhando para o lugar onde o lobo estivera.
Seu coração batia acelerado.
— Vi...
Ela ainda não sabia.
Mas aquele encontro marcava o primeiro passo de uma jornada que mudaria para sempre sua vida... e o destino de todas as alcateias.