AYLA
Geleia continuava olhando para a tela do celular.
Eu não sabia exatamente o que ele estava fazendo, mas alguma coisa me dizia que aquela conversa tinha ido parar nas mãos da pessoa que eu queria alcançar.
Corvo.
O nome dele parecia ter um peso diferente naquele lugar.
Talvez porque todos soubessem quem ele era.
Talvez porque, desde que eu havia chegado, ele não saía completamente dos meus pensamentos.
O que era ridículo.
Eu conhecia aquele homem há pouco mais de um dia.
Não tinha motivo nenhum para pensar tanto nele.
Mas pensava.
Principalmente depois do nosso encontro na frente da casa da minha avó.
Aquele olhar.
Aquela voz.
E o jeito como ele parecia enxergar tudo ao redor sem precisar perguntar nada.
— E aí? — perguntei.
Geleia levantou os olhos do celular.
— Calma, mina.
— Eu estou calma.
— Tá nada.
— Estou sim.
— Está andando de um lado para o outro.
Parei imediatamente.
Olhei para meus pés.
Eu realmente estava.
— É porque estou preocupada com minha avó.
— Sei.
— É sério.
— Eu não falei que não era.
Ele voltou a olhar para o celular.
Minha avó estava sentada em um banco próximo, descansando.
A caminhada até o postinho tinha sido cansativa para ela.
E agora ainda precisaríamos subir tudo novamente.
Só de pensar nisso, já me dava agonia.
— Geleia.
— Oi?
— Você acha que ela consegue subir?
Ele olhou para minha avó.
Depois para o morro.
— Devagar, consegue.
— Mas vai ser cansativo.
— Vai.
Suspirei.
— Por isso quero falar com o Corvo.
— Eu já mandei mensagem.
— E ele respondeu?
Geleia ficou em silêncio.
Meu coração acelerou.
— Respondeu?
— Respondeu.
— E?
Ele virou o celular na minha direção.
— Ele quer seu contato.
Fiquei olhando para a tela.
— Meu contato?
— É.
— Para quê?
Geleia soltou uma risada.
— Sei lá, Ayla. Pergunta para ele.
Meu nome na boca dele soou estranho.
Talvez porque até aquele momento todos me chamavam de mina.
— Ele disse mais alguma coisa?
Geleia olhou novamente para a mensagem.
— Disse para você deixar seu número.
— Só isso?
— Só.
Pensei por alguns segundos.
Não havia motivo para eu negar.
Eu precisava falar com ele por causa da minha avó.
— Me dá seu celular.
Geleia me entregou o aparelho.
Digitei meu número e salvei meu contato.
Antes de devolver, pensei melhor.
— Coloca meu nome.
— Eu sei seu nome.
— Eu sei. Mas coloca.
Ele riu.
— Tá bom, dona Ayla.
Devolvi o celular.
Geleia imediatamente enviou uma mensagem para Corvo.
Fiquei esperando.
Poucos segundos depois, o celular vibrou.
Geleia olhou.
— Ele perguntou se é você.
— Diz que sim.
Ele digitou.
Outra mensagem chegou.
— E agora?
— O que ele perguntou?
Geleia me encarou.
— Quer saber o que está fazendo.
— Diz que estou cuidando da minha avó.
Ele digitou.
— Mais alguma coisa?
— Não.
Geleia olhou para mim.
— Só isso?
— Só.
Mentira.
Eu queria perguntar muitas coisas.
Queria saber por que ele tinha pedido meu número.
Queria saber se era apenas por causa da minha avó.
Mas eu não perguntaria.
Nem morta.
— Então pronto — falei.
Geleia continuou olhando para o celular.
De repente, seu rosto mudou.
— O que foi?
— Ele perguntou onde vocês estão.
— No postinho.
Geleia respondeu.
Mais alguns segundos.
— Ele mandou você esperar.
— Esperar?
— É.
— Por quê?
Ele levantou os olhos.
— Vai mandar um carro.
Olhei para minha avó.
Depois para Geleia.
— Sério?
— Sério.
Não consegui esconder meu alívio.
— Graças a Deus.
Minha avó, que estava prestando atenção na conversa, se aproximou.
— O que aconteceu?
— O Corvo vai mandar um carro para levar a gente para casa.
Ela abriu um sorriso.
— Eu falei que ele ajudava.
— A senhora poderia ter me contado isso antes.
— Você não perguntou.
— Vó!
Ela riu.
Geleia balançou a cabeça.
— Dona Ana é assim mesmo.
— Eu já percebi.
Minha avó se sentou novamente.
Eu fiquei ao lado dela.
Alguns minutos depois, um carro parou próximo ao postinho.
Um homem saiu e fez um sinal para nós.
— É o carro — Geleia avisou.
Ajudei minha avó a entrar.
Depois entrei também.
Antes de fechar a porta, olhei para Geleia.
— Obrigada.
— De nada.
— E obrigada por falar com o Corvo.
— Não agradece ainda.
Franzi a testa.
— Por quê?
Geleia abriu um sorriso.
— Porque agora ele tem teu número.
Meu rosto esquentou.
— E daí?
— Nada.
— Então pronto.
— Só estou avisando.
— Avisando o quê?
Geleia riu.
— Nada, mina.
Entrei no carro e fechei a porta.
Durante o caminho, fiquei olhando pela janela.
Minha avó estava quieta.
Provavelmente cansada.
Eu também estava.
Mas, ao mesmo tempo, havia uma sensação diferente dentro de mim.
Eu tinha o contato do Corvo.
Quer dizer...
Ele tinha o meu.
E aquilo parecia mais importante do que deveria.
— Ayla?
Virei para minha avó.
— Oi?
— Você gostou daqui?
Olhei pela janela novamente.
O Vidigal passava diante dos meus olhos.
As casas.
As vielas.
As pessoas.
Aquele lugar tinha uma energia diferente.
Eu ainda não conhecia nada.
Mas, de alguma forma, sentia que poderia me acostumar.
— Gostei.
Minha avó sorriu.
— Sabia.
— Ainda estou conhecendo.
— Você vai gostar mais.
— Talvez.
— Tem baile amanhã.
Olhei para ela.
— Baile?
— É.
— Onde?
— Aqui mesmo.
Meus olhos se iluminaram.
— Tem baile no morro?
Minha avó começou a rir.
— Claro que tem.
— E você nunca me contou?
— Você nunca perguntou.
— Vó, você precisa parar de usar isso contra mim.
Ela riu ainda mais.
— Você deveria ir.
— Eu?
— Sim.
— Sozinha?
— Você vai conhecer gente.
Pensei por alguns segundos.
— E é seguro?
Minha avó ficou em silêncio.
— Vó?
— É.
— Essa pausa foi estranha.
— Ayla...
— Estou falando sério.
Ela suspirou.
— O morro tem regras.
Lembrei imediatamente das palavras de Geleia.
Andando certo, não tem erro.
— Então posso ir?
Minha avó sorriu.
— Pode.
— E você?
— Eu não tenho mais idade para baile.
— Você tem idade para tudo.
— Não para dançar até de madrugada.
— Isso é verdade.
Comecei a rir.
Foi quando percebi que Geleia estava parado do lado de fora da casa da minha avó.
Ele tinha nos acompanhado até ali.
— Por que ele veio?
Minha avó olhou pela janela.
— Deve ser ordem do Corvo.
Meu coração deu aquela pequena acelerada novamente.
— Ele mandou?
— Provavelmente.
Desci do carro e ajudei minha avó.
Geleia se aproximou.
— E aí, Ayla?
— Oi.
— Está gostando do morro?
Olhei ao redor.
— Estou.
— Mesmo?
— Mesmo.
Ele sorriu.
— Então vai gostar do baile.
— Você também vai?
— Vou.
— E é bom?
— Depende.
— Depende do quê?
— De quem vai.
Revirei os olhos.
— Você não responde nada direito.
— É meu charme.
Ri.
— E você vai?
— Talvez.
— Vai, sim.
— Por que você quer saber?
— Curiosidade.
Ele me encarou.
— Vocês mulheres são tudo curiosa.
— Vocês homens também.
— Eu não.
— Mentiroso.
Geleia riu.
— Só toma cuidado.
— Com o quê?
— Com o baile.
— Por quê?
Ele ficou sério.
— Porque é o primeiro que você vai.
— E daí?
— Tem muita gente.
— Eu sei.
— E muita gente vai querer saber quem é você.
Franzi a testa.
— Por quê?
Geleia olhou rapidamente para minha casa.
Depois para mim.
— Porque você é a neta da dona Ana.
— Só por isso?
Ele deu de ombros.
— E porque você é nova aqui.
— Isso é tão r**m?
— Não.
Ele abriu um sorriso.
— Só fica esperta.
Assenti.
— Pode deixar.
Geleia começou a se afastar.
— Ah!
Ele virou.
— O quê?
— Se eu for ao baile...
— Hum?
— Como faço para saber se o Corvo vai estar lá?
Geleia ficou me olhando.
Meu coração disparou.
Droga.
Eu tinha perguntado aquilo mesmo?
Ele abriu um sorriso malicioso.
— Ué...
— O quê?
— Achei que era só curiosidade.
Meu rosto esquentou.
— É curiosidade.
— Sei.
— Geleia!
Ele começou a rir.
— Relaxa, Ayla.
— Então?
— Se o Corvo for, você vai saber.
— Como?
Geleia olhou para mim por alguns segundos.
— O morro sempre sabe quando o Rei aparece.
E saiu andando.
Fiquei parada, olhando para ele desaparecer pela viela.
Minha avó apareceu ao meu lado.
— O que foi?
— Nada.
— Você está pensando no Corvo?
Olhei para ela.
— Não.
Ela sorriu.
— Está sim.
— Vó!
— Ayla...
— Eu só quero saber como as coisas funcionam aqui.
— Claro.
— É sério!
— Eu não disse nada.
Entrei em casa bufando.
Mas, enquanto ajudava minha avó a se acomodar, uma pergunta continuava martelando na minha cabeça.
Será que Corvo estaria no baile?
Eu não sabia por que queria tanto descobrir.
Talvez fosse apenas curiosidade.
Só isso.
Mas alguma coisa me dizia que, se aquele homem aparecesse...
Minha primeira noite no baile do Vidigal seria muito mais interessante do que eu poderia imaginar.