Capítulo 2

1005 Words
Corvo  Respeito não se pede. Se conquista. Ou se impõe. No meu caso... Foi imposto. Há mais de vinte anos meu nome manda no Morro do Vidigal. Quem sobe o morro sabe. Quem desce também. Aqui, nenhuma porta é arrombada sem que eu saiba. Nenhuma arma entra. Nenhuma bala é disparada. Nenhuma dívida fica sem resposta. Tudo passa por mim. Tudo. Passei os olhos pela mesa de madeira maciça enquanto os homens permaneciam em silêncio à minha frente. Silêncio. Era assim que eu gostava. Quem falava demais normalmente escondia alguma coisa. Quem escondia alguma coisa... Acabava morto. Cruzei as mãos sobre a mesa. — Quem foi? Ninguém respondeu. Meu olhar percorreu cada rosto. Ninguém sustentava meus olhos por muito tempo. Sabiam melhor do que isso. Sabiam quem eu era. Sabiam do que eu era capaz. — Vou perguntar só mais uma vez. Minha voz saiu baixa. Controlada. Muito pior do que um grito. — Quem roubou minha carga? O silêncio permaneceu. Foi Duda quem entrou correndo na sala. Respirava ofegante. — Patrão... Olhei para ele. — Achamos. Inclinei levemente a cabeça. — Traz. Dois soldados entraram arrastando um rapaz. Devia ter pouco mais de vinte anos. O rosto estava ensanguentado. Os joelhos deixavam um rastro vermelho no chão. Foi jogado aos meus pés. Nem levantei da cadeira. Continuei olhando para ele como quem observa um inseto. — Eu... Ele tentou falar. Levantei a mão. Ele se calou imediatamente. — Você roubou minha carga? — Foi erro, patrão... — Não perguntei isso. Minha voz continuava calma. — Perguntei se roubou. Ele fechou os olhos. — Roubei. Assenti devagar. — E por quê? — Minha mãe tá doente... A sala permaneceu em silêncio. Todos esperavam minha reação. Eu não misturava sentimento com comando. Nunca misturei. — Quanto precisava? Ele engoliu seco. — Cinco mil. Olhei para Duda. — A carga vale quanto? — Mais de cento e cinquenta mil. Voltei meus olhos para o rapaz. — Você roubou cento e cinquenta mil para conseguir cinco. — É um comédia mesmo ,vacilão do car@lho Ele começou a chorar. — Me perdoa... Levantei da cadeira. Devagar. O som das minhas botas ecoou pelo salão. Parei bem na frente dele. Segurei seu queixo. Forcei-o a olhar para mim. — Sabe qual foi o erro? Ele tremia. — Roubar? Balancei a cabeça. — Não. Aproximei meu rosto do dele. — Foi achar que eu abriria exceção. Soltei seu queixo. Olhei para meus homens. — Ve se é verdade a história da mãe e se for ,ela recebe os cinco mil hoje. Todos me encararam surpresos. Continuei. — E ele paga pelo roubo. Duda entendeu antes de todos. Assentiu. Não perguntou como. Nunca perguntava ele ja sabia . Cada escolha tinha uma consequência. E a consequencia desse inseto seria a morte Era assim que eu mantinha o morro de pé. Não governava pelo medo. Governava pelas regras. Sem regras... Aquilo virava guerra. Os homens levaram o rapaz para fora. Os gritos começaram segundos depois. Ninguém dentro da sala demonstrou reação. A reunião continuou. Era apenas mais um dia. Mais uma decisão. Mais uma vida colocada na balança. No fim, a ordem precisava permanecer. Sempre. Subi para o terraço da minha casa quando todos foram embora. Dali era possível enxergar praticamente todo o Vidigal. As casas empilhadas. As crianças correndo pelas vielas. As mulheres pendurando roupa nos varais. Os comerciantes abrindo as portas. Cada pessoa ali vivia sob minha proteção. E também sob minhas regras. Acendi um charuto. O vento bateu no meu rosto. Fazia anos que eu não encontrava paz. Talvez desde o dia em que enterrei Helena. Meu peito apertou. Não de tristeza. Aquela fase tinha passado. Restava apenas o vazio. Ela morreu numa emboscada. Não era para estar naquele carro. Era eu quem deveria ter morrido. A bala destinada ao Rei do Morro encontrou minha esposa. Nunca descobri quem deu a ordem. Mas encontrei todos os envolvidos. Nenhum permaneceu vivo. Mesmo assim... A vingança nunca devolveu o silêncio da minha casa. Nem o cheiro do perfume dela. Nem o café que preparava todas as manhãs. Depois daquele dia... Nunca mais permiti que mulher alguma atravessasse a porta da minha vida. Corpo... Era fácil conseguir. Companhia... Também. Mas amor... Aquilo morrera junto com Helena. Amor enfraquecia. Fazia homens inteligentes cometerem erros. E eu sobrevivi cinquenta anos justamente porque nunca mais errei. Meu celular vibrou. — Fala. Era Duda. — Patrão... Tem uma notícia. — Diz. — Dona Ana ligou. Franzi a testa. A velha Ana morava no morro havia décadas. Era uma das poucas pessoas que tinham liberdade para falar comigo sem pedir autorização. — O que houve? — A neta dela vai chegar hoje. Fiquei em silêncio. — E? — Ela disse que agora vai morar aqui. Olhei novamente para o morro iluminado pelas primeiras luzes da noite. Mais uma moradora. Nada além disso. —Quando ela chegar libera a entrada e dá as regras e — Manda alguém ficar de olho na casa da dona Ana. — Algum problema? — Não. Soltei a fumaça lentamente. — Só quero que ninguém incomode a velha. — Pode deixar. Desliguei. Nem imaginei que aquela simples informação fosse mudar completamente minha rotina. Porque, naquele momento... A neta de Dona Ana ainda era apenas um nome. Uma desconhecida. Mas o destino tinha um péssimo hábito. Ele sempre encontrava uma maneira de colocar no meu caminho exatamente aquilo que eu nunca procurei. E, dessa vez... O destino vinha na forma de uma garota de vinte anos chamada Ayla. Olá, minhas leitoras! ❤️ É com muita felicidade que apresento Corvo – O Rei do Morro, uma história intensa, cheia de emoção, perigo e um romance que promete conquistar vocês. Espero que embarquem comigo nessa nova jornada e se apaixonem por Ayla e Corvo. As atualizações diárias começam no dia 27/07, então não esqueçam de adicionar o livro à biblioteca, deixar muitos comentários e compartilhar suas teorias. O apoio de cada uma faz toda a diferença. Boa leitura e sejam bem-vindas! ❤️
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