A gravidez de Sophia foi muito tranquila. Liam era medico e ela levara uma vida ajudando-o a administrar o hospital, de forma que não entrava em pânico com nada, e sempre sabia reagir aos sintomas. Enjoou pouco, teve muitos desejos, pés inchados, tudo no previsto. Tinha crises histéricas de vez em quando, mas nada comparada as de Madison. Um sonho perto da de Camila, que dormiu todo o período. No aniversário de dois anos de Nate, após o menino assoprar as velinhas, a bolsa de Sophia estourou. Não houve pânico, foi tudo muito calmo, e 6 horas depois a pequena Juliet nasceu, totalmente saudável, de um parto normal, para alivio de todos. Sophia recebeu a menina pouco tempo depois, dando de mamar a ela, entre lagrimas.
Sophia: Juliet Eve. - Disse, como em uma adoração, tocando os cabelinhos da menina.
Madison: Pensei que a chamaria Camila. - Comentou, distraída, com um sorriso bobo.
Sophia: Considerei seriamente isso, mas Camila vai acordar. - Disse, em ênfase - Então ficaria muito confuso. Liam escolheu o nome dela. - Disse, satisfeita.
Falando em Camila... Quando ficou declarado que o parto havia acabado e que Sophia e Juliet estavam bem, ele levou Nate até o quarto da mãe. Agora que o menino estava crescendo, visitava Camila com muito mais frequência. Ao entrar no quarto tudo era silencio e as luzes estavam baixas, o único som eram os batimentos cardíacos de Camila. Shawn aumentou as luzes, revelando uma Camila imóvel como uma boneca de cera, os cabelos longos caindo sobre os ombros por cima do peito e pelo braço.
Nate: Porque ela não acorda? - Perguntou, quietinho no colo do pai.
Shawn: Ela está muito cansada. Exausta. - Disse, ajeitando uma mecha do cabelo de Camila.
Nate: Ela não gosta de mim? - Perguntou, com um biquinho.
Shawn: Eu acho que você foi a pessoa que ela mais amou na vida. - Disse, convicto. Nate sorriu. Ele se esticou e Shawn o colocou sentado na cama com Camila - Cuidado.
Nate apanhou a mão da mãe entre as mãozinhas, enlaçando os dedos. Camila permaneceu quieta. Ele apanhou um cacho do cabelo da mãe, tocando-o com cuidado.
Nate: É macio. - Disse, com um sorriso fofo e covinhas, arrumando o cabelo de Camila.
Shawn: Você tem os olhos dela, sabia? - Disse, e Nate olhou Shawn, surpreso - Se parece muito comigo, exceto pelos olhos. Tem os olhos da sua mãe. E o riso também. - Lembrou, sorrindo. - Foi ela que escolheu seu nome.
Aaliyah: Irmão. - Chamou, na porta do quarto. - Vamos fazer um brinde. - Shawn sorriu, assentindo, e se abaixou pra pegar o filho.
Nate: Não, papai. - Shawn franziu o cenho - Deixa eu ficar com ela? Ela tá sozinha. - Disse, os olhos inocentes preocupados, olhando a mãe. - E se ela acordar e tiver escuro e ela tiver sozinha? Ela vai se assustar. - Ponderou, aflito.
Shawn hesitou. Não fazia bem deixar Nate ver Camila desse modo, como se precisasse de alguém lá o tempo todo. O menino podia criar a necessidade de ficar lá o tempo todo, o que não seria saudável... Shawn suspirou, acariciando o cabelo do filho.
Shawn: Só um pouco. Não mexa nos aparelhos dela, não mexa em nada. Tome cuidado, ela é frágil, mais fraca que nós. - Nate assentiu - Não saia do quarto. Se você sair, um dos seguranças... - Ele apontou os dois seguranças na porta - Vão me avisar. Vou ficar bravo, e não deixo mais você ficar. - Avisou - Promete?
Nate: Prometo. - Assentiu, solene. Shawn sorriu.
Shawn: Não demoro. - Ele beijou a testa do filho e após falar com os seguranças, saiu.
Ao ficar sozinho Nate olhou Camila por minutos. Shawn dissera pra ele não mexer em nada, mas ele se esticou, abrindo a pálpebra da mãe. O olho de Camila não tinha reflexo, a pupila sem movimento, focada no nada, e isso assustou o menino, que soltou.
Nate: Acorda, mamãe. - Pediu, tristonho, balançando Camila de leve. O corpo dela balançou brevemente, logo voltando ao estado inicial - Tudo bem. Vou cuidar de você.
Ele alisou os cabelos da mãe, ajeitando-os como se a aprontasse pra dormir. Puxou o cobertor dela, entrando debaixo da coberta e abraçando-a. Quando Shawn voltou ao quarto, 20 minutos depois, Nate dormia, abraçado ao corpo inerte de Camila. Nate não sabia o que era um abraço, um carinho de mãe. Nunca provara. Ele apanhou o braço livre dela e colocou em volta de si próprio, segurando, e caiu no sono, encolhidinho. Shawn suspirou, torturado, se encostando na porta e pondo a mão na cabeça. Não sabia o que fazer: Nate estava crescendo, estava começando a dar por falta deu uma mãe e Shawn não queria que ele sofresse isso (ele sempre poupara o menino de todo e qualquer tipo de sofrimento), mas por outro lado não havia o que fazer para trazer Camila de volta. Era uma situação limite.
**
Faltavam semanas pro terceiro aniversário de Nate e algumas poucas mais pros 4 anos de coma de Camila. Shawn já estava organizando a festa do menino... E Perrie estava ficando impaciente.
Shawn: De criança, só da família, temos Clair, Greg e Juliet. - Disse, pensativo, escrevendo algo. Perrie estava sentada do lado dele.
Perrie: Juliet é muito pequenininha e Greg já se diz adolescente. - Greg, com 14 anos, estava chegando a fase das garotas. Shawn achava graça.
Shawn: Greg se diz adolescente mas volta a ser criança só com um pedaço de torta na frente dele. O bufê já se assegurou de nada ter lactose. - Disse, marcando algo no papel - Juliet é grandinha o suficiente. No primeiro aniversário de Nate ele não entendia, mas adorou. - Ele sorriu de canto.
Perrie: Você e suas soluções pra tudo. - Ela o abraçou pelo ombro e Shawn sorriu, satisfeito.
Shawn: Não sei se mantenho a festa privada ou se chamo outras crianças. Já é hora de Nate começar a conhecer outras pessoas, no próximo setembro ele já vai pra escola. - Devaneou e Perrie suspirou. Sempre Nate. Nate o tempo todo. Ela precisava tirar o menino da conversa.
Perrie: Escute, deixando o aniversário de Nate de lado um pouco. - Shawn ergueu os olhos e franziu o cenho brevemente. Não tinha notado que ela estava tão próxima - Precisamos fechar o contrato de Darfur. - Shawn suspirou e Perrie sorriu internamente, vendo-o se afastar do tema do menino.
Shawn: Os números ainda não batem? - Perguntou, puxando a pasta que ela oferecia.
Perrie: Não. - Ela própria franziu o cenho. O problema era real - Talvez um de nós precise ir lá. Pensei em marcar um vôo pra nós dois na quinta e... - Interrompida.
Shawn: Não. - Dispensou, lendo, absorto.
Perrie: Não? - Perguntou, surpresa, acariciando o cabelo dele.
Shawn: Não. Nate é muito pequeno pra viajar de avião, não é pra ele ainda. - Dispensou, virando a folha. Que merda eles tinham feito com aqueles números?
Perrie: Bem, eu tinha pensado em deixá-lo com Karen, ou Madison, ou Sophia. - Sugeriu, e Shawn negou de novo.
Shawn: Eu sou o pai dele, ele fica comigo. Nunca me ausentei por períodos maiores que algumas horas, ele estranharia. - Disse, calculando algo na cabeça, e suspirou - Minha mãe tem Greg, Madison tem Clair, Sophia tem Juliet. Não, Nate fica comigo. - Ele passou a folha de novo - De qualquer forma, prometi que o levaria pra alimentar os patos no sábado de manhã, se o tempo estiver bom. Ele gosta. - Perrie suspirou. Nate, Nate,Nate.
Perrie: Ok então, o que fazemos com Darfur? - Perguntou, se forçando a se acalmar.
Shawn: Vou recalcular tudo. - Disse, decidido - Tendo minha palavra dizendo que as contas não batem, eles vão ter que dar uma solução pra isso.
Perrie: Recalcular tudo? Shawn, são meses de relatório. - Disse, exasperada.
Shawn: Então é bom eu começar logo. - Disse, se esticando.
Perrie: Quer ajuda? - Perguntou, toda prestativa.
Shawn: Por favor. - Disse, e ela sorriu, virando o laptop dele pra ela e abrindo a tela. O papel de parede era uma foto dele com um Nate radiante no colo, com um sorriso enorme e um algodão doce gigante na mão. Perrie ignorou, abrindo uma planilha.
As próximas horas foram silenciosas. Números foram checados atentamente, cálculos foram refeitos um por um. A madrugada se instalou novamente, o tempo esfriando, o que Perrie aproveitou pra se aconchegar perto do primo, que pra azar dela não dava a devida atenção.
Shawn: 650 está pra 23 mil. - Chamou a atenção, apontando um papel onde ela anotou errado. Perrie assentiu, corrigindo.
Perrie: Agora só falta um mês. - Disse, satisfeita, sorrindo pra ele.
Shawn: Com sorte acabamos antes de amanhecer. - Disse, retribuindo o sorriso dela.
Se essa não era a hora, ela não sabia qual seria. O encarou por um instante, deslumbrada por seu sorriso como sempre, então se aproximou ainda mais, os rostos ficando próximos. Shawn parou de sorrir. Não tinha contato com uma mulher há 4 anos - é claro que sentia falta. Ela colocou uma das mãos no cabelo dele, tocando-o em um carinho saudoso e se inclinou, beijando-o. Os lábios dela eram macios, se moldavam aos dele, eram doces...
E ele se sentiu sujo fazendo aquilo. Imundo.
Perrie não entendeu quando ele, sutilmente, interrompeu o beijo, se afastando dela.
Perrie: O que foi? - Perguntou, vendo-o pegar uma das canecas de café na mesa e tomar um gole.
Shawn: Melhor não. - Disse, sem se demorar.
Perrie: Porque? Eu sou livre, você é livre, somos adultos. - Disse, obvia.
Shawn: Pezz, eu sou casado. - Lembrou, mostrando a mão esquerda onde a aliança dourada repousava, as sobrancelhas erguidas.
Perrie: Você é viúvo. - Disse, amarga.
Shawn: Camila não está morta. Não gosto que fale desse modo. - Repreendeu - E você disse que estava namorando, você seguiu em frente, o que houve?
Perrie: Eu, namorando? - Perguntou, irritada.
Shawn: Zy? - Lembrou, franzindo o cenho. - Você me apresentou ele. - Concluiu.
Perrie: Quem?! Ah sim, Zy. - Disse, se lembrando - Não deu certo.
Então era isso. Perrie entrou no escritório de Shawn, anos atrás, sorridente, e anunciou que estava namorando. Ele gostou de saber - não via futuro pros dois. Ela marcou um almoço, toda feliz, onde o apresentou o rapaz, Zy. Ele foi educado, representou a família, foi um almoço tranquilo. O cara era normal. Exceto de que Zy podia ser apelido pra Zayn, e disso Shawn não fazia idéia.
Shawn: Eu sinto muito, eu... - Ele respirou fundo - Não podemos levar isso adiante.
Perrie: Porque não? - Insistiu, e ele balançou a cabeça.
Shawn: Eu tenho um filho. - Suspirou, obvio. O centro do seu mundo era Nate agora.
Perrie: Filho que vai precisar de uma mãe! - Shawn a encarou, pensativo - Shawn, você não sabe quando nem se Camila vai acordar, e eu estou aqui. Eu posso ser a mãe que Nate precisa, assim ele não vai sofrer por algo que nenhum de nós pode fazer nada.
Shawn: Camila é a mãe dele. - Cortou, duro.
Perrie: E ela está em coma há 4 anos. A vida dela acabou quando aquele carro caiu daquela ponte, mas o tempo passa e você ainda está em negação. Ela não o viu andar, ela não o viu aprender a falar, ela não esteve lá em momento algum! - Lembrou. Shawn tinha o semblante fechado - O que você está fazendo, levando o menino lá o tempo todo, deixando-o se apegar a um cadáver?
Shawn ia responder, então um choro baixo os alcançou. Nate acordara - tinha fome. Perrie suspirou, irritada, se largando na cadeira, e Shawn balançou a cabeça negativamente, se levantando e saindo dali. As palavras de Perrie eram duras, e ele não gostava nem da idéia. Não estava levando o filho pra ver um cadáver - estava levando-o pra ver a mãe dele. Ela estava viva, e ele insistiria nisso até o ultimo minuto.
Shawn: Pronto. - Disse, ligando a luz do próprio quarto. Nate tinha um quarto, mas preferia dormir com o pai, e esse deixava, rodeando o garoto de travesseiros na cama de casal. - Estou aqui, pronto. - Disse, acariciando o cabelo do menino, que o abraçou pelo pescoço.
Nate: Onde você tava? - Perguntou, manhoso. Shawn sempre estava lá quando ele acordava durante a noite. Shawn sorriu, beijando o cabelo do menino.
Shawn: Trabalhando com a sua tia. - Disse, paciente, secando o rostinho do menino - É tarde. Que tal eu te preparar um suco, e depois voltamos pra dormir? - Propôs.
Nate: De maçã? - Perguntou, parecendo considerar. Shawn riu.
Shawn: É, hoje é de maçã. - Disse, carregando o menino, que riu, todo bonitinho em seu pijama listrado de azul e branco.
Shawn voltou ao escritório e Perrie havia voltado a trabalhar, revisando o ultimo mês que faltava nos cálculos. Shawn trouxe Nate, colocando o menino na sua cadeira (após colocar almofadas na cadeira, pra ele ficar na altura certa) e lhe entregou alguns lápis e folhas de oficio.
Shawn: Desenhe o que você estava sonhando, pra que eu possa ver. - Disse, ajeitando os papeis na frente do menino, que sorriu, animado - Maçã com leite, tudo bem? - O menino assentiu e ganhou um beijo estralado na bochecha, antes de Shawn sair.
Perrie: Tudo bem, Nate? - Perguntou, observando-o. O menino ergueu os olhinhos azuis, sonolentos, o cabelinho liso alvoroçado e olhou a tia.
Nate: Tudo. - Disse, já apanhando um lápis amarelo.
Perrie: Aconteceu alguma coisa? - Perguntou, irritada pela interrupção, e Nate a olhou, confuso - Você chorou.
Nate: Papai não tava lá. - Disse, acanhado, segurando o lápis - Eu me assustei.
Perrie: Porque acordou? - Insistiu. O menino meio que se encolheu.
Nate: Estou com fome. - Disse, quieto, e Perrie suspirou, ignorando-o.
Nos próximos 5 minutos nada foi dito. Nate começou seu desenho, algo bastante colorido, e Perrie continuou os cálculos da empresa, irritada. Todo o café que bebia não ajudava. Estava quase lá! Depois de 4 anos, finalmente chegara o momento e fora interrompido porque o santo Nate tinha fome. Então aconteceu.
O menino estendeu a mão pra pegar outro lápis e Perrie estendeu a dela pra pegar a caneca de café, as duas se bateram e o café virou na mesa, ensopando o trabalho que levou a noite inteira. Nate olhou, quietinho em seu canto. Perrie ficou lívida.
Nate: Desculpa, tia. - Pediu, desejando que Shawn voltasse.
Perrie: Que... - Ela puxou a pasta, erguendo-a, tentando salvar, mas o papel já havia sugado o café, estava todo empapado - Que d***o, Nathaniel, olhe pra isso! - Exclamou, furiosa.
E se descontrolou, no meio do ódio que sentia da situação inteira, apanhando o menino pelos braços, levantando-o da cadeira e sacudindo-o, os cabelos do menino balançando no ar. Nate, pequenininho e indefeso, se assustou. Nunca nem sonhou com o que quer que fosse violência, nunca passara por isso. Shawn o criara cercado de carinho, de amor, e quando ele precisava ser repreendido nunca era com gritos ou com agressão, e sim com conversas calmas, onde o pai, sério, o mostrava que ele fizera de errado e explicava que ele não podia repetir. Falando em Shawn...
Shawn: HEY! - Gritou, alarmado, na porta do escritório com uma mamadeira de suco na mão. Nate já havia caído no choro, apavorado. Shawn cruzou o escritório feito uma flecha, largando a mamadeira e tomando o filho dos braços da outra - Pronto, meu amor. - Ninou. Nate estava agarrado ao pescoço dele, e tremia enquanto chorava - QUE d***o FOI ISSO?!
Perrie: Eu... - Ela suspirou, exasperada, tirando o cabelo do rosto. Merda! - Eu me...
Shawn: Eu nunca levantei a mão pro meu filho, Perrie! - Disse, se contendo pra não gritar. Nate não gostava de gritos. Ele se sentou, colocando o menino no colo, ninando-o - Nem uma vez se quer! E se alguém teve motivos pra se cansar, se irritar ou perder a paciência nos últimos 3 anos, esse alguém fui eu! - Disse, lívido, ninando o menino.
Perrie: Eu perdi o controle, eu não sabia o que estava fazendo, eu... - Articulou em vão. Shawn estava tomado de raiva. Nada adiantaria.
Shawn: Foi um acidente, ele não quis fazer isso, e você... É repulsivo. - Repreendeu, a vontade de gritar fazendo sua garganta coçar - Nunca mais... Em hipótese alguma... Nem sonhe com isso. Ou eu vou me tornar um problema, Perrie, eu juro por Deus!
Perrie: Tudo bem. - Disse, mortificada. Nate ainda chorava, agarrado ao pai. Shawn soltou o menino com cuidado do pescoço, olhando-o.
Shawn: Pronto, meu filho. Já acabou. - Ele secou o rosto do menino, que soluçou, coçando o olhinho - Papai ta aqui, já acabou. - Tranquilizou - Olhe, eu trouxe o seu suco. - Disse, ignorando Perrie completamente. O menino negou com a cabeça.
Nate: Não quero. - Disse, a vozinha quebrada.
Shawn: Vamos lá, tome só um pouquinho. É de maçã, o seu preferido. Eu estou aqui, nada vai te acontecer. - O menino o olhou, em duvida, ainda abalado. Shawn era a pessoa que ele mais amava no mundo, a que ele mais confiava, e ele se sentia seguro com o pai ali - Tome, beba o seu suco. - Nate apanhou a mamadeira, levando-a a boca e começou a beber. Shawn beijou a cabeça dele, secando-lhe o rosto - Pronto. Estou com você.
Nate afundou a cabeça no peito do pai, segurando a mamadeira com as duas mãos enquanto bebia e Shawn o abraçou com os dois braços, ninando-o. Perrie observava a cena com desgosto. A adoração que Shawn tinha com a criança, o amor incondicional... Ao filho de Camila. Era revoltante. Nate foi se acalmando aos poucos, mas ainda olhava Perrie, inquieto. Shawn notou.
Shawn: Ele está assustado. Por favor, saia. - Perrie ergueu as sobrancelhas, surpresa - Não vou mais fazer nada hoje. E nem vou pra empresa pela manhã. Vou acalmar meu filho, vou colocá-lo pra dormir e vou passar um tempo com ele. - Disse, se levantando.
Perrie: Shawn... - Disse, completamente exasperada.
Shawn: Essa é a casa dele. - Lembrou, duro - Saia. - Repetiu e deu as costas, saindo dali. Ela o observou caminhar com o menino, sumindo da sala.
Havia uma coisa mais forte do que o paixão do Shawn apaixonado, do que a fúria do Shawn vingativo, e do poder do Shawn magnata: Era o amor do Shawn pai. Era um amor capaz de sacudir o mundo. Mudara toda a perspectiva de vida de Shawn, desde que ele soube que o filho era dele. Esse amor entendia o sacrifício de Camila, porque esse amor faria qualquer coisa pra proteger o menino, pra que ele não sofresse. Lutaria e morreria, se necessário fosse. Se Perrie tinha algo de errado pra fazer, algum erro pra cometer, era confrontar esse amor, ameaçá-lo.
E foi exatamente o que ela fez agredindo Nate, apavorando-o daquele modo. Recebeu o revés: Enquanto buscara o afeto de Shawn, conseguira sua ira. Mas agora era tarde.
Malfeito feito.
**
O aniversário de Nate chegou. Shawn continuou brigado com Perrie - simplesmente não engolia o fato de que ela tentara bater em Nate. A festa foi na torre branca, e Shawn mimou o menino de tudo.
Niall: Quero dizer, não é saudável. - Disse, enquanto conversavam sentados ele, Shawn, Liam com uma Juliet muito interessada no colo e Louis. A menina tinha os cabelinhos cor de cobre e os olhos da mãe, verdes.
Shawn: Até parece que Clair já ouviu um "não" na vida. - Dispensou, assistindo Nate, que brincava de esconde-esconde com os primos.
Niall: Claro que já. Quer ver? - Perguntou, e os outros ergueram a sobrancelha - Clair! - Chamou. A menina, que contava, veio até ele, toda bonitinha em um vestidinho rosa e branco.
Clair: Chamou, papai? - Perguntou, e ele deu um beijo estralado nela, que fez ela rir.
Niall: Não. - Disse, satisfeito, e os outros gemeram - Vá brincar. - A menina assentiu, confusa, e foi.
Liam: Você é ridículo em tantos níveis que eu nem consigo classificar. - Dispensou.
No outro lado da mansão...
Aaliyah: Foi errado. - Dispensou, irritada.
Madison: O que foi errado? - Perguntou, se aproximando. Perrie suspirou, se largando no sofá, e Aaliyah contou a história sobre Nate. Madison parecia em duvida se tinha um ataque ou não. Sophia, que depois de mãe ganhara um instinto que desconhecia, virou o rosto pra outra.
Sophia: Machucar uma criança de propósito... - Disse, pensativa - Perrie, eu já reboquei sua cara uma vez, posso fazer isso de novo a qualquer momento. - Lembrou.
Perrie: Você parece partir da idéia que isso me assusta. - Debochou. Karen os chamou pros parabéns.
Sophia: E você parece partir da idéia de que não se preocupar com isso é inteligente. - Rebateu, enquanto saia.
Todos se reuniram em volta da mesa, que estava cheia de doces e um bolo enorme do Capitão America no meio. Shawn se abaixou, carregando o filho, que parecia intrigado com algo.
Shawn: Que foi, campeão? - Perguntou, e seu sorriso morreu. Camila era quem o chamava de "campeão".
Nate: O que é rebocar? - Perguntou, confuso.
Shawn: Rebocar? - Perguntou, afastando a lembrança da mente.
Nate: Tia Sophia disse que já tinha rebocado a cara da tia Pezz uma vez. - Contou, inocente e Shawn riu, balançando a cabeça.
Shawn: Não é nada. E não saia repetindo isso. - Disse, se aproximando da mesa, e começaram a cantar parabéns - Quando for apagar as velas, faça um desejo. - Ensinou, em um sussurro na orelha do menino. Nos outros 2 aniversários ele era muito pequeno pra saber. Nate esperou, pensativo, então os parabéns acabaram, e ele olhou o pai.
Nate: Desejo? - Repetiu, e Shawn assentiu.
Shawn: Um pedido. A coisa que você mais quer no mundo. Feche os olhos, pense nela e apague as velas. - O menino pensou por um instante então se inclinou, soprando as três velinhas.
Depois disso foram doces, bolos e comemoração. Greg não representava bem um adolescente quando estava com os sobrinhos: Virava criança de novo. Aos poucos todos se dispersaram da mesa, as crianças voltando a brincar e os adultos se sentando pra conversar outra vez.
Louis: COM LICENÇA. - Disse, chamando a atenção - Eu estou tentando falar há meia hora e vocês não calam a boca. - Disse, irritado.
Niall: É porque, na maioria do tempo, você só fala merda. - Disse, e Madison colocou um brigadeiro na boca dele.
Madison: Deixe ele falar. - Disse, sentada no colo do marido e se inclinou, selando os lábios com os dele, que sorria.
Louis: Aali? - Aaliyah, que vinha chegando com um pedaço de bolo, o olhou - Quer casar comigo? - Perguntou, direto.
O silencio foi pesado na sala. Niall mastigou o brigadeiro mais duas vezes, parando. Liam parou de mimar Juliet. Karen sorriu. Aaliyah piscou três vezes, exasperada.
Aaliyah: Isso não foi romântico. - Disse, saindo do transe.
Louis: Sei que não, mas estou nervoso. - Disse, sincero, dando de ombros - Nós já namoramos há 5 anos. Eu amo você. E eu tenho uma aliança. - Ele enfiou a mão no bolso da calça, apanhando uma caixinha de veludo.
Niall: Você devia pedir a mão dela a um de nós primeiro. - Pensou, em voz alta, finalmente engolindo o brigadeiro.
Liam: É, tipo o irmão mais velho, ou algo assim - Emendou, e Sophia riu.
Shawn: É, experimente me pedir a mão da minha irmã, Louis. - Desafiou, ameaçador.
Aaliyah: Quer saber? Aceito. - Disse, decidida, e Liam, Shawn e Niall gemeram. Louis respirou fundo, totalmente aliviado.
Louis: Aceita? - Perguntou, surpreso. Aaliyah assentiu. Louis olhou Karen, em duvida.
Karen: Pode. - Cortou e Louis sorriu de novo, aliviado.
Uma aliança de noivado prateada deslizou no dedo de Aaliyah, e Shawn, a mando da mãe, foi buscar uma garrafa de champanhe. Parecia ter vontade de quebrar a garrafa na cabeça de Louis durante as congratulações, mas se conteve. Louis se comportara direitinho esse ano, mas a idéia de Aaliyah casada... Nenhum dos irmãos adorou. Eram super protetores demais.
Enquanto isso, entre as crianças...
Clair: Eu pedi uma boneca que falasse comigo no meu ultimo aniversario. - Disse, sorridente.
Nate: Era a coisa que você mais queria? - Clair assentiu, feliz - Funcionou?
Clair: Apareceu na minha cama no outro dia! - Disse, feliz - O que você pediu? - Perguntou, curiosa.
Nate: Que a minha mamãe acordasse. - Disse, tristonho, dando de ombros.
O sorriso de Shawn, que escutava a conversa, morreu. Clair sussurrara o pedido de aniversario, Madison ouviu e ele mesmo ajudou Niall a conseguir a boneca, na mesma noite. Era uma pena que o desejo de Nate não fosse tão fácil de ser atendido.
Semanas depois...
Liam: Shawn, as próteses que eu falei chegaram no hospital, e eu queria que você desse uma olhada nessa documentação pra mim. - Disse, entrando no escritório do irmão e entregando uma pasta. - Acho que está tudo regulamentado, mas não tenho tempo de checar, acho que você consegue mais rapid... O que houve?
Shawn suspirou e contou tudo, como ouvira o menino conversando com Clair, e a angustia que se instalou em seguida.
Shawn: Ele me pediu pra levá-lo lá no dia seguinte. Clair disse a ele que a boneca apareceu no dia seguinte, então ele teve esperança de que a regra se repetisse. - Contou, apoiando a cabeça nas mãos - Passou o dia todo no quarto de Camila, olhando-a como se esperasse que o pedido funcionasse.
Liam: Me lembro de ter estranhado, ele parecia ansioso olhando pra ela. - Se lembrou. Shawn assentiu.
Shawn: Eu disse que no pedido de aniversário ele podia pedir aquilo que mais quisesse no mundo. Ele pediu que a mãe acordasse. - Disse, mortificado - Ficou lá o dia todo, não fez nada, ficou sentado olhando ela. Eu o vi cutucando-a algumas vezes. Quando anoiteceu e eu quis ir embora, insistiu que precisava ficar, que precisava esperar, e começou a chorar. Eu deixei. - Disse, os olhos mortos. O sofrimento de Nate era como uma doença crescendo no interior dele - Só de madrugada não aguentou mais e caiu no sono, ai o levei pra casa.
Liam: Eu lamento. - Disse, pesaroso.
Shawn: Liam, se tentarmos remédios, como se coma dela fosse induzido... - Tentou, desesperado.
Liam: O corpo ia descartar. Pra ela acordar a atividade cerebral dela precisa voltar, e não acontece. - Disse, odiando ser medico, odiando ter que dizer isso.
Shawn: Mas você disse que ela melhorou. Está respirando sozinha, até. - Tentou, em vão - Essa semana fizeram 4 anos, Liam. 4 anos desde o acidente, 4 anos desde que esse inferno começou. - Lembrou.
Liam: Fazem anos desde a ultima melhora, meu irmão. - Disse, triste - Quando Nate nasceu os rins dela voltaram a funcionar, a respiração se estabilizou e a circulação também, mas foi porque o corpo se livrou da sobrecarga que sofria com a gravidez. Desde então não houve nada. - Shawn suspirou - Eu lamento.
Shawn: Não tanto quanto eu. - Disse, mortificado.
Liam: Falando em lamentar... - Shawn o olhou - Sobre Louis e Aaliyah... - Começou e Shawn gemeu, se recostando na cadeira.
Shawn: Eu estou tentando ignorar isso, em nome de Deus! - Disse, exasperado, e Liam riu.
Um dia alguém disse a frase: "Mas veja que bela é a vida, te surpreende quando menos crês". Essa pessoa estava certa, no fim das contas. O jogo continua, os dados continuam rolando e a gente nunca sabe qual o movimento seguinte.
No hospital, Camila continuava como sempre, sozinha, em seu quarto, apagada, mole, pálida. Não havia nada que impulsionasse, nem uma faísca de esperança... Então houve um suspiro. Um suspiro fraco, débil. Um instante de silencio, então dois olhos azuis se abriram, piscando uma vez perante a claridade que lhe foi negada por anos e focalizando o teto do hospital.