AMANDA RIBEIRO
_Carol? Cheguei — anunciei, entrando em casa
_Estou no quarto! — gritou
Entrei no meu próprio quarto e deixei tudo, minha bolsa, os saltos, o blazer, coloquei uma calça de moletom e fui para a cozinha, prendendo o cabelo
_Por que voltou tão cedo? — a minha queridíssima colega de quarto questionou-me, entrando na cozinha, enquanto eu pegava um copo de água
_O escritório está desabando e o meu chefe deu-se folga — expliquei — sem ele lá, adiantei algumas coisas e vim para casa
Carol sentou ao meu lado no sofá da sala, animada
_Desabando? O que aconteceu? Finalmente os dois poderosos entraram numa luta física e irracional que acabou com um morto, três feridos e duas viaturas da polícia interditando o local?
A encarei estranho e deixei o copo vazio na mesinha de centro
_Você precisa mesmo sair de casa — opinei e ela jogou-me uma almofada
Ana Carolina, também conhecida como Carol, é minha prima, quando percebemos que precisávamos sair da casa dos nossos pais, mas que sustentar uma casa sozinha era caro demais para nós e considerando a nossa expectativa pessimista quanto à nossa vida amorosa, decidimos morar juntas e alugamos um apartamento
_Quando mesmo que você pretende arrumar um emprego? — provoquei — quando concordei em morarmos juntas, eu não pensei que ia ter que sustentar nós duas — ri e recebi um chute fraco como repreensão
_Só essa semana eu inscrevi-me para 3 vagas — ela gesticulou orgulhosa — mas não fui aceita em nenhuma — Carol murchou, afundando dramaticamente no sofá — porque é tão difícil arrumar um emprego nesse país?! — ela gritou e eu revirei os olhos, rindo
_Só continue procurando — incentivei
_Não dá! Não tem emprego para mim nesse estado! Eu já rodei por todo canto, eu já sou até conhecida em todas as empresas e comércios da região, eles dão-me 'tchauzinho' quando passo, Amanda, me dão 'tchauzinho', você está entendendo?! — Carol sacudiu-me pelos braços, me surpreendendo
_Eu entendi, entendi — afastei as suas mãos, respirando aliviada — você parece tão desesperada que daqui a pouco está pedindo para ser a secretária do Éric lá no escritório — ri com humor
_Ele está sem secretária? — ela questionou-me
_Está, mas só porque ele está tão envolvido na sua competição pela presidência que nem mesmo procurou — interrompi-me, notando o olhar de Carol
_O que é preciso para trabalhar lá?
_Não — a olhei séria
_Mas é a minha área! Eu sou perfeita para o escritório! Vai por mim, é o destino trabalharmos juntas – Carol insistiu
_Primeiro, é para ser secretária, não para advogar, e segundo, nem pense nisso – intensifiquei meu olhar - não mesmo, você ouviu-me bem? É para ser a secretária do Dr. Éric, um dos dragões do escritório, eu não lhe mandaria para a boca do monstro assim
_Ah, por favor, ele n******e ser pior que ficar desempregada — ela revirou os olhos — eu já estou sendo humilhada de graça nessa busca incessante por emprego, pelo menos se eu for admitida no seu escritório, eu vou ser uma sofredora paga
_Você não está entendendo — eu olhei-a receosa — mesmo que o Dr. Éric não seja tão insensível e a*******e quanto o Rafael, ele é tão exigente quanto! Lá no escritório, dizem que a última secretária demitiu-se porque não aguentava mais o perfeccionismo dele, ele é tão rígido que chega a assustar
_Tudo bem, eu aguento
_Não - respondi
_Vamos, Amanda, eu consigo, só me ajuda a entrar! — ela ajoelhou-se no sofá, me pedindo
_Não, eu já disse! Não é nada fácil e vai ficar pior — expliquei — eu ouvi algumas conversar lá no escritório e parece que o Dr. Éric vai assumir a presidência pelos próximos 2 meses, você entende o que significa? Quem estiver por perto dele nesse tempo, vai estar diretamente na zona da disputa!
_Então isso significa que não vai ajudar-me? — Carol olhou-me decepcionada
_Exatamente — concordei e a vi voltar a murchar no sofá
_É isso! Estou condenada a viver desempregada para sempre — ela exagerou — e, por não querer ajudar-me, você quem terá de sustentar-me a partir de hoje!
_E eu já não sustentava? — falei e a empurrei de brincadeira
_Tudo bem, tudo bem! — ela exclamou e olhou-me divertida — já que a minha prima querida é quem me sustenta... Vamos pedir comida hoje? — Carol pediu, animada, e eu ri
_Quando você tiver o seu próprio dinheiro, tudo bem? — respondi e ela olhou-me f**o
_Quanta falta de empatia — ela levantou, reclamando — por isso, o país não vai para frente!
Em poucos minutos, Carol estava de volta com duas vasilhas de pipoca e refrigerante
_Já que não vai trabalhar hoje, coloca um filme para nós assistirmos — ela indicou e concordei, ligando a televisão
O bom de morar com a minha prima é que sempre nos entendemos, brigamos muito, mas também nos resolvemos rápido, temos o nosso próprio espaço e respeitamos os dias chatos uma da outra. Tenho o meu próprio emprego, minha graduação, estou preparando-me para um concurso de assistente social, tenho a minha casa e uma boa colega de apartamento, poderia ter uma ajuda maior nas contas, mas de mais está tudo ótimo.
_Você visitou ela hoje? — a voz da Carol cobriu o som da televisão
_Sim, passei por ela na volta para casa — respondi
Ah, sim! A única coisa que me falta de verdade: minha casa dos sonhos. Eu paro para observá-la desde os treze anos, quando a encontrei por acaso... A casa de número 236... Ela lembra a casa do meu livro favorito na infância, eu decidi que um dia, quando puder, vou compra-la, essa casa é o meu sonho de consumo real, quero compra-la e reformar para devolver o brilho que tinha na primeira vez que a vi.
_Ainda quer compra-la? Depois de tanto tempo abandonada, ninguém quer comprar devido ao seu estado
_Mas eu quero e vou, essas pessoas não entendem nada, aquela casa é perfeita — sorri e olhei para Carol quando escutei seu suspirou triste
_Depois de tanto tempo, parece que não tem outro jeito... Você está destinada a se casar com aquele prédio velho! — Carol provocou e joguei uma almofada no seu rosto
_Sim, sim, como se eu fosse me casar algum dia — ri