Ponto de Vista de Ethan Wood
A porta se fechou.
E o silêncio tomou conta do escritório.
Mas não era um silêncio comum.
Era… incômodo.
Pesado.
Ficou ali.
Grudado.
Como se algo tivesse saído do lugar.
Passei a mão pelo rosto, soltando o ar lentamente.
Eu estava irritado.
Já fazia dias.
Sem respostas.
Sem pistas.
Sem controle.
E aquilo…
Aquilo estava começando a me afetar mais do que deveria.
— Droga… — murmurei, caminhando até a mesa.
Minha mente ainda estava nela.
Sempre nela.
Na Cinderela.
Na forma como ela desapareceu.
Na forma como escapou.
De novo.
Mas, dessa vez…
Outro detalhe começou a se infiltrar.
Algo que eu não queria analisar.
Mas que insistia em voltar.
A faxineira.
A imagem veio clara.
Ela ali.
Pequena.
Tensa.
Com a voz falhando.
“Eu estou… limpando…”
Fechei os olhos por um segundo.
Franzi a testa.
Algo não encaixava.
Mas eu não sabia o quê.
— Cara…
A voz de Marcos me tirou dos pensamentos.
Abri os olhos.
Olhei para ele.
Ele estava encostado na mesa, me observando.
Com aquela expressão de quem já estava julgando.
— O quê? — respondi, sem paciência.
Ele soltou um suspiro.
— Você exagerou.
Arqueei uma sobrancelha.
— Do que você está falando?
— Da mulher.
Fiquei em silêncio por um segundo.
— Que mulher?
Ele me olhou como se eu fosse i****a.
— A faxineira.
Ah.
Ela.
Dei de ombros.
— E daí?
Marcos descruzou os braços.
— Ela saiu chorando, Ethan.
Soltei um riso baixo.
Sem humor.
— Você estava rindo até agora.
— Antes.
Ele deu um passo à frente.
— Mas você gritou com ela.
— E?
Minha voz saiu fria.
— Eu sou o chefe.
Simples.
Óbvio.
Lógico.
Mas ele não recuou.
— E isso te dá o direito de humilhar alguém assim?
O silêncio caiu.
Pesado.
Inclinei levemente a cabeça.
— Eu não humilhei ninguém.
— Não?
Ele riu, desacreditado.
— Você praticamente expulsou ela como se fosse um problema.
— Ela estava onde não devia.
— Ela estava trabalhando.
Travei a mandíbula.
— No meu escritório.
— Porque mandaram ela limpar lá!
Passei a mão pelo cabelo.
Irritado.
— Eu não pedi ninguém ali.
— E ela não pediu pra estar ali também!
A resposta veio rápida.
Direta.
Fiquei em silêncio.
Mas, dessa vez…
Não era só irritação.
Era outra coisa.
Um leve incômodo.
Quase imperceptível.
Mas presente.
A imagem dela voltou.
Os olhos baixos.
As mãos tremendo.
A voz falhando.
E, principalmente…
Aquele olhar.
Rápido.
Mas intenso.
Quando ela me encarou por um segundo.
Franzi a testa.
— Estranho… — murmurei, quase sem perceber.
— O quê? — Marcos perguntou.
Balancei a cabeça.
— Nada.
Mas não era nada.
Algo ali…
Tinha me chamado atenção.
E eu não gostava disso.
Porque eu não sabia o quê.
— Você passou dos limites — Marcos insistiu.
Olhei para ele novamente.
— Já acabou?
— Não.
Ele cruzou os braços.
— Você está descontando em todo mundo.
— Eu não estou—
— Está.
Me interrompeu.
— Funcionários, equipe, todo mundo.
Desviei o olhar.
— Eu estou lidando com um problema.
— Não. Você está obcecado.
O silêncio veio de novo.
Mas dessa vez…
Mais pesado.
Voltei o olhar para ele.
— Cuidado com o que você fala.
Minha voz saiu baixa.
Perigosa.
Mas Marcos não recuou.
Nunca recua.
— Eu estou te falando a verdade.
Ele se aproximou mais.
— Você está deixando isso te consumir.
Apertei a mandíbula.
— Eu tenho motivos.
— Tem?
Ele arqueou a sobrancelha.
— Ou você só não aceita perder?
Aquilo acertou.
Direto.
Virei o rosto.
Respirei fundo.
Controle.
Sempre controle.
Mas estava difícil.
— Ela não é só uma mulher — falei por fim.
Minha voz mais baixa.
Mais firme.
— É ela.
— A da boate?
— Sim.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— E daí?
Olhei para ele.
— E daí?
Dei um passo à frente.
— Ela desapareceu.
— E voltou.
— E fugiu de novo.
Minha voz foi ficando mais carregada.
— Ninguém faz isso comigo.
Marcos me encarou.
Sério.
— Talvez ela só não queira ser encontrada.
Soltei um riso frio.
— Isso não é opção.
O silêncio voltou.
Mas agora…
Carregado de algo mais.
Mais escuro.
Passei a mão pelo bolso.
Sentindo o tecido.
A lembrança.
A única pista.
— Ela está aqui… — murmurei.
Mais para mim mesmo.
— Eu sinto isso.
Mas, antes que eu pudesse continuar…
Outra imagem invadiu minha mente.
De novo.
A faxineira.
O olhar.
A forma como ela reagiu.
O nervosismo.
A respiração.
Franzi a testa.
Algo ali…
Incomodava.
Mas ainda não fazia sentido.
— Você devia pedir desculpa — Marcos disse de repente.
Olhei para ele, irritado.
— Está brincando comigo?
— Não.
— Eu não vou pedir desculpa pra uma funcionária.
— Por quê?
— Porque eu não faço isso.
Simples.
Direto.
Mas, mesmo dizendo aquilo…
A sensação não foi embora.
Aquele incômodo.
Aquela pequena dúvida.
Aquele detalhe fora do lugar.
Caminhei até a janela.
Olhei a cidade.
Mas minha mente não estava mais nela.
Nem totalmente na Cinderela.
Nem totalmente na conversa.
Estava dividida.
Entre duas imagens.
Duas mulheres.
Uma desconhecida.
Mas marcante.
E outra…
Invisível.
Mas…
Estranhamente familiar.
Fechei os olhos por um segundo.
— Isso não faz sentido…
— O quê? — Marcos perguntou.
Abri os olhos.
E balancei a cabeça.
— Nada.
Mas não era nada.
Porque, pela primeira vez…
Uma dúvida começou a surgir.
Pequena.
Sutil.
Mas perigosa.
E se…
Ela estivesse mais perto do que eu imaginava?
Meus olhos escureceram levemente.
E um pensamento passou pela minha mente.
Rápido.
Mas suficiente.
E se eu já tivesse visto ela… de novo? 🖤