eu sou o chefe

951 Words
Ponto de Vista de Ethan Wood A porta se fechou. E o silêncio tomou conta do escritório. Mas não era um silêncio comum. Era… incômodo. Pesado. Ficou ali. Grudado. Como se algo tivesse saído do lugar. Passei a mão pelo rosto, soltando o ar lentamente. Eu estava irritado. Já fazia dias. Sem respostas. Sem pistas. Sem controle. E aquilo… Aquilo estava começando a me afetar mais do que deveria. — Droga… — murmurei, caminhando até a mesa. Minha mente ainda estava nela. Sempre nela. Na Cinderela. Na forma como ela desapareceu. Na forma como escapou. De novo. Mas, dessa vez… Outro detalhe começou a se infiltrar. Algo que eu não queria analisar. Mas que insistia em voltar. A faxineira. A imagem veio clara. Ela ali. Pequena. Tensa. Com a voz falhando. “Eu estou… limpando…” Fechei os olhos por um segundo. Franzi a testa. Algo não encaixava. Mas eu não sabia o quê. — Cara… A voz de Marcos me tirou dos pensamentos. Abri os olhos. Olhei para ele. Ele estava encostado na mesa, me observando. Com aquela expressão de quem já estava julgando. — O quê? — respondi, sem paciência. Ele soltou um suspiro. — Você exagerou. Arqueei uma sobrancelha. — Do que você está falando? — Da mulher. Fiquei em silêncio por um segundo. — Que mulher? Ele me olhou como se eu fosse i****a. — A faxineira. Ah. Ela. Dei de ombros. — E daí? Marcos descruzou os braços. — Ela saiu chorando, Ethan. Soltei um riso baixo. Sem humor. — Você estava rindo até agora. — Antes. Ele deu um passo à frente. — Mas você gritou com ela. — E? Minha voz saiu fria. — Eu sou o chefe. Simples. Óbvio. Lógico. Mas ele não recuou. — E isso te dá o direito de humilhar alguém assim? O silêncio caiu. Pesado. Inclinei levemente a cabeça. — Eu não humilhei ninguém. — Não? Ele riu, desacreditado. — Você praticamente expulsou ela como se fosse um problema. — Ela estava onde não devia. — Ela estava trabalhando. Travei a mandíbula. — No meu escritório. — Porque mandaram ela limpar lá! Passei a mão pelo cabelo. Irritado. — Eu não pedi ninguém ali. — E ela não pediu pra estar ali também! A resposta veio rápida. Direta. Fiquei em silêncio. Mas, dessa vez… Não era só irritação. Era outra coisa. Um leve incômodo. Quase imperceptível. Mas presente. A imagem dela voltou. Os olhos baixos. As mãos tremendo. A voz falhando. E, principalmente… Aquele olhar. Rápido. Mas intenso. Quando ela me encarou por um segundo. Franzi a testa. — Estranho… — murmurei, quase sem perceber. — O quê? — Marcos perguntou. Balancei a cabeça. — Nada. Mas não era nada. Algo ali… Tinha me chamado atenção. E eu não gostava disso. Porque eu não sabia o quê. — Você passou dos limites — Marcos insistiu. Olhei para ele novamente. — Já acabou? — Não. Ele cruzou os braços. — Você está descontando em todo mundo. — Eu não estou— — Está. Me interrompeu. — Funcionários, equipe, todo mundo. Desviei o olhar. — Eu estou lidando com um problema. — Não. Você está obcecado. O silêncio veio de novo. Mas dessa vez… Mais pesado. Voltei o olhar para ele. — Cuidado com o que você fala. Minha voz saiu baixa. Perigosa. Mas Marcos não recuou. Nunca recua. — Eu estou te falando a verdade. Ele se aproximou mais. — Você está deixando isso te consumir. Apertei a mandíbula. — Eu tenho motivos. — Tem? Ele arqueou a sobrancelha. — Ou você só não aceita perder? Aquilo acertou. Direto. Virei o rosto. Respirei fundo. Controle. Sempre controle. Mas estava difícil. — Ela não é só uma mulher — falei por fim. Minha voz mais baixa. Mais firme. — É ela. — A da boate? — Sim. Ele ficou em silêncio por um segundo. — E daí? Olhei para ele. — E daí? Dei um passo à frente. — Ela desapareceu. — E voltou. — E fugiu de novo. Minha voz foi ficando mais carregada. — Ninguém faz isso comigo. Marcos me encarou. Sério. — Talvez ela só não queira ser encontrada. Soltei um riso frio. — Isso não é opção. O silêncio voltou. Mas agora… Carregado de algo mais. Mais escuro. Passei a mão pelo bolso. Sentindo o tecido. A lembrança. A única pista. — Ela está aqui… — murmurei. Mais para mim mesmo. — Eu sinto isso. Mas, antes que eu pudesse continuar… Outra imagem invadiu minha mente. De novo. A faxineira. O olhar. A forma como ela reagiu. O nervosismo. A respiração. Franzi a testa. Algo ali… Incomodava. Mas ainda não fazia sentido. — Você devia pedir desculpa — Marcos disse de repente. Olhei para ele, irritado. — Está brincando comigo? — Não. — Eu não vou pedir desculpa pra uma funcionária. — Por quê? — Porque eu não faço isso. Simples. Direto. Mas, mesmo dizendo aquilo… A sensação não foi embora. Aquele incômodo. Aquela pequena dúvida. Aquele detalhe fora do lugar. Caminhei até a janela. Olhei a cidade. Mas minha mente não estava mais nela. Nem totalmente na Cinderela. Nem totalmente na conversa. Estava dividida. Entre duas imagens. Duas mulheres. Uma desconhecida. Mas marcante. E outra… Invisível. Mas… Estranhamente familiar. Fechei os olhos por um segundo. — Isso não faz sentido… — O quê? — Marcos perguntou. Abri os olhos. E balancei a cabeça. — Nada. Mas não era nada. Porque, pela primeira vez… Uma dúvida começou a surgir. Pequena. Sutil. Mas perigosa. E se… Ela estivesse mais perto do que eu imaginava? Meus olhos escureceram levemente. E um pensamento passou pela minha mente. Rápido. Mas suficiente. E se eu já tivesse visto ela… de novo? 🖤
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