uma pista

727 Words
Ponto de Vista de Ethan Wood A reunião estava um tédio. Um monte de números. Gráficos. Pessoas falando demais e dizendo de menos. Um novo projeto internacional, algo que normalmente prenderia minha atenção… Mas não hoje. Não ultimamente. Minha mente estava em outro lugar. Sempre. Nela. Eu estava sentado na cabeceira da mesa, olhando fixamente para a tela à minha frente, fingindo prestar atenção, quando meu celular vibrou. Uma vez. Curto. Preciso. Peguei o aparelho discretamente. E então vi. Marcos. Franzi levemente a testa. Ele sabia que eu estava em reunião. Só me interromperia por um motivo. Abri a mensagem. O detetive achou uma pista. Meu corpo inteiro reagiu. Na hora. O sangue pareceu correr mais rápido. O tédio desapareceu. Substituído por algo muito mais interessante. Muito mais perigoso. Levantei-me imediatamente. — Continuem — falei, seco, sem dar explicações. Ninguém ousou questionar. Nunca ousam. Saí da sala antes mesmo que alguém tentasse falar comigo. Passos firmes. Rápidos. Diretos. Meu coração não batia mais por irritação. Agora… Era expectativa. Entrei no elevador. Apertei o botão do meu andar. E esperei. Imóvel. Mas por dentro… Em movimento. A porta abriu. Saí sem hesitar. Caminhei direto para o meu escritório. E, ao abrir a porta… Eles já estavam lá. Marcos. E o detetive. Fechei a porta atrás de mim. Sem cerimônia. — Fala. Minha voz saiu direta. Sem paciência. Sem rodeios. O detetive — um homem mais velho, postura discreta e olhar atento — deu um passo à frente. Segurava um tablet. — Eu encontrei uma possível ligação. Cruzei os braços. — Continue. Ele tocou na tela. E virou para mim. A imagem apareceu. Um sapato. Elegante. Brilhante. Delicado. Mas… caro. Muito caro. Reconheci na hora. Os olhos escureceram. — É esse. Minha voz saiu baixa. Mas carregada. — Foi o que ela usava. O detetive assentiu. — Eu imaginei. Ele passou para outra imagem. — Esse modelo é exclusivo. — Produção limitada. — Feito por um designer específico. — Não é vendido em qualquer lugar. Meu interesse aumentou. — Onde? Ele olhou direto para mim. — Uma única loja na cidade. O silêncio caiu. Mas dessa vez… Era diferente. Era o tipo de silêncio antes de uma tempestade. — Quem compra isso? — perguntei. — Pessoas com muito dinheiro. Marcos respondeu antes do detetive. — Ou alguém que ganhou de presente. Inclinei levemente a cabeça. Pensando. Calculando. — Tem registro de compra? O detetive assentiu. — Parcial. — Algumas vendas são discretas. — Clientes VIP. — Pagamentos que não deixam rastros simples. Claro. Fazia sentido. Mas não importava. Porque agora… Eu tinha algo. Um leve sorriso surgiu nos meus lábios. Frio. Controlado. — Já é suficiente. Marcos me olhou. — O que você vai fazer? Peguei meu paletó. Sem pressa. Mas decidido. — Eu vou até essa loja. — Agora? — Agora. O detetive tentou intervir. — Senhor Wood, talvez seja melhor— — Não. Cortei. Sem elevar a voz. Mas sem deixar espaço. — Eu mesmo vou resolver isso. Caminhei até a porta. Mas parei por um segundo. Virei levemente o rosto. — Endereço. O detetive falou imediatamente. Gravei. Sem esforço. Abri a porta. E antes de sair… Falei: — Se ela passou por lá… Meu olhar escureceu. — Eu vou encontrar o rastro. Saí. Passos firmes. Rápidos. Determinados. No elevador, minha mente já trabalhava. Cenários. Possibilidades. Erros. Padrões. Ela não era qualquer uma. Isso estava claro. O vestido. O comportamento. Agora o sapato. — Quem é você…? — murmurei. Mas, dessa vez… Não era só curiosidade. Era algo mais profundo. Mais intenso. Porque a distância entre nós… Estava diminuindo. E, pela primeira vez desde aquela noite… Eu senti. De verdade. Eu estava perto. Marcos me seguiu até a porta, preocupado. — Ethan, você tem um jantar com os investidores de Dubai em duas horas. Você não pode simplesmente sumir para ir atrás de um sapato. Eu parei, com a mão na maçaneta, e virei o rosto apenas o suficiente para que ele visse o brilho predatório em meus olhos. — Eu sou o dono desta empresa, Marcos. Eu decido o que é prioridade. E, no momento, encontrar a dona desse sapato é a única coisa que me impede de queimar este prédio inteiro de frustração. A distância estava diminuindo. E eu não teria misericórdia quando a encontrasse. Desta vez, não haveria meia-noite que a salvasse de mim.
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