Ponto de Vista de Ellen
Assim que Sara adormeceu, o apartamento mergulhou naquele silêncio típico do fim da noite.
Só se ouvia o barulho distante dos carros lá fora e o ventilador girando devagar no canto da sala.
Eu me sentei no sofá ao lado de Roberta.
As mãos entrelaçadas no colo.
Os olhos fixos no chão.
Ainda sem saber por onde começar.
Ela me observava em silêncio.
Esperando.
Sem me pressionar.
Como sempre fazia.
Respirei fundo.
E contei tudo.
Contei sobre o momento em que a secretária me chamou.
Sobre o medo que senti ao subir para a cobertura.
Sobre Marcos trancando a porta.
As fotos espalhadas sobre a mesa.
A descoberta.
A raiva de Ethan.
As acusações.
Os gritos.
E então contei a pior parte.
A parte que ainda me fazia sentir suja só de lembrar.
— Ele mandou os dois saírem.
Minha voz falhou.
Engoli em seco.
— E quando ficamos sozinhos… ele mandou eu ajoelhar.
Os olhos de Roberta arregalaram.
Continuei antes de perder a coragem.
— Ele abriu a calça… e disse que eu seria a p*****a particular dele.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Quase brutal.
Roberta levantou do sofá num pulo.
— O quê?!
Começou a andar de um lado para o outro.
Passos rápidos.
Mãos na cabeça.
Furiosa.
— Aquele homem pensa que ele é o quê?
Virou-se para mim, indignada.
— Só porque tem dinheiro acha que pode comprar todo mundo?
— Acha que pode pisar nas pessoas?
— Acha que mulher pobre não tem dignidade?
Ela chutou uma almofada no chão.
Eu quase sorri diante do drama dela.
Quase.
— Ai, minha vontade é ir naquela empresa agora e dar na cara dele!
Balancei a cabeça devagar.
— Não, Roberta.
Minha voz saiu cansada.
— Não adianta.
— Não adianta?
Ela me encarou.
— Ellen, ele te humilhou!
— Ele te assediou!
— Te tratou como lixo!
— Eu sei.
Fechei os olhos por um instante.
— Mas ele é poderoso.
— Tem dinheiro.
— Advogado.
— Influência.
— E eu sou só…
Parei no meio da frase.
Ela apontou o dedo para mim.
— Nem termina essa frase.
Abri os olhos.
— Você não é “só” nada.
A firmeza dela me desmontou por dentro.
Desviei o olhar.
— Mesmo assim… eu não quero guerra.
Passei a mão no rosto.
— Quero paz.
— Quero trabalhar.
— Quero cuidar da minha filha.
— Quero sobreviver.
Roberta respirou fundo e voltou a sentar.
Ainda tremendo de raiva.
— E agora?
Ela perguntou.
Olhei em volta daquele apartamento simples.
As paredes descascando em um canto.
A geladeira velha.
As contas empilhadas na mesa.
A mochila da escola de Sara pendurada na cadeira.
Tudo o que eu tinha.
Tudo o que dependia de mim.
— Agora eu vou procurar outra coisa pra fazer.
Falei baixo.
Mais para mim mesma do que para ela.
— Qualquer coisa.
— Faxina.
— Loja.
— Restaurante.
— O que aparecer.
Peguei as contas sobre a mesa.
Folheei sem realmente ler.
— Meu aluguel está atrasado.
— A escolinha da Sara vence semana que vem.
— Luz também.
Minha voz embargou.
— Eu não sei como vou fazer.
Roberta me puxou para perto.
Segurou minhas mãos.
— A gente dá um jeito.
As palavras eram simples.
Mas vindas dela…
Pareciam abrigo.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Depois falei algo que estava rondando minha cabeça desde a tarde.
— Acho que vou visitar meu pai.
Roberta se afastou imediatamente.
Me olhou como se eu tivesse dito que ia atravessar um campo minado descalça.
— Seu pai?
Assenti.
— Minha mãe disse que ele quer falar comigo.
— Talvez…
Respirei fundo.
— Talvez ele tenha mudado.
Ela soltou uma risada desacreditada.
— O homem que te expulsou de casa grávida?
— Que fingiu que você não existia por anos?
— Esse pai?
— Eu sei quem ele é.
Respondi, firme.
— Mas também sei que ele está envelhecendo.
— E talvez esteja arrependido.
Roberta cruzou os braços.
— Ou talvez esteja aprontando.
— Você sempre vê tragédia em tudo.
— E você sempre tenta salvar quem te feriu.
As palavras dela me atingiram.
Porque tinham verdade.
Passei a mão no sofá, pensativa.
— Não sei o que ele quer.
— Mas no fim de semana eu vou lá.
— E descubro.
Ela me encarou por longos segundos.
Depois suspirou.
— Tudo bem.
— Se você for… eu vou com você.
Sorri de lado.
— Não precisa.
— Precisa sim.
Ela levantou o queixo.
— Se aquele velho falar uma besteira, eu mesma respondo.
Dessa vez eu ri de verdade.
Uma risada pequena.
Mas sincera.
— Você é maluca.
— E fiel.
Corrigiu ela.
Ficamos em silêncio por alguns instantes.
O tipo de silêncio confortável que só existe entre pessoas que já dividiram dores demais.
Ela então me observou de um jeito diferente.
Mais calmo.
Mais profundo.
— O que foi?
Perguntei.
Roberta inclinou a cabeça.
— Tô pensando.
— Em quê?
Ela sorriu de leve.
— Em como você ainda tá de pé.
Franzi a testa.
— Não entendi.
Ela segurou minha mão outra vez.
— Você foi expulsa de casa.
— Cria uma filha praticamente sozinha.
— Trabalhou em tudo quanto é lugar.
— Aguentou humilhação.
— Aguentou preconceito.
— Aguentou abandono.
Os olhos dela brilharam.
— E mesmo assim continua doce.
— Continua lutando.
— Continua amando.
Senti o peito apertar.
— De todas nós…
A voz dela falhou um pouco.
— Você sempre foi a mais forte.
Balancei a cabeça.
— Não sou forte.
— É sim.
Ela apertou minha mão.
— Você só esquece.
As lágrimas vieram antes que eu pudesse impedir.
Porque eu estava cansada de ser forte.
Cansada de precisar resistir.
Cansada de sempre ter que levantar quando tudo em mim queria desabar.
Ela me puxou para um abraço.
E eu fui.
Sem reservas.
Sem máscara.
Chorei no ombro dela como há muito tempo não chorava.
Um choro antigo.
Acumulado.
Profundo.
Roberta acariciava meus cabelos em silêncio.
Sem tentar consertar nada.
Sem frases prontas.
Apenas ficando ali.
E às vezes…
Era disso que a gente mais precisava.
Não de soluções.
Mas de companhia no caos.
Quando finalmente me acalmei, enxuguei o rosto e respirei fundo.
Olhei para o corredor que levava ao quarto de Sara.
Minha menina dormia em paz.
Sem imaginar o peso que o mundo jogava sobre os adultos.
Endireitei os ombros.
Ainda doía.
Ainda assustava.
Ainda havia contas.
Ainda havia medo.
Ainda havia Ethan Wood.
Mas também havia amor.
Amizade.
E uma filha esperando que eu fosse luz.
E por ela…
Por mim…
Eu levantaria de novo.
Como sempre fiz. 🖤