antes da tempestade

1021 Words
Ponto de Vista de Ellen Os dias passaram tranquilos. Tranquilos até demais. E, depois de tanto medo, tanta tensão e tanta paranoia, aquilo parecia estranho. Como se minha vida estivesse me dando uma trégua que eu não sabia se merecia… ou se devia confiar. Mas eu aceitei. Aceitei porque precisava respirar. Porque viver em estado de alerta o tempo todo estava me consumindo por dentro. Porque eu tinha uma filha pequena e não podia desmoronar. Na empresa, tudo parecia ter voltado ao normal. Os cochichos sobre a tal Cinderela diminuíram até desaparecer. Os cartazes sumiram dos corredores. As secretárias voltaram a falar de maquiagem, promoções e fofocas alheias. Os homens do setor financeiro voltaram a reclamar do café. E o nome de Ethan Wood já não vinha acompanhado de risadinhas ou comentários maldosos. Era como se nada tivesse acontecido. Como se aquela noite no baile fosse apenas uma história inventada. Um surto coletivo. Um conto de fadas m*l contado. E eu agradecia por isso. De verdade. Quanto menos falassem, melhor. Quanto menos lembrassem, mais segura eu me sentia. Dona Marisa também nunca mais me mandou limpar a cobertura. Nem uma vez. Nem quando alguém faltava. Nem quando precisava de reforço. Ela apenas me olhava de canto, como se lembrasse do dia em que voltei chorando, e dizia: — Fica aqui embaixo, Ellen. E eu obedecia sem discutir. Ali, no térreo, no subsolo, nos corredores comuns, eu me sentia protegida. Longe dele. Longe do perigo. Longe daquele olhar que parecia atravessar as pessoas. Às vezes eu o via passar. Sempre cercado de gente importante. Advogados. Executivos. Seguranças. Mulheres lindas demais para serem reais. Ele cruzava os corredores como se o prédio inteiro se curvasse à sua presença. E ninguém ousava pará-lo. Ninguém ousava respirar alto perto dele. E o mais estranho… Era que ele nunca olhava para mim. Passava por mim como se eu fosse parte da parede. Como se eu fosse invisível. E aquilo me aliviava. Mas também feria um lugar dentro de mim que eu preferia não encarar. Porque eu sabia a verdade. Sabia que o homem que me ignorava nos corredores… Era o mesmo que tinha me beijado como se eu fosse a única mulher do mundo. O mesmo que me tocou no escritório. O mesmo que me procurava sem imaginar que eu estava diante dele todos os dias. Era absurdo. Cruel. E perigoso. Mas os dias seguiram. E eu também. No final de semana, minha mãe veio me visitar. Assim que abriu a porta, Sara correu para os braços dela, gritando: — Vovó! Minha mãe quase chorou. Pegou minha filha no colo e a encheu de beijos. — Como você cresceu, meu amor… Fiquei observando da cozinha, enquanto preparava café. Sempre doía ver o carinho dela e lembrar de tudo que perdemos. Da casa. Da família. Da paz. Minha mãe entrou na cozinha com Sara no colo. Me olhou em silêncio por alguns segundos. Depois falou: — Seu pai quer te ver. Parei no mesmo instante. A colher ficou suspensa no ar. — O quê? Ela suspirou. — Ele perguntou de você. Ri sem humor. — Perguntou da filha que ele expulsou de casa? — Ellen… — Da filha que ele disse que tinha morrido? Minha voz saiu mais amarga do que eu pretendia. Sara me olhou sem entender. Minha mãe a colocou no chão e pediu que fosse brincar. Esperamos ela sair da cozinha. Só então minha mãe voltou a falar. — Seu pai é orgulhoso. — Seu pai é c***l — corrigi. Ela abaixou os olhos. Porque sabia que eu tinha razão. Fiquei em silêncio por alguns segundos. Respirando fundo. Tentando controlar a dor antiga que ainda ardia. — Eu vou visitar ele no final do mês. Minha mãe ergueu o olhar. Surpresa. — Vai? Dei de ombros. — Não por ele. — Por mim. — Eu preciso encerrar algumas coisas. Ela segurou minha mão. — Obrigada. Não respondi. Porque eu ainda não sabia se aquilo era bondade… ou fraqueza. Depois que minha mãe foi embora, fiquei pensando no passado por horas. No dia em que descobri a gravidez. No olhar de nojo do meu pai. Nas malas jogadas na calçada. Na porta batendo. No silêncio da minha mãe, incapaz de me defender. Eu sobrevivi. Sozinha. Com medo. Com fome às vezes. Com uma criança no colo e o mundo inteiro contra mim. E agora ele queria me ver. Depois de tudo. Balancei a cabeça. Não valia a pena pensar naquilo o dia inteiro. À noite, Roberta apareceu como um furacão, como sempre. — Se arruma. — Pra quê? — Pra viver, mulher! Ela entrou sem pedir licença. Paulo veio logo atrás, rindo. — A gente vai jantar fora. — Eu não tenho roupa. — Mentira — Roberta respondeu, já abrindo meu guarda-roupa. Acabei indo. Fomos a um bar simples, com música ao vivo e comida boa. Nada luxuoso. Nada sofisticado. Mas leve. Verdadeiro. Sara ficou com Dona Maria. E pela primeira vez em muito tempo… Eu consegui rir sem culpa. Rimos das histórias absurdas de Roberta. Paulo implicou comigo porque eu só queria pedir suco. Roberta flertou com o garçom. E eu gargalhei tanto que minhas bochechas doeram. — Tá vendo? — ela disse, apontando pra mim. — Ainda existe vida nessa cara cansada. Revirei os olhos. — Você é ridícula. — E você tá bonita quando sorri. Aquela noite me fez bem. As outras que vieram depois também. Saímos mais algumas vezes. Coisas simples. Cinema barato. Praça com sorvete. Lanche no fim da tarde. Conversas na calçada. E aos poucos… Comecei a acreditar. Talvez agora fosse ficar tudo bem. Talvez a tempestade tivesse passado. Talvez Ethan Wood tivesse desistido. Talvez o passado estivesse, finalmente, onde devia estar. No passado. Na segunda-feira seguinte, fui trabalhar mais leve. Levei Sara para a escolinha. Beijei seu rosto. Ela entrou correndo, feliz. E eu segui para a empresa sentindo algo raro: Esperança. O céu estava limpo. O vento suave. Meu coração calmo. Mas a vida tinha um jeito c***l de agir. Porque, às vezes… É justamente quando a gente baixa a guarda… Que o perigo decide atacar. 🖤
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