ele sabe

1131 Words
Ponto de Vista de Ellen A porta m*l fechou atrás dele e minhas pernas perderam a força. Eu escorreguei devagar até o sofá, como se o corpo inteiro tivesse desaprendido a me sustentar. O apartamento ficou em silêncio, mas não era um silêncio de paz. Era um silêncio pesado, sufocante, cheio da presença dele ainda espalhada pelo ar. Ethan tinha estado ali. Na minha casa. No meu mundo. No único lugar que sempre foi só meu e da Sara. E agora ele sabia. Sabia de tudo. Levei as mãos ao rosto e comecei a chorar. Em silêncio. Sem soluço. Sem barulho. Aquele tipo de choro que rasga por dentro e sai quieto porque até a dor está cansada. Eu sempre soube que esse dia poderia chegar. Desde a noite em que reconheci a tatuagem no peito dele. Desde o momento em que descobri que o homem da boate e o meu chefe eram a mesma pessoa. Desde a festa. Desde os cartazes. Desde a obsessão dele pela tal Cinderela. Eu sempre soube. Mas saber que algo pode acontecer não diminui o impacto quando acontece de verdade. Apoiei os cotovelos nos joelhos e tentei respirar. Meu peito doía. Minha cabeça latejava. As mãos ainda tremiam. O que vai ser de mim agora? A pergunta ecoava sem parar. Não era só sobre mim. Nunca foi só sobre mim. Era sobre Sara. Sempre sobre Sara. Se ele quiser tirar minha filha? Se ele usar dinheiro, advogado, influência? Se ele disser que eu sou incapaz? Que moro num apartamento pequeno? Que estou desempregada? Que não tenho estabilidade? O que eu teria para enfrentar um homem como Ethan Wood? Nada. Ou quase nada. Olhei ao redor. Sofá velho. Mesa pequena. Parede descascada perto da janela. Brinquedos espalhados no chão. As bonecas que Sara amava. Os desenhos tortos colados com fita adesiva. Nossa vida inteira cabia ali. Simples. Apertada. Imperfeita. Mas cheia de amor. Será que algum juiz enxergaria isso? Ou só enxergaria o tamanho da conta bancária dele? As lágrimas voltaram com força. Tampei a boca para não fazer barulho. Sara estava no quarto. Ela não podia me ver quebrada. Ela nunca podia me ver quebrada. Foi então que ouvi passinhos no corredor. Levantei a cabeça depressa e enxuguei o rosto com a manga da blusa. Sara apareceu abraçada ao coelho de pelúcia, cabelo bagunçado, olhos sonolentos. — Mamãe? Abri os braços no mesmo instante. Ela correu para mim. Subiu no meu colo e se aninhou no meu peito. — Você tá chorando? Crianças percebem tudo. Até o que a gente tenta esconder. Beijei a testa dela. — Não, amor… a mamãe só tá cansada. Ela tocou meu rosto com a mãozinha morna. — Aquele moço brigou com você? Engoli em seco. — Não. — A gente só conversou. Ela ficou pensativa. Depois falou: — Ele tem olho bravo. Mesmo no meio do caos, quase sorri. — Tem mesmo. — Ele foi embora? — Foi. Ela suspirou aliviada e encostou a cabeça no meu ombro. Como se aquele simples detalhe resolvesse o universo inteiro. Queria ter a simplicidade dela. Ficamos assim por alguns minutos. Eu abraçando minha filha como se pudesse protegê-la do mundo só com os braços. Ela quase dormindo de novo. Então a levei para o quarto. Deitei na cama pequena. Cobri seu corpinho. Ela segurou meu dedo antes que eu saísse. — Mamãe? — Oi, princesa. — Você vai embora também? Meu coração partiu em silêncio. Sentei ao lado dela e acariciei seus cabelos. — Nunca. — Eu sempre volto. — Sempre. Ela sorriu, satisfeita. Fechou os olhos. Em poucos segundos dormiu. Fiquei olhando para ela por um tempo. Longo tempo. Tentando decorar cada detalhe. Como se o medo absurdo de perdê-la pudesse ser vencido se eu a amasse o suficiente. Mas amor não vence tribunal. Amor não compra influência. Amor não assina liminar. Voltei para a sala e peguei o celular. Minhas mãos ainda tremiam tanto que quase deixei cair. Liguei para Roberta. Ela atendeu no segundo toque. — Amiga? Aconteceu alguma coisa? Só de ouvir a voz dela, desabei. — Ele sabe. Silêncio do outro lado. Depois: — Quem sabe o quê? — Ethan. Minha voz falhou. — Ele veio aqui. — Descobriu da Sara. — O QUÊ? Ela praticamente gritou. — Como assim ele foi aí? Tá maluco? Contei tudo. Cada detalhe. A visita. A pergunta. O olhar dele para Sara. O medo. Quando terminei, Roberta respirou fundo. — Escuta pra mim. A voz dela veio firme. — Primeiro: você não vai surtar. — Segundo: ele não vai simplesmente arrancar sua filha de você. — Terceiro: amanhã a gente vai procurar ajuda. — Ajuda de quem? — Advogado. — Defensoria. — Conselho tutelar. — Qualquer coisa. — Mas você não vai enfrentar isso sozinha. Fechei os olhos. Uma parte da pressão no peito cedeu. — Eu tô com medo, Roberta. — Eu sei. A voz dela suavizou. — Mas medo não significa derrota. Comecei a chorar de novo. — Eu tô desempregada. — Sem dinheiro. — Sem nada. Como eu provo que posso cuidar dela? — Você já provou. Ela respondeu sem hesitar. — Dois anos e tantos meses criando essa menina sozinha. — Alimentando. — Educando. — Amando. — Isso vale mais que o dinheiro dele. Queria acreditar. Queria muito. — Vou dormir aí. Ela anunciou. — Tô pegando minhas coisas. — Não precisa… — Precisa sim. E desligou. Fiquei com o celular na mão. Sozinha por menos de dez minutos. Porque Roberta era assim. Barulhenta. Exagerada. Leal até o osso. Levantei e comecei a andar pela sala. Sem rumo. Pensando em tudo. No meu pai me oferecendo casamento como solução. Em Ethan aparecendo bêbado à meia-noite. Nos currículos recusados. Na vida me empurrando para um canto. Parecia que todos os caminhos queriam me prender. Meu pai com uma gaiola dourada. Ethan com poder e ameaça. A pobreza com desespero. Sentei de novo. Respirei fundo. Uma vez. Duas. Três. Não. Eu podia estar com medo. Mas ainda não estava vencida. Pouco depois, bateram na porta. Roberta entrou carregando uma mochila, um pacote de salgadinho e raiva nos olhos. — Se aquele homem aparecer de novo, eu juro que risco o carro dele inteiro. Ri no meio das lágrimas. Ela largou as coisas na mesa e me abraçou forte. Daqueles abraços que juntam os pedaços da gente. — Vai dar certo. — E se não der? Ela se afastou e segurou meu rosto. — Então a gente faz dar. Naquela noite, dormimos as duas na sala. Ou fingimos dormir. Porque eu passei horas encarando o teto. Ouvindo a respiração de Roberta no sofá ao lado. Ouvindo os pequenos sons do quarto de Sara. E pensando que o medo agora tinha nome. Ethan Wood. Mas o amor também tinha. Sara. 🖤
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