- Eu fecho o caixa para você, pode ir tranquila.
- Você é um anjo, Mel – Stephenie ajeita a bolsa no ombro, sem fazer a mínima questão de esconder a sua pressa. - Se todas as chefes fossem como você...
- Não sou sua chefe. Sou só a gerente – digo, mesmo sabendo que não é bem assim. Meu trabalho exige responsabilidade e liderança. E, embora eu seja uma perita na primeira, sou um fiasco total quando se trata da segunda. – Pode ir, Stephenie. Vejo você na segunda.
A garota dispara para fora do meu campo de visão, enquanto eu volto a me concentrar na tela do monitor. A tabela colorida, cheia de gráficos e números, parece zombar da minha cara.
Com um suspiro profundo, lembro a mim mesma que se eu não entregar esses resultados até amanhã, serei eu a implorar de joelhos. E não acho que Emily, diretora da marca, vai ter alguma compaixão de mim.
Um tempo depois, Stephenie está saindo pela porta giratória da loja, enquanto Amanda se aproxima com um olhar enviesado para ela e duas dúzias de roupa íntima nos braços.
- O velho golpe da mãe doente – resmunga, despejando as roupas no balcão. - Você não se cansa disso, Mel? Essa garota está suplicando por um pé na b***a.
Decido ignorar Amanda, que quase sempre é um minion rabugento quando se trata das outras pessoas.
Deixando de lado os resultados da semana, sigo até o imenso balcão rosa choque. Hora de pôr a mão na massa. Mesmo depois de tanto tempo trabalhando aqui, ainda me deslumbro com a qualidade das peças, todas de alto padrão, cujas etiquetas fariam mulheres comuns, como Amanda eu, se matarem diante da possibilidade.
Mas não a clientela daqui, é claro. Não me entendam m*l, elas também valorizam o que vestem – até mais do que nós –, só que de uma maneira completamente diferente.
Essas mulheres não precisam se matar, porque coisas assim fazem parte do seu cotidiano.
- Golpe? Eu não acho – digo, ao mesmo tempo em que devolvo à embalagem uma Carine Gilson que deve custar a metade do meu salário. – Quer dizer, esse é o tipo de coisa que pode acontecer com todo mundo – quando Amanda me olha, cética, eu dou de ombros, querendo encerrar o assunto. - Qualquer um pode adoecer. Eu não vejo nada demais.
- Numa noite de sexta?
Ela segue para os fundos da loja, com a pilha de lingeries dobradas nas mãos.
Quando termino a minha parte, eu vou em seu encalço, só que bem mais devagar. Meus pés têm bolhas enormes e elas doem. Miseravelmente.
A meio caminho do estoque, na pequena sala da gerência, encontro Amanda olhando ao redor, com uma expressão pensativa no rosto.
- A mãe dela tem a Doença de Hodgkin – digo, m*l acreditando que voltei a insistir a respeito de Stephenie. – O que você queria que eu dissesse? “Dane-se a sua mãe. Seu trabalho vem em primeiro lugar e você tem que honrar seus compromissos”?
- Mais ou menos isso – ela murmura, mas o cenho franzido chama a minha atenção. – Mel...
- O que foi?
Ela balança a cabeça.
- Tenho certeza de que eu vi um Agent Provocateur aqui, em algum lugar.
- “Aqui” ou “em algum lugar”? – eu provoco.
- Cala a boca, Mel. Eu vi um Agent Provocateur em algum lugar, e agora...
- Agora o que?
Ela dá de ombros e me olha, preocupada.
- Não sei. Ele sumiu... eu acho.
- Provavelmente, está no estoque. Vou checar e aproveito para guardar isso aqui – digo, recolhendo as peças embaladas das suas mãos. – Tudo bem assim? Eu não demoro. Você pode fechar o caixa para mim e...
Mas antes que eu consiga terminar a frase, o sino na porta da frente faz Amanda e eu trocarmos um olhar aterrorizado. Um olhar que diz que a morte seria um castigo muito mais leve.
Faltam dois minutos para as lojas fecharem as portas por toda a Rodeo Drive. Que filho da p**a sem coração apareceria assim no final do expediente?
- Deixa que eu vou – ela respira fundo, fazendo uma cara feia. – Você vai fechando o caixa, eu não demoro.
Ela caminha até a porta da salinha, esticando o pescoço o bastante para ter uma visão do hall da loja. Então eu vejo suas costas se empertigarem e, quando se volta para mim, outra vez, os olhos escuros trazem um brilho de interesse.
- p**a merda, que gostoso, Mel! Acho que estou prestes a perdoá-lo por disparar esse sino – sorri, e então parece se dar conta de algo, porque respira fundo de novo, olhando para mim com uma piedade exagerada. – É claro que eu posso fechar o caixa para você. Se quiser atendê-lo.
Ah, não. De novo, não...
Minhas amigas estão sempre à procura da próxima aventura amorosa. E simplesmente não aceitam que eu tenha eliminado os homens da minha vida, uma vez e para sempre. Embora Amanda e Charlie não sejam muito melhores do que eu, no quesito confiança em relação ao sexo oposto, elas não abrem mão de algo que está longe de ter algum significado para mim: o sexo sem compromisso.
Eu nunca teria coragem de me submeter a algo do tipo. Sou terrivelmente romântica ao ponto de saber que um amigo colorido nunca seria o suficiente na minha vida. Eu iria querer mais, muito mais. Eu ia querer tudo.
E aí está a origem todas as complicações do mundo.
- Eu estou ótima. E muito ocupada, caso não tenha percebido – reviro os olhos, mostrando meus braços abarrotados.
- Tem certeza? Eu posso cuidar disso aí também – ela sorri como uma perfeita predadora. – O cara é uma delícia, todo alto e musculoso.
Quero soltar uma gargalhada de ódio, mas me contenho.
Não quero brigar com Amanda. Mas, quando suas amigas se metem tanto na sua vida sexual...
Juro que, às vezes, dá vontade de arrancar a língua das duas.
Estou prestes a pular no seu pescoço, quando ela, finalmente, entende o recado e desaparece pela porta.
Fico tentada a atirar uma caneta nas suas costas. Em vez disso, atravesso a estreita porta de vidro fumê em direção ao estoque.
O movimento de hoje foi excelente, o lucro nas nuvens. As vendedoras trabalham com salário fixo, mas também recebem uma boa comissão, o que mantém a motivação lá no alto.
Com exceção de Stephenie, talvez.
Amanda está errada, eu não sou tão ingênua assim. É muito pior do que isso. Toda vez que Stephenie apela para o discurso da mãe doente, o meu coração se parte em pedaços por um motivo bastante óbvio.
Quando minha mãe morreu, uma parte de mim foi embora com ela. E eu soube que nunca, nunca mais, estaria inteira novamente.
Um instante se passa antes que a porta seja escancarada.
Eu pulo de susto.
Amanda entra com uma expressão de poucos amigos.
- Mel, é melhor você ir logo.
- O que foi?
- É um casal – explica. – E o homem quer falar com a gerente.
Eu deixo escapar um gemido.
Ah, não.
É sério?
- É um desses todo poderosos de nariz em pé, você sabe muito bem o tipo – ela acrescenta com um olhar de quem sente muito.
Eu encaro o teto, perguntando a Deus e a Buda o que fiz para merecer aquele castigo. E bem na hora de fechar a loja? Merda. Eu tinha planos para essa noite e eles envolviam o Netflix e um balde de pipocas.
Mas conheço bem o tipo que Amanda está descrevendo. Depois de tanto tempo trabalhando em uma loja de alto padrão, estou acostumada, vez ou outra, a ver um desses engravatados com uma cenoura enfiada no r**o.
Respiro fundo, resignada.
- Tudo bem. Você vasculha o estoque atrás da Agent Provocateur?
- Deixa comigo.
Arrumo meu vestido e endireito a postura antes de sair da área restrita a funcionários com o meu habitual sorriso positivo. O sorriso que diz que sou gentil, cordial e tenho todas as soluções para os seus problemas.
Normalmente, isso não me incomoda. Eu gosto do meu trabalho. Mas estou cansada até último fio de cabelo e confesso que, nesse momento, tudo o que eu gostaria de fazer é me arrastar para casa e colocar os meus pés em uma bacia de água quente.
Desço os degraus que separam a área interna do hall da loja, um espaço amplo e muito bem decorado, onde clientes podem circular livremente entre as belas – e caras! – peças de roupa íntima em exposição.
Depois de outra noite m*l dormida, eu me parabenizo mentalmente por ter conseguido esconder minhas olheiras sob uma maquiagem discreta e impecável. Ultimamente, tenho me saído o próprio mestre Yoda dos truques com base e corretivo, o que me confere uma aparência agradável, ainda que eu esteja quase sempre detonada por dentro.
E então meu orgulho dá meia volta e desaparece de repente.
Meu coração acelera. Eu fico paralisada aos pés da escada, porque é tudo o que eu sou capaz de fazer, enquanto assisto a minha fantasia mais íntima ganhar vida.
Lá está ele, Russel Price. O homem que foi minha ruína, a minha perdição.
Meu primeiro impulso é correr de volta para os fundos da loja como a perfeita covarde que eu sou. Mas não posso fazer isso. Não no meu trabalho. Não em um dos poucos lugares no mundo onde eu deveria me sentir no comando. Não posso dar esse gostinho a ele.
Não posso, não quero e não vou.
Meu estômago dá voltas, enquanto digo as minhas pernas que elas precisam se mexer agora mesmo. Sem muita vontade, elas obedecem e eu me aproximo de Russel, sentindo o martelar do meu coração contra as costelas.
Russel não está sozinho. É claro, ele nunca esteve. Mesmo na época do colégio, sempre havia uma loura estonteante pendurada em seu pescoço.
E agora não é diferente.
Enquanto diminuo a distância entre nós, eu me sinto dilacerando por dentro.