Capítulo 2

2064 Words
- Boa tarde. E quem posso ajudá-los? – pergunto, ignorando a sensação de que vou vomitar a qualquer momento. O olhar dele faz o meu estômago gelar. Me faz perder o fôlego. Seis anos. Meu Deus, é uma eternidade! E mesmo assim, tão pouco... A mulher ao seu lado estala os dedos, chamando a minha atenção. Só então percebo que passei os últimos segundos encarando Russel de boca aberta. Que vergonha! - Preciso de alguma coisa especial – ela gesticula com ar entediado. – Alguma coisa delicada, mas também sexy, com um toque de ousadia e.... Eu me viro de frente para ela, tentando acompanhar tudo o que diz. Mas é difícil, porque ela não para de falar um minuto. Além disso, os meus olhos são teimosos. Eles me traem o tempo inteiro e eu me pego espiando Russel pela minha visão lateral. O meu primeiro amor. Merda... o meu único. A quem eu quero enganar? Depois dele não houve nem a sombra de alguém capaz de me fazer sentir assim. Esse sentimento incrível, poderoso... E destrutivo. Russel é cem por cento o motivo de eu haver me fechado para o amor completamente. Atraída pelo seu magnetismo enorme e poderoso, eu me viro para ele, de uma vez. E recebo um sorriso como recompensa. E o pior é que eu sorrio também. Ótimo, estou tão fodida. Seu rosto não mudou quase nada. Apenas uma versão mais madura e masculina do que eu já havia tido o prazer de conferir antes. Como se o modelo de dezoito anos fosse apenas uma prévia quente da versão final, essa sim, capaz de derreter calcinhas. Bom, com certeza, a minha acabou de pegar fogo. A boca carnuda e sensual, agora, está emoldurada por uma barba loura e bem feita. Seus cabelos curtos e espetados – que antes ele usava mais compridos, eu registro -, estão agora em um tom mais claro, queimados pelo sol, talvez. Sua pele parece, com certeza, mais bronzeada e os músculos... ai meu Deus, não posso chamar aquilo de outra coisa senão uma obra de arte. Amanda tinha toda a razão. Russel está... gostoso. Mais gostoso do que nunca. Ele se tornou um homem. Em toda a extensão da palavra. - Acho que tenho algumas coisas que você vai gostar de ver – sorrio, trêmula, para a loura. – Você gosta de La Perla? - É claro. Alguém não gosta? É uma marca incrível. Eu sorrio de volta, embora por dentro, esteja revirando os olhos. Bem... sendo justa, ela não parece uma perua arrogante, o que, definitivamente, conta como pontos a seu favor. Um pouco mimada, talvez. Fútil? Com certeza. Mas não realmente desprezível. Mesmo assim, fico desejando que um buraco se abra sob os seus pés e ela caia nele. Como isso não acontece, eu peço que ela me venha comigo. Atravesso o saguão, ouvindo seus passos rápidos de salto atrás de mim. O barulho, que deveria ser notável na loja silenciosa, perde fácil para a batalha épica dentro do meu peito. Não sei se Russel vem atrás da gente. Honestamente, espero que não. Eu adoraria ter a oportunidade de recobrar um pouco o meu fôlego. - Vou te mostrar o melhor da La Perla. Tenho algumas peças que combinariam muito com você – eu prendo o ar com força nos pulmões, assim que sinto o cheiro inconfundível de Man In Black ao meu lado. Merda. Man in Black? Aiai. Bvlgari, sua maldita, você me paga. Engulo em seco, tirando os cabides das araras de maneira tão descoordenada, que alguns deles vão parar no chão. Russel se abaixa rápido e nossas cabeças acabam chocando no caminho. Inferno. Quais são as chances? - Me desculpe. Eu tento recolher todas as peças antes que ele acabe com alguma coisa humilhante nas mãos. Infelizmente, é exatamente o que acontece. Russel estende para mim uma calcinha que parece ter sido fabricada para ser arrancada com os dentes. Um modelo em seda e renda preta muito revelador. - Isso é seu - o sorriso torto dele é de parar o trânsito. Quando eu pego a lingerie provocante das suas mãos, nossos dedos se esbarram por uma fração de segundos. Eu o vejo morder o canto da boca e entro em um modo de combustão espontânea. - A culpa é minha. Nossa – Russel se corrige, com uma breve conferida no monumento louro de pé ao seu lado, sustentando uma expressão vagamente mau humorada. – Por termos chegado na hora de fechar. - Ela não liga – a mulher encara as próprias unhas. Longas e afiadas garras cobertas por um esmalte vermelho. – É bom para loja, não é mesmo? E é bom para a comissão das vendedoras ou algo do tipo? O que eu havia dito mesmo sobre ela? Ah, é. Eu estava errada. O olhar de Russel oscila quando eu levo uma mecha do meu cabelo solto para trás da orelha. Houve um tempo em que nós costumávamos ficar em silêncio por horas. Deitados no caput do seu carro. Eu recostava a cabeça em seu peito e ele afagava os meus cabelos, o nariz enterrado entre eles, enquanto contávamos as estrelas no céu e fazíamos planos para um futuro juntos. Russel inspira profundamente. Ele desvia os olhos e eu também. Que droga. Por que tem que ser tão difícil? De todas as formas que eu imaginei reencontrar esse cara - em um futuro remoto e totalmente hipotético, inclusive -. isso não passa nem perto das minhas fantasias. Não consigo entender o que ele está fazendo aqui depois de tanto tempo. Bem no meu local de trabalho? Isso é... merda. Inacreditável. A mulher pigarreia. Seus olhos estão pousados sobre mim como duas adagas afiadas. Eu já disse que ela é alta, loura e perfeita? Pois é, exatamente o tipo dele. Ao contrário de mim que sou, morena e gordinha. Gordinha não. Voluptuosa. Deixei o termo gordinha para trás, junto com as frustrações que ele carregava. Toda a insegurança e o medo de ser machucada que vinham com o pacote. Houve um tempo em que eu me escondia por trás de uma armadura de auto aceitação, com a intenção de chocar as pessoas. E amedrontá-las. Desencorajá-las a se aproximar. Bem, Russel se aproximou mesmo assim. Ele foi forte, corajoso e... determinado. Respiro fundo, tentando afastar as lembranças. Não porque são ruins, mas porque são boas demais. As lembranças boas são potencialmente as mais perigosas. Então volto a sorrir como se não estivesse presa em uma maldita montanha russa emocional. A mulher sorri também. Mas é um sorriso frio, que só chega aos lábios. O que foi que eu disse? Bem o tipo dele. - Aqui está. Acho que você vai gostar desse – eu mostro a ela um conjunto cor de rosa com sutiã push up, mas ela torce o nariz. - Não é uma festa a fantasia e eu não trabalho no maldito Moulin Rouge – suas palavras saem ásperas. Russel vira-se para ela com um olhar atravessado. Ela morde a boca, arrependida. – O que eu quero dizer é que gostaria de algo mais... sutil e refinado. Eu engulo o meu orgulho e retorno às araras, enquanto sinto o olhar de Russel cravado em minha nuca. Resisto ao impulso de mexer no cabelo outra vez. Ou de ajeitar a calça que parece, subitamente, justa demais nas minhas coxas... voluptuosas. Quando eu me viro, outra vez, Russel colocou meio metro de distância entre ele e a Srta. Nicole Kidman. - Acho que sei o que você está procurando – sorrio, ao exibir um modelo na cor bege, que se parece com algo que uma vovó da alta sociedade usaria. Fico feliz ao vê-la trincar os dentes. – É um modelo exclusivo. Bastante refinado e muito sutil. O que você achou? Por trás do meu sorriso positivo, há um f**a-se de todo tamanho. Mas, então, a verdade surge na forma de um soco no estômago. c***l e esmagadora. Bastaram poucos minutos na presença de Russel e estou prestes a rolar pelo chão com outra garota. Por causa dele. Quero disputar o amor e a atenção dele. Droga. O que estou fazendo? Como consegui voltar ao meu eu patético do ensino médio em tão pouco tempo? Suspiro, refazendo o caminho anterior e procurando, por um minuto, até encontrar o que procuro. Aqui está. Perfeito. Tiro o cabide do La Perla com bojo perfeito, decote profundo e tiras por todos os lados. É o meu preferido da nova coleção. Ele diz “Me coma. Mas me coma com vontade”. Os olhos da mulher brilham assim que recaem sobre o conjunto. - É isso o que eu estou procurando. Eu vou levar, é claro. É perfeito para mim. Eu olho para Russel. Seus olhos azuis estão pregados em mim. Coço a nuca, irritada. O que será que ele quer agora? Estou prestes a embalar a peça e registrá-la no caixa, quando Russel retira o cabide das minhas mãos. - Não gostei. - Não? – a mulher e eu perguntamos ao mesmo tempo. Odeio ter alguma coisa em comum com essa esnobe, mas sua expressão de incredulidade com certeza reflete a minha agora. - Eu prefiro... esse aqui – ele aponta para um conjunto branco da Bordelle, que custa uma nota, mas parece um pouco sem sal. Ela olha para ele, atônita – É refinado, acredite. Seu namorado vai me agradecer por isso, Lex. E, simples assim, ele me dá a dica. A loura não é sua namorada. Não é sua esposa. Não é nada dele. Meu coração desce direto para a barriga. A tal Lex solta um muxoxo. Tirando o conjunto branco das mãos de Russel, empurra na minha direção como se ele tivesse sido contaminado com alguma espécie de vírus. - Tudo bem, eu vou levar esse. A opinião de um homem é sempre a opinião de um homem, certo? Seja lá o que ela quis dizer com isso, eu simplesmente balanço a cabeça. Ainda estou atordoada. Eles não são namorados... Lex me mede de cima a baixo, enquanto eu embalo a peça. Esse olhar reprovador é o mesmo com o qual tive que lidar durante toda a minha adolescência. O olhar de gente magra para gente gorda. O olhar que diz: “Você não é boa o bastante”. Eu ignoro a crítica velada. Me recuso a cair na armadilha. Passo para o lado de dentro do balcão e registro no caixa o valor da peça que ela escolheu. Coloco dentro da caixa preta e dourada, com a assinatura da loja, arrematada por uma fita cetim cor de rosa. Quando vou escorregar a caixa pelo balcão, Russel coloca as mãos sobre as minhas. Meu coração para de bater de repente. Seus olhos devoram os meus. São de um azul tão limpo, tão vívido, que eu me perco neles. Nós ficamos segurando a caixa juntos e, mais do que um formigamento, eu sinto uma explosão que joga meu auto controle pelos ares. Estou prestes a puxá-lo pelo colarinho e beijar sua boca deliciosa como se não houvesse amanhã. Mas Lex claramente tem outros planos. Ela tira seu Bordelle de nós e eu recuo, surpresa, aproveitando a deixa para colocar meu cérebro no comando novamente. Russel emite um suspiro frustrado. Suas orelhas estão vermelhas e o seu pomo de adão... o que é aquilo com o seu pomo de adão, afinal? Ele sobe e desce como se ele estivesse respirando com dificuldade. Sinto o ar me abandonar completamente. Gostaria de ter algo em que me agarrar, mas tudo de concreto ao meu redor parece ter desaparecido. - Mel... Ah Céus. Ouço sua voz e sinto que estou desmoronando. Seu rosto, lindo e torturado, me faz querer beijá-lo. Entrego o recibo nas mãos de Lex e, de maneira providencial, Amanda entra em cena, vestida para matar. Pela quantidade de rímel e delineador em seus olhos, ela não vai mesmo para casa hoje à noite. - A loja acaba de fechar – avisa, rabugenta, sem dar a mínima para ninguém. – Vamos, Mel? - Ok, eu vou só pegar a minha bolsa. - Deixa que eu termino aqui para você e... Eu não a espero concluir a frase. Um segundo depois, deixei a loja em direção aos fundos, prometendo a mim mesma que, aconteça o que acontecer, vou dar um jeito de manter Russel no passado. Que é o lugar dele.
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