Um dia minha mãe me disse “não se case ainda, tá cedo.”
Quando te dizem que mãe tem um sexto sentido aguçado, acredite. Elas tem o poder de sentir o perigo chegar próximo da cria como nenhum outro animal feroz na floresta da vida.
O que minha mãe considerava cedo, para mim, parecia tarde demais. A vida tinha mudado tanto aquela altura. Das conversas em bares, comecei a ir a casamentos. Depois, não era minha amiga me chamando para tomar um café na esquina, mas pedindo ajuda para organizar o chá de panela. Eu, que continuava enfurnada no trabalho e nos afazeres da vida solitária no apartamento que havia financiado pela vida inteira, não percebi o tempo passar e acabei por me isolar nos meus próprios acontecimentos.
Conheci o Alex em um desses eventos. Era um amigo, de uma amiga, que era irmão de um outro amigo. Ele sempre esteve ali, de canto. O conhecia de vista. Éramos os únicos solteiros sobreviventes daquela mesa de chá revelação. Conversamos sobre a carreira, sobre os docinhos que tinham muito açúcar e de algumas preferências literárias. Naquele dia eu não tinha pressa, oras, já havia passado maior parte da minha vida em romances de algumas semanas, dias, não seria agora que iria me apressar.
No mesmo dia voltamos juntos para casa. Estava levemente bêbada, porém, lembro ainda hoje que andei pela calçada com o braço enroscado ao dele, com a cabeça encostada no ombro, sentindo o leve cheiro de perfume de bebê que ficou impregnado pelo ar da festa que tínhamos acabado de sair. Aquele parecia um dia normal, cotidiano. O famoso “parece que te conheço há anos.”
Não demorou muito para estarmos juntos. Na outra festa, de outro amigo, lá estávamos, lado a lado, em outra mesa de um Buffet infantil. Sempre alguma amiga perguntava “E aí, será que agora vai?”. Me fingia desinteressada pelo assunto. Ouvia isso quase todo ano quando conseguia emplacar qualquer romance. “Tá apaixonada, hein?” “Amiga, vamos torcer para que dê certo”.
Me sentia meio como uma obra de caridade. Era meio que: vamos nos juntar em oração para que ela não morra sozinha naquele apartamento, ela precisa de um homem! E isso me deixava desconfortável, insegura. Não queria passar por isso mais vezes, era chato. Então me desafiei a ter paciência, a não criar expectativas e deixar de lado algumas verdades que eu acreditava.
Em alguns meses, deixei que ele viesse e dormisse aqui. Minha vida não era muito complicada. Passei a desacostumar morar só. Estava sempre ali uma sombra do Alex. As vezes em forma de carinho, as vezes em forma de desleixo.
Um pedaço de bolo na mesa da cozinha com um recado grudado “não esquece de comer, Gabi.”. Ou das vezes em que chegava exausta da redação, olhava para o fogão e tinha uma panela de caldo de ovos e a geladeira repleta de comida. Em outros momentos, eu me irritava com nossa convivência indireta.
A toalha molhada na cama. Os pelos da barba na pia. Depois, passei a não me importar tanto. O carinho que ele tinha por mim era o suficiente para que pudesse diminuir o peso as coisas que eu odiava nele.
Estava decidido, mesmo que somente na minha própria cabeça, que era conveniente estarmos juntos. Não existia nada arrebatador, uma paixão enorme ou um sentimento digno de romance de novela. Éramos duas pessoas sãs que faziam companhia um ao outro, em momentos oportunos, em dias específicos.
Quando fomos ao aniversário de um ano do bebê que ainda nem sabíamos o s**o há um ano atrás, foi que percebi que estava sólido. Pela primeira vez estava em um relacionamento longo, estável e com a carga de carinho aceitável. Não foi muito difícil aprender a amá-lo, pois sentia nele a vontade estar comigo. E isso me deixou em uma felicidade que não cabia no peito.
Eu não tinha mais conversas em comum com as amigas. Toda reunião as sextas eram cheias de conversas sobre como Enzo havia aprendido a ler, ou a reclamação da Rafaela que o marido a havia traído mais uma vez. O que de mais emocionante acontecia comigo, era a promoção para editora-chefe no jornal e o aumento no salário. O s**o com Alex não era nada demais. Não tínhamos fantasias, nem histórias loucas ou um apetite enorme. Era conveniente. Quando tínhamos vontade, era bom. Quando eu não tinha muita vontade, fazia um esforço e era bom.
Passei a me sentir deslocada, inquieta. O que antes não passava pela minha cabeça, acabou por me encher de uma preocupação que até antes de ontem não me tirava o sono. Eu já beirava meus trinta anos, em uma relação amorosa muito abaixo das minhas expectativas anteriores e um círculo social de mães e mulheres casadas.
Na manhã seguinte estava na ginecologista, contanto os meus óvulos e interrompendo o anticoncepcional. Comecei a me preocupar com minha aparência. Parei de cortar o cabelo, os deixei longos e loiros. Alex gostava dele longo. Depois de um transe de modificações, me sentia ridícula, mas, me sentia ainda mais amada e desejava. Comecei a jogar um jogo em que somente eu mexia as peças do tabuleiro.
Tentei ser mais carinhosa, mais “feminina”. Aposentei as calças jeans, comprei mais saias e vestidos. Aprendi maquiagem básica com a colega de trabalho. As noites com Alex eram repletas de muito amor, muito gemido e orgasmos falsos. Quando morava só, cozinhava o básico. Arroz, feijão e um bife. Mudei o cardápio. Jantávamos sempre juntos, coisas que para mim eram inimagináveis que eu, do jeito que eu sou, um dia pudesse cozinhar. Massas, cozido e até bolos.
Com dois anos, fui pedida em casamento. Me senti vitoriosa. Aquilo era uma conquista? Não sei, mas senti assim. Quando visitei minha mãe depois do fatídico dia, a contei que em um restaurante japonês, Alex havia me perguntado sobre quando iriamos casar. Fui tão feliz a ponto de não conseguir conter o sorriso. Pensei, “Mamãe vai adorar, finalmente vou casar!”
“Você gosta mesmo desse rapaz, Gabriela?”
“Gosto sim, mãe” respondi. “Ele trabalha, é carinhoso e quer casar. Já tá na hora.”
“Minha filha, não é assim. Vocês agora que se conheceram…. Tá cedo. ”
“Ô mãe… Quase dois anos. Depois não vou conseguir ter filho.”
“E tu quer ser mãe, Gabriela?”
“Tá na hora, mãe. Ou vai passar.”
Aquela conversa ainda reverbera em meu ouvido todos os dias quando acordo. Tentativas foram tentadas em um desgaste incessante por algo que me fugia do controle. Foram muitas noites m*l dormidas, muitas conversas e ponderações sobre o futuro. Pensei no que teria que abdicar em minha vida em prol de uma conquista que não era nem minha e muito menos de Alex.
Pensei no meu emprego, na promoção recente e na carga extra nas minhas costas com meu novo posto. E eu não queria largar nada disso, nem mesmo por um filho. As implicações era inúmeras. Ao longo desses anos eu sabia de cor todas as reclamações por detrás das fotos lindas postadas nas redes sociais, com textos lindos sobre a maternidade e a felicidade do casal.
Via as dores, a perda de empregos e a distância dos maridos quando as coisas ficavam difíceis demais com uma criança em casa. Nada disso saia da minha cabeça, muito menos quando reforçado pela indagação da minha própria mãe sobre eu estar pronta para tal acontecimento, sobre eu querer conceber uma vida.
Por outro lado, Alex sempre falava com carinho sobre crianças. Não era insistente, mas a conversa sempre pairava ali e aqui. Afinal, quando nos conhecemos eu era conhecida por ser um tanto solitária, feliz pela minha independência e não abria mão dela nem mesmo quando decidimos namorar.
Agora, sentada em meu escritório sinto um leve incomodo por não ter silêncio quando escrevo. Acabo por acostumar a trabalhar enquanto Alex assiste um filme na sala ou bebe com os amigos na cozinha. Sempre dou um jeito de fugir, dar um oi e servir qualquer coisa que esteja na geladeira. Ainda assim, escuto perguntas sobre “ela é sempre assim?” e ele sempre responde “trabalha demais”.
Olho para o anel de prata no meu dedo e paro.
O som da TV do outro lado da parede continua. Sob a penumbra da luz amarela do abajur, o tiro por um momento e volto a trabalhar. E por esses dias, tento esquecer esses pensamentos e focar nas dez matérias a serem finalizadas. Quando fecho o notebook, respiro fundo. Sensação de trabalho feito. Levanto-me, pego uma taça de vinho e vou até a varanda. Não tem vista para o mar ou verde, ao contrário, consigo ver apenas as sombras por detrás das cortinas do apartamento da frente. Ouço Alex comentar no fundo algo, porém não dou importância. A única coisa que consigo focar são o velho gosto do vinho e vontade de sair daquele lugar para nunca mais voltar.