Capítulo dois - Talvez amigos

2096 Words
Me arrependo um pouco da noite de ontem. Eu voltei para casa com um estranho e aceitei sair com ele. Felizmente depois de amanhã não vou vê-lo novamente. Eu não estaria numa boa situação se fosse amiga dele. Sem número, sem localização, apenas um dia, e voltaria para casa. Ia esquecer dele. Como uma tigela de cereais e leite pela manhã sem muito entusiasmo. Não faço ideia de onde minha tia se meteu, mas ela é adulta e sabe cuidar de si. Porquê meus pais me deixam visitá-la? A campainha soou e com relutância eu levanto para abrir a porta. Se não fosse essa figura alta com calças jeans rasgadas nos joelhos, camiseta azul regata mostrando suas tatuagens no braço direito, cabelos despenteados escuros, olhos verdes hipnotizantes e lábios bem esculpidos, eu ficaria decepcionada. — Olá, Blaire, como você passou a noite? — Encaro o chão triste por ter feito o que fiz. — Bem. — Tive que mentir. Nunca me senti tão m*l em toda a minha vida. — O que você faz aqui? Eu pensei que iria para casa do seu amigo mais tarde. — Eu mudei de ideias. Primeiro quero que você conheça um lugar, agora! — Ele pega na minha mão e me leva para sua moto. — A casa do seu amigo? — Não! — Nós paramos na frente da sua moto. Uma moto Kawasaki Ninja 250R azul escura. — Vamos andar de moto? — Parece que sim. — Ele fecha a garagem e sobe na moto, liga e coloca o capacete. — Pode subir, é seguro! Eu subo com um peso na consciência. Coloco o capacete e as mãos ao redor dele. É apenas para não cair, mas aproveito para sentir seus músculos e abdominais bem formados. Uma garota bem comportada não faz essas coisas. — Pronta? — Ele sussurra. — Sim! — Digo com um pouco de medo. Ele começa a guiar devagar, depois ganha o ritmo e acelera. É apenas um convite, Blaire! porque irei me livrar dele no dia seguinte. Ele dá um pequeno salto com a moto e agarro a ele com mais força. Andar de moto não é tão r**m assim. Ser uma garota má também não. Tenho que experimentar! Chegamos num parque isolado, à frente de um lago, com uma pequena casa abandonada. A vista é incrível. E bastante, romântica! Não que ele saiba o que isso significa. Nem eu sei. Liam desce primeiro e depois me ajuda a descer. Nós tiramos os capacetes e andamos para perto do lago. Silêncio é tangível. — Que lindo lugar! — Tinha que dizer alguma coisa. — Eu sei. — E é também muito romântico! Eu adorei!- Ele olha para mim e sorri. Eu definitivamente não devia ter dito aquilo. Sou uma i****a! — Que bom, que você gosta. Eu também gosto muito. Venho sempre aqui para pensar! — Porquê ele me trouxe aqui? — Porquê estou aqui? — Ele olha para o lago. — Porquê a pergunta? — Eu quero saber porquê! — Porque todo o mundo devia conhecer esse lugar. Sinto uma paz aqui. — É calmo! — Não sei mais o que dizer. — Meus pais deixaram de ter orgulho em mim, por causa do que me tornei. — Olho para ele. — Porquê? — Antes, eu seguia todas as regras. Era um menino bem sucedido. Bem para eles eu era. Meu pai sempre quis que eu seguisse os seus passos. Nunca me perguntou o que eu queria. Eu era uma espécie de marioneta dele. — Eu penso o mesmo sobre meus pais, e entendia o que Liam passava. — Porquê você diz isso pra uma estranha? — Porquê você não é tão estranha para mim assim. — Isso não faz sentido. Ele não faz sentido. — Eu entendo perfeitamente! Acontece o mesmo comigo. Meu pai é super protetor, e nunca me deixou seguir meu caminho sozinha. Eu sempre quis ser independente, deixar de morar com eles algum dia, ter a minha própria casa, mas eu não sou capaz de fazê-lo, não sou capaz de dizer a eles o que eu quero, porque tenho medo que eles fiquem machucados. — Eu também tinha, mas eu falei com eles, e pensei que iríam me apoiar apesar de tudo, mas me enganei. Eles são impossíveis! Algum dia não vou mais aguentar estar naquela casa. — As coisas são tão complicadas quando crescemos. — Rio sem humor algum. — O que você faz? — Deixo meus pensamentos e o encaro. — O quê? — Pergunto confusa. — O que você faz no colégio? — O que todo mundo faz. Estudar. Você não estuda? — Tenho 19. Claro que sim. Fiquei dois anos sem estudar porque queria mostrar rebeldia a meus pais. — Sério? — Sim! Viajei sem eles saberem. Levei o cartão de crédito e mais algumas notas. Muitas notas. Foi divertido até eles me acharem. — Não sei se seria capaz! — Eu coloco uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. — Eu faria outra vez. — Você quer mostrar rebeldia, mas não é. — Quem disse isso? Ninguém! — Não precisa! Você só quer provocar seus pais. — Só quero escrever o meu destino e não deixar que eles o façam por mim. — Eu também queria viajar pelo mundo. A pior parte de ser adulto é que tem muito em que pensar! Arranjar emprego, comprar uma casa, casar, ter filhos, esse tipo de coisas. Não se compara a vida de uma criança. Elas simplesmente não têm nada que se preocupar! São totalmente inocentes e totalmente felizes. — Eu entendo. Mas já não somos mais crianças! Bem, eu não! — Eu também não. Tenho 17. — Aonde você mora? — Porquê ele faz essas perguntas? Não vou dizer nada. — Eu entendo que você não queira dizer, afinal, sou um estranho que você acabou de conhecer! — Isso é verdade. — Quando você volta para casa? — Amanhã. — Que pena que não vamos poder nos conhecer melhor. Eu gostava tanto de ser seu amigo. — Claro. — Podemos trocar os números de celular? — Liam... talvez não. — Porquê não? — Nos conhecemos ontem. Eu não sei se você é um homem perigoso ou não. — Eu sou perigo para c*****o! Mas não do sentido que você pensa! — Ele é muito atraente, e muito sexy, mauzão e eu muito sentimental, não vai funcionar. — Então, em que sentido? — Não me fica bem contar. Eu prefiro mostrar a você. Mas não agora, agora é muito cedo. — Olho para ele bastante confusa. Percebendo porquê, o meu pai sempre quis que me afastasse desses tipos de pessoas, em particular os homens. — Agora você me deixou curiosa. Eu quero saber! — Não é uma boa ideia, senão você ficará obcecada por mim, e você não vai querer se separar de mim. — Eu acho que você está exagerando. — Reviro os olhos e depois começo a rir. — Não! Eu não estou! — Ele diz baixinho, bastante sério. — Não me mostre, apenas me diga! — Blaire, você é a menina mais impertinente que eu conheço! — Eu só quero saber. Se você não vai me dizer, então que não tocasse no assunto. — Você é quem começou. Eu não tive culpa de nada. — Eu só quis dizer que não te conheço! — Eu também não conheço você, mas confio em você mais do que ninguém. A que se deve isso? — Eu não sei. Talvez porque você apenas vê o lado bom das pessoas. — Será? — Ele levanta uma sobrancelha. — Ou talvez porque temos uma ligação especial. — Dou enormes gargalhadas. Quando termino, observo Liam que olha para o rio distraído. — Desculpa, eu não queria rir. — Digo sinceramente. Liam se vira para mim e sorri. — Tudo bem. Eu entendo. — Ainda bem. — Podemos ir para casa? — Claro, vamos! Caminhámos de volta para a moto, subimos, colocamos os capacetes e arrancamos. Eu apertei com muita força ao redor de Liam, para que eu não caísse. Chegando de volta a casa do amigo do Liam, desço da moto e tiro o capacete. Liam apenas olha para mim através do espelho retrovisor. Não sei se olha para mim ou para ele. — Você não vai descer da moto? — Pergunto. — Estava apreciando a vista. — Ele tira o capacete e sorri. — Se já terminou, então vamos entrar. — Ele desçe da moto, e a leva até a garagem, depois retorna para junto de mim. — Tudo bem. Vamos entrar! — Ele abre a porta e deixa eu entrar primeiro, entrando em seguida. — A casa é acolhedora. — Digo olhando para todos os cantos da casa. É organizada para apenas homens viverem aqui. Organizada até de mais. A sala não é muito grande mas é agradável. Os sofás de coro preto combinam com a mesa de centro de madeira escura, e com a estante cheia de CDs. A TV na parede é grande demais para a pequena sala e as paredes são azul escuro. — Sente - se por favor. — Liam aponta para o sofá. Sento, me perguntando o que faço aqui. Ah, sim! É a última vez que irei ver Liam por isso, não faz m*l. Ele entra na cozinha,me deixando sozinha na sala. Um homem loiro aparece na sala sem camisa mostrando todas as tatuagens na sua pele. Também é musculoso como Liam, mas um pouco mais, e tem tatuagens nos dois braços e nas costas. — Você é a garota que Liam está pegando? — Pergunta ele. — Sou Scott! Amigo, e mais alguma coisa de Liam. — Ele acende um cigarro e põe na boca, depois de se sentar. — Mais alguma coisa? — Pergunto. — Quer? — Ele mostra um maço de cigarros. — Não Obrigada! O fumo do cigarro me incomoda. Já vi que eles são perigosos. Não preciso de mais nenhuma prova. Liam regressa com uma cerveja e senta ao meu lado. — Liam, ela não me disse o nome dela! — Scott olha para Liam. — Blaire. — Digo. Só tenho de aguentar mais um dia! Só mais um. — Você ficou a manhã toda com ela? — Scott fala sob a fumaça. — Ele é um i****a, não liga ao que ele diz. Faltam parafusos na cabeça. — Você quer jogar? — Ele mostra o game e eu rio. — Você está brincando comigo? Eu vou esmagar você! — Recebo o controle. — Eu sou invencível, por isso, você não vai. — Eu vou sim! A gente joga a tarde toda, fazendo apenas uma pausa para um lanchinho feito por Scott. Foi divertido. Foi estranho porque eu não conheço ele e eu parecia confortável. Rindo quando vencia ele, e dando uns tapinhas de leve sempre que leve fazia uma dança da vitória sempre que ganhava. E jantei com eles também. Não ia voltar a vê-los mesmo, por isso não faz m*l. No Domingo a tarde, arrumo as minhas coisas na minha mochila para ir embora. Olho pela janela do quarto, mas não vejo Liam. Seria o mínimo ele se despedir de mim. Saio do quarto para encontrar minha tia. Ela me abraça, e beija minha testa. — Até a próxima querida sobrinha. Vou ter saudades. — Eu também tia. — Seguro a minha mochila. — Então e o seu namorado? — Ela sorri. Porquê eu ia namorar com alguém que conheci a pouco tempo? — Ele é um estranho para mim. E jamais ia namorar alguém assim. — Sério? — Ela ri. — Não importa! Vamos! O seu táxi está esperando. Nós saímos e encontramos o táxi na frente da casa. Dou mais um abraço na minha tia. Não faça ideia de quando vou voltar a visitar ela. — Se cuide Blaire! — Claro tia. Ando até o táxi, e oiço passos vindo em minha direção. É Liam. Ele vem com um belo sorriso, e sem camisa. Ele sim não se importa com nada. Nada o impede! — Não ia se despedir de mim? — Pergunta já perto o suficiente. — Eu estou com pressa! — Está aqui o meu número já que você não quer dar o seu. — Ele me entrega. — Liga para mim! — Obrigada. — Recebo. Como se eu fosse mesmo ligar! — Então... adeus Liam! Entro no táxi porque não sei se o abraço ou se lhe dou um aperto de mãos. Mas não importa. Devia esquecer o nome dele. Não vou vê-lo nunca mais. Tenho a certeza disso.
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