Me arrependo um pouco da noite de ontem. Eu voltei para casa com um estranho e aceitei sair com ele. Felizmente depois de amanhã não vou vê-lo novamente. Eu não estaria numa boa situação se fosse amiga dele. Sem número, sem localização, apenas um dia, e voltaria para casa. Ia esquecer dele.
Como uma tigela de cereais e leite pela manhã sem muito entusiasmo. Não faço ideia de onde minha tia se meteu, mas ela é adulta e sabe cuidar de si. Porquê meus pais me deixam visitá-la?
A campainha soou e com relutância eu levanto para abrir a porta. Se não fosse essa figura alta com calças jeans rasgadas nos joelhos, camiseta azul regata mostrando suas tatuagens no braço direito, cabelos despenteados escuros, olhos verdes hipnotizantes e lábios bem esculpidos, eu ficaria decepcionada.
— Olá, Blaire, como você passou a noite? — Encaro o chão triste por ter feito o que fiz.
— Bem. — Tive que mentir. Nunca me senti tão m*l em toda a minha vida. — O que você faz aqui? Eu pensei que iria para casa do seu amigo mais tarde.
— Eu mudei de ideias. Primeiro quero que você conheça um lugar, agora! — Ele pega na minha mão e me leva para sua moto.
— A casa do seu amigo?
— Não! — Nós paramos na frente da sua moto. Uma moto Kawasaki Ninja 250R azul escura.
— Vamos andar de moto?
— Parece que sim. — Ele fecha a garagem e sobe na moto, liga e coloca o capacete. — Pode subir, é seguro!
Eu subo com um peso na consciência. Coloco o capacete e as mãos ao redor dele. É apenas para não cair, mas aproveito para sentir seus músculos e abdominais bem formados. Uma garota bem comportada não faz essas coisas.
— Pronta? — Ele sussurra.
— Sim! — Digo com um pouco de medo. Ele começa a guiar devagar, depois ganha o ritmo e acelera.
É apenas um convite, Blaire! porque irei me livrar dele no dia seguinte.
Ele dá um pequeno salto com a moto e agarro a ele com mais força. Andar de moto não é tão r**m assim. Ser uma garota má também não. Tenho que experimentar!
Chegamos num parque isolado, à frente de um lago, com uma pequena casa abandonada. A vista é incrível. E bastante, romântica! Não que ele saiba o que isso significa. Nem eu sei.
Liam desce primeiro e depois me ajuda a descer. Nós tiramos os capacetes e andamos para perto do lago.
Silêncio é tangível.
— Que lindo lugar! — Tinha que dizer alguma coisa.
— Eu sei.
— E é também muito romântico! Eu adorei!- Ele olha para mim e sorri. Eu definitivamente não devia ter dito aquilo. Sou uma i****a!
— Que bom, que você gosta. Eu também gosto muito. Venho sempre aqui para pensar! — Porquê ele me trouxe aqui?
— Porquê estou aqui? — Ele olha para o lago.
— Porquê a pergunta?
— Eu quero saber porquê!
— Porque todo o mundo devia conhecer esse lugar. Sinto uma paz aqui.
— É calmo! — Não sei mais o que dizer.
— Meus pais deixaram de ter orgulho em mim, por causa do que me tornei. — Olho para ele.
— Porquê?
— Antes, eu seguia todas as regras. Era um menino bem sucedido. Bem para eles eu era. Meu pai sempre quis que eu seguisse os seus passos. Nunca me perguntou o que eu queria. Eu era uma espécie de marioneta dele. — Eu penso o mesmo sobre meus pais, e entendia o que Liam passava.
— Porquê você diz isso pra uma estranha?
— Porquê você não é tão estranha para mim assim. — Isso não faz sentido. Ele não faz sentido.
— Eu entendo perfeitamente! Acontece o mesmo comigo. Meu pai é super protetor, e nunca me deixou seguir meu caminho sozinha. Eu sempre quis ser independente, deixar de morar com eles algum dia, ter a minha própria casa, mas eu não sou capaz de fazê-lo, não sou capaz de dizer a eles o que eu quero, porque tenho medo que eles fiquem machucados.
— Eu também tinha, mas eu falei com eles, e pensei que iríam me apoiar apesar de tudo, mas me enganei. Eles são impossíveis! Algum dia não vou mais aguentar estar naquela casa.
— As coisas são tão complicadas quando crescemos. — Rio sem humor algum.
— O que você faz? — Deixo meus pensamentos e o encaro.
— O quê? — Pergunto confusa.
— O que você faz no colégio?
— O que todo mundo faz. Estudar. Você não estuda?
— Tenho 19. Claro que sim. Fiquei dois anos sem estudar porque queria mostrar rebeldia a meus pais.
— Sério?
— Sim! Viajei sem eles saberem. Levei o cartão de crédito e mais algumas notas. Muitas notas. Foi divertido até eles me acharem.
— Não sei se seria capaz! — Eu coloco uma mecha do meu cabelo atrás da orelha.
— Eu faria outra vez.
— Você quer mostrar rebeldia, mas não é.
— Quem disse isso? Ninguém!
— Não precisa! Você só quer provocar seus pais.
— Só quero escrever o meu destino e não deixar que eles o façam por mim.
— Eu também queria viajar pelo mundo. A pior parte de ser adulto é que tem muito em que pensar! Arranjar emprego, comprar uma casa, casar, ter filhos, esse tipo de coisas. Não se compara a vida de uma criança. Elas simplesmente não têm nada que se preocupar! São totalmente inocentes e totalmente felizes.
— Eu entendo. Mas já não somos mais crianças! Bem, eu não!
— Eu também não. Tenho 17.
— Aonde você mora? — Porquê ele faz essas perguntas? Não vou dizer nada.
— Eu entendo que você não queira dizer, afinal, sou um estranho que você acabou de conhecer!
— Isso é verdade.
— Quando você volta para casa?
— Amanhã.
— Que pena que não vamos poder nos conhecer melhor. Eu gostava tanto de ser seu amigo.
— Claro.
— Podemos trocar os números de celular?
— Liam... talvez não.
— Porquê não?
— Nos conhecemos ontem. Eu não sei se você é um homem perigoso ou não.
— Eu sou perigo para c*****o! Mas não do sentido que você pensa! — Ele é muito atraente, e muito sexy, mauzão e eu muito sentimental, não vai funcionar.
— Então, em que sentido?
— Não me fica bem contar. Eu prefiro mostrar a você. Mas não agora, agora é muito cedo. — Olho para ele bastante confusa. Percebendo porquê, o meu pai sempre quis que me afastasse desses tipos de pessoas, em particular os homens.
— Agora você me deixou curiosa. Eu quero saber!
— Não é uma boa ideia, senão você ficará obcecada por mim, e você não vai querer se separar de mim.
— Eu acho que você está exagerando. — Reviro os olhos e depois começo a rir.
— Não! Eu não estou! — Ele diz baixinho, bastante sério.
— Não me mostre, apenas me diga!
— Blaire, você é a menina mais impertinente que eu conheço!
— Eu só quero saber. Se você não vai me dizer, então que não tocasse no assunto.
— Você é quem começou. Eu não tive culpa de nada.
— Eu só quis dizer que não te conheço!
— Eu também não conheço você, mas confio em você mais do que ninguém. A que se deve isso?
— Eu não sei. Talvez porque você apenas vê o lado bom das pessoas.
— Será? — Ele levanta uma sobrancelha. — Ou talvez porque temos uma ligação especial. — Dou enormes gargalhadas. Quando termino, observo Liam que olha para o rio distraído.
— Desculpa, eu não queria rir. — Digo sinceramente. Liam se vira para mim e sorri.
— Tudo bem. Eu entendo.
— Ainda bem.
— Podemos ir para casa?
— Claro, vamos!
Caminhámos de volta para a moto, subimos, colocamos os capacetes e arrancamos. Eu apertei com muita força ao redor de Liam, para que eu não caísse.
Chegando de volta a casa do amigo do Liam, desço da moto e tiro o capacete. Liam apenas olha para mim através do espelho retrovisor. Não sei se olha para mim ou para ele.
— Você não vai descer da moto? — Pergunto.
— Estava apreciando a vista. — Ele tira o capacete e sorri.
— Se já terminou, então vamos entrar. — Ele desçe da moto, e a leva até a garagem, depois retorna para junto de mim.
— Tudo bem. Vamos entrar! — Ele abre a porta e deixa eu entrar primeiro, entrando em seguida.
— A casa é acolhedora. — Digo olhando para todos os cantos da casa.
É organizada para apenas homens viverem aqui. Organizada até de mais. A sala não é muito grande mas é agradável. Os sofás de coro preto combinam com a mesa de centro de madeira escura, e com a estante cheia de CDs. A TV na parede é grande demais para a pequena sala e as paredes são azul escuro.
— Sente - se por favor. — Liam aponta para o sofá. Sento, me perguntando o que faço aqui. Ah, sim! É a última vez que irei ver Liam por isso, não faz m*l.
Ele entra na cozinha,me deixando sozinha na sala. Um homem loiro aparece na sala sem camisa mostrando todas as tatuagens na sua pele. Também é musculoso como Liam, mas um pouco mais, e tem tatuagens nos dois braços e nas costas.
— Você é a garota que Liam está pegando? — Pergunta ele. — Sou Scott! Amigo, e mais alguma coisa de Liam. — Ele acende um cigarro e põe na boca, depois de se sentar.
— Mais alguma coisa? — Pergunto.
— Quer? — Ele mostra um maço de cigarros.
— Não Obrigada!
O fumo do cigarro me incomoda. Já vi que eles são perigosos. Não preciso de mais nenhuma prova. Liam regressa com uma cerveja e senta ao meu lado.
— Liam, ela não me disse o nome dela! — Scott olha para Liam.
— Blaire. — Digo. Só tenho de aguentar mais um dia! Só mais um.
— Você ficou a manhã toda com ela? — Scott fala sob a fumaça.
— Ele é um i****a, não liga ao que ele diz. Faltam parafusos na cabeça.
— Você quer jogar? — Ele mostra o game e eu rio.
— Você está brincando comigo? Eu vou esmagar você! — Recebo o controle.
— Eu sou invencível, por isso, você não vai.
— Eu vou sim!
A gente joga a tarde toda, fazendo apenas uma pausa para um lanchinho feito por Scott. Foi divertido. Foi estranho porque eu não conheço ele e eu parecia confortável. Rindo quando vencia ele, e dando uns tapinhas de leve sempre que leve fazia uma dança da vitória sempre que ganhava. E jantei com eles também. Não ia voltar a vê-los mesmo, por isso não faz m*l.
No Domingo a tarde, arrumo as minhas coisas na minha mochila para ir embora. Olho pela janela do quarto, mas não vejo Liam. Seria o mínimo ele se despedir de mim.
Saio do quarto para encontrar minha tia. Ela me abraça, e beija minha testa.
— Até a próxima querida sobrinha. Vou ter saudades.
— Eu também tia. — Seguro a minha mochila.
— Então e o seu namorado? — Ela sorri. Porquê eu ia namorar com alguém que conheci a pouco tempo?
— Ele é um estranho para mim. E jamais ia namorar alguém assim.
— Sério? — Ela ri. — Não importa! Vamos! O seu táxi está esperando.
Nós saímos e encontramos o táxi na frente da casa. Dou mais um abraço na minha tia. Não faça ideia de quando vou voltar a visitar ela.
— Se cuide Blaire!
— Claro tia.
Ando até o táxi, e oiço passos vindo em minha direção. É Liam. Ele vem com um belo sorriso, e sem camisa. Ele sim não se importa com nada. Nada o impede!
— Não ia se despedir de mim? — Pergunta já perto o suficiente.
— Eu estou com pressa!
— Está aqui o meu número já que você não quer dar o seu. — Ele me entrega. — Liga para mim!
— Obrigada. — Recebo. Como se eu fosse mesmo ligar! — Então... adeus Liam!
Entro no táxi porque não sei se o abraço ou se lhe dou um aperto de mãos. Mas não importa. Devia esquecer o nome dele. Não vou vê-lo nunca mais. Tenho a certeza disso.