Criada nos bastidores da mansão do Dom da máfia francesa, Sol cresceu entre panelas, segredos e olhares discretos. Enquanto a mãe, Madaleine, comandava a casa com mãos firmes Sol observava o mundo sombrio dos homens do poder — e Henzo sempre esteve lá. Silencioso. Letal. Inalcançável.
Ele, no entanto, só a enxergou de verdade quando ela fez dezessete anos. A pirralha falante e atrevida havia desaparecido — e em seu lugar estava uma mulher feita, com curvas hipnotizantes, olhos de fogo e um rosto que era a própria perdição.
Henzo não era de se render. Mas desde aquele dia… nunca mais conseguiu fingir que ela não existia.
Sol havia criado o plano perfeito para fugir com Violeta rumo à Itália. E, por um tempo, tudo correu exatamente como ela sonhou. Foram dois meses de liberdade pura — dois meses inesquecíveis, em que respirou sem medo, viveu sem amarras e experimentou o gosto agridoce da vida longe da máfia. Mas liberdade demais, para quem nasceu cercada de grades invisíveis, dura pouco.
Quando foram descobertas, Maurice — o Dom da máfia francesa — não teve escolha: foi buscá-las pessoalmente. Por respeito à governanta Madaleine, que além de fiel era sua amiga de longa data, ele jamais teria coragem de levantar a mão contra Sol. Mas o Conselho… o Conselho descobriu tudo. A fuga. O plano. E, mais cedo ou mais tarde, também descobririam que foi Violeta quem apertou o gatilho contra o próprio padrinho.
Maurice ficou sem argumentos.
Sol, aos olhos da máfia, era uma traidorä. E as regras eram cruéis: uma mulher impura ou desleal não merecia redenção. Seu destino era ser dada a um velho conselheiro como esposa... ou esquecida em algum bordel da máfia. Ambas as opções eram sentenças sem volta.
Foi então que Violeta, tomada pelo desespero diante do que fariam com sua melhor amiga, implorou a Maurice. Gritou, chorou, se ajoelhou — e naquele apelo, ele enxergou o que já vinha considerando em silêncio. Porque, por mais que o Dom não demonstrasse, ele sabia que Sol não poderia ser entregue àquele tipo de fim. E se existia alguém capaz de protegê-la sem manchar sua honra — alguém leal o suficiente para calar o Conselho — esse homem era Henzo Moreau.
Seu primo. Seu braço direito. Seu escudo.
Henzo, porém, não aceitou em silêncio.
Gritou. Discutiu. Extravasou. Rompeu o controle habitual como uma tempestade inesperada. Enquanto isso, Sol surtava em sua própria fúria: chorou, quebrou o que viu pela frente, xingou cada maldito m****o da máfia e, no fundo, apenas implorava por uma saída. Mas não houve. O casamento foi decidido. Marcado. Selado.
Ninguém perguntou se queriam.
E agora... teriam que sobreviver um ao outro.
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Era tarde, o sol estava lindo, quando Henzo decidiu que aquela conversa não poderia mais ser adiada. Fazia por volta das quinze horas. Madaleine estava na mansão de Maurice, supervisionando os preparativos do casamento como quem segurava o mundo com as mãos. Henzo comentou que precisava falar com Sol sobre os últimos ajustes, mas ela se recusava a sequer ouvi-lo.
Exausta da teimosia da filha e dos olhares impacientes do Dom, Madaleine suspirou fundo e tomou sua decisão: deu a Henzo o endereço e ordenou que fosse ele mesmo falar com a garota. Se precisava se casar, que lidasse com ela como homem.
A casa era pequena, mas carregava o tipo de beleza que o luxo nunca entenderia. Tudo ali tinha cor, memória e cheiro de lar. Sol estava jogada no sofá, com os cabelos bagunçados, vestindo um cropped simples e um short jeans que revelava as pernas douradas pelo sol dos dois meses de liberdade. Estava sem maquiagem, sem filtro, com a expressão de quem já tinha chorado mais do que devia.
Quando a campainha tocou, ela nem precisou se levantar para saber quem era.
Henzo já estava à porta. Viu pela janela quando Sol se aproximou e espiou discretamente pelo olho mágico. Ela revirou os olhos com tanto desprezo que ele quase pôde sentir, mesmo do lado de fora.
— Abre a porta, Sol. Eu sei que você tá aí. Eu vi você. — gritou ele, batendo com firmeza.
Do outro lado, a resposta veio rápida, seca, carregada de ódio:
— Finge que não me viu, seu i****a. Dá meia-volta e vai embora.
Henzo cerrou o maxilar. Contou até três. Depois até cinco. Mas paciência nunca foi seu forte.
— Não me faz arrombar essa porta, Sol. Você sabe que eu faço.
Silêncio.
— Você tá agindo como uma criança mimada. Tem ideia do que Maurice fez pra te livrar do Conselho? Ou prefere ir provar um vestido de noiva no puteir0 da máfia, é isso?
A porta se abriu com um estrondo.
Sol estava ali. Em pé. Com os olhos faiscando de raiva e os lábios entreabertos, como se não soubesse se gritava ou batia.
— Você não tem o direito de vir aqui me ameaçar. — cuspiu as palavras. — Você é parte disso, Henzo. Não é diferente dos outros. É só mais um covarde obedecendo o maldito Dom.
Ele a encarou, firme.
— Eu sou o único impedindo que eles te entreguem pra um velho com a mão suada e o olhar sujo. Então talvez seja bom você parar de me tratar como o inimigo.
Por um instante, tudo parou. Só os dois. O silêncio pesado. A respiração acelerada. E o orgulho deles brigando no ar.
Sol abaixou os olhos, mas não por submissão. Era só raiva demais pra manter contato visual.
— Você quer conversar? Ótimo. Mas entra sabendo que eu não quero casar com você. Nem hoje. Nem amanhã. Nem nunca.
Henzo deu um passo à frente, cruzou a porta como quem cruza uma linha sem volta.
— O problema, Sol... é que eu também não quero. Mas aqui estamos.
Henzo passou direto pela porta, como se o espaço apertado da casa já fosse dele por direito. Parou no meio da sala e virou-se para ela, os olhos escuros queimando de irritação e fúria contida.
— Precisamos falar sobre o maldito casamento. — disparou. — Você precisa escolher a p0rra do vestido, e precisamos decidir o local. Eu tentei manter a cerimônia reservada, algo discreto... Mas não. Eu, como subchefe, não tenho esse direito. Todos os conselheiros devem estar presentes. A elite da máfia vai comparecer. Vai ser um espetáculo.
Sol cruzou os braços, impassível.
— Não me importo.
— Ótimo. Então eu vou escolher tudo. O vestido, o local, a decoração... e você vai ter que aceitar.
Ela deu de ombros, como se aquilo fosse o menor dos problemas em sua vida naquele momento.
— Escolhe o que quiser, Henzo. Mas não espere que eu sorria no altar.
Ele riu, um riso sem humor, pesado.
— Você acha que eu tô sorrindo com isso, Sol? Acha que eu queria você como esposa?
Ela ergueu o olhar, firme.
— Você acha que eu queria você?
Henzo deu um passo à frente, aproximando-se dela. A raiva entre os dois parecia densa o suficiente para incendiar o ar ao redor. Mas havia outra coisa ali. Uma tensão que não era só ódio.
— Não, Sol. Eu sei que você não me quer. Mas vai ter que aprender a lidar com isso, porque agora você terá o meu nome.
Ela se aproximou também, o rosto a poucos centímetros do dele.
— E você vai ter que lidar com o fato de que eu vou tornar sua vida um inferno.
Henzo arqueou uma sobrancelha, provocador.
— Vai ter que ser melhor que isso, princesa. O infern0… eu já conheço de perto.