SINFONIA PARA MEUS OUVIDOS

1231 Words
Londres, janeiro de 2010. Dr. Feen era magro, de cabelos loiros, curtos e uma barba malfeita. Estávamos sentados em cadeiras confortáveis, um de frente para o outro em seu escritório refinado. Ao nosso lado, uma extensa janela que dava para a vista do centro da cidade. Os olhares não desviavam um do outro. Não tinha dúvidas que aquela consulta era no mínimo suspeita. — Foram incontáveis noites em que eu acordava encharcada de suor. Sempre resultado dos mesmos pesadelos, dos mesmos dilemas — Minhas costas doíam naquela cadeira de madeira, então pressionei minha mão direita sobre as costelas e as deixei rente ao corpo. — Imagino que esses pesadelos se resumem a uma só coisa, Srta.Moon — Afirmou Dr. Feen, dando mais um gole em seu café expresso. — Pandora. Só me chame assim. — Claro, como queira. Eu, em particular, tenho um certo apego pelo seu caso. Como saiu daquele orfanato? — Saí com um gosto amargo. Um sentimento de perca. Eu realmente fracassei em todos os aspectos dessa jornada, doutor. — Depois de tantos anos você ainda se lembra de todos os acontecimentos? — Ele curvou a coluna com o intuito de aproximar nossos olhares. Ajeitou seus óculos grandes e aguardou. — Infelizmente — suspirei, olhando para além da janela. — Você ficou órfã por ter matado seus pais quando criança. Consegue resgatar essas lembranças? — questionou após dar mais um gole de seu café. — Não matei ninguém. Também não sei o que aconteceu exatamente naquela época, mas sou inocente. Sei disso — franzi a testa e apertei os punhos sobre a mesa — Essas perguntas estão me aborrecendo. Melhor ir direto ao ponto. O que você quer? — Pois bem. Eu a chamei aqui para voltarmos ao ano em que você tornou-se uma irrecuperável. Seu depoimento será importante para o projeto que estou desenvolvendo. Se está aqui agora é porque também tem interesse sobre o assunto. Podemos começar? — Certamente. ... — Desculpe, pode repetir o nome, por favor? — perguntei apreensiva. A poltrona era macia e naquela sala havia duas. Uma para mim e a outra para a moça esbelta, sentada elegantemente do outro lado da mesa. Era um lugar agradável, mas sombrio, com papéis de parece cinzentos e uma extensa e única janela no centro, com lindas cortinas vermelhas aveludadas. No canto, avistei uma estante de livros, bem velha. Em cima dela, alguns retratos. Fui esticando meu pescoço seguindo a fila dos quadros, até que um me chamou atenção. Um senhor bonito, que ficava em uma parede isolada. Usava um terno preto, engravatado, bem ajeitado, com bigodes curvos e brancos, aparentando uma expressão fúnebre. De todos, o retrato mais intrigante. — Srta. Pompoo — respondeu ela, mantendo os olhos fixos nos meus. Sequer piscavam. — Prazer, Srta. Pompoo — no mesmo instante ela me questionou: — Sabe por que está aqui, Pandora? — Não, Srta. Pompoo. — Não tem a mínima ideia? — insistiu descruzando as pernas e ajeitando-se na poltrona. — Não, Srta. Pompoo. — Rasgou a garganta de sua mãe e jogou seu pai escada abaixo. — Não me lembro de nada disso — questionei assustada. — Mas lembrará — afirmou se levantando e caminhando de passos leves por toda a sala. Seus braços, por trás das costas — Sou a dona deste palácio de órfãos. Crianças, acredite, piores do que você, residem neste lugar. Pobres almas manchadas por pecados imperdoáveis. Mas não se engane. Elas não são tratadas como prisioneiras. Vejo elas como uma oportunidade. Dou tudo o que precisam para reconstruir suas mentes deturpadas. Elas vivem em sintonia com o novo universo que lhes foram impostas. Aqui temos regras e a principal é: Não provoque o desconhecido, mas não o tema. — O que seria o "desconhecido"? — Já ouviu falar deste orfanato? — encaramo-nos. — Nunca, Srta Pompoo. — Então. Aqui está ele — a mulher sorriu, estendendo os braços. Ao contrário do motorista que me trouxera, seus dentes eram brancos e muito bem cuidados. A diretora parecia uma atriz de cinema. Ela vestia um elegante corset preto com um vestido vinho de bordas florais. Belos cabelos ruivos envoltos em um perfeito coque. Olhos verdes penetrantes, a pele branca, quase cinza. Usava um colar belíssimo de pérolas, batom escuro e um brinco na orelha esquerda de formato lua minguante. Além de tudo, ostentava uma postura soberana. Após o curto diálogo, saímos da sala para um vasto corredor, onde era perceptível o desgaste na pintura verde musgo das paredes e o rangido barulhento que o chão de madeira fazia, mesmo coberto por um longo carpete vermelho escuro. Nas paredes, retratos de crianças pálidas. Pareciam tristes. Se olhasse com mais atenção, sentiria que observavam-me. — Silencioso, não? — perguntei quebrando o clima enfadonho. — A paz sempre foi prioridade aqui — respondeu, olhando-me por baixo e passando suas mãos enluvadas pelos quadros, alisando os rostos das crianças. — Você tem algum sonho, minha querida? — Acredito que não — respondi confusa. Olhei para baixo, desconcertada. Eram tantas perguntas que queriam escapar de minha boca. Nenhuma conseguiu sair. — Não tem, mas vai ter — sussurrou. Chegando ao fim do corredor, escutei uma música vinda do outro lado de uma grande porta de mogno, à frente. E então, se abriu, dando passagem ao pátio principal. O local era repleto de luzes amareladas vinda de grandes castiçais de vela. O teto tinha um forro emadeirado, mas podre. Senti náuseas ao olhar para cima e ver o quão alto o pátio era. Alguns insetos perambulavam entre as vigas das tabuas que estavam pregadas em todas as janelas acima de nós. Impedindo qualquer tipo de iluminação a não ser das velas. O piso rústico reluzia os feixes de luz. O lugar era sustentado por grandes colunas de pedra e em nenhuma parede havia quadros. No canto, um piano velho e perto dele, uma penteadeira com espelhos quebrados. No centro, um tapete redondo com o emblema do orfanato. Logo a frente, uma outra porta à direita e ao seu lado uma entrada, com uma placa pregada em cima, onde se lia: "Refeitório" e no final do pátio, uma escadaria que levava ao segundo andar. Realmente pensei que viveria com crianças psicopatas e mentalmente desequilibradas, mas foi bem o oposto. Avistei uma tocando violino em um canto, outra, dançando ao belo som de Chopin - Nocturne, reproduzida por uma vitrola velha, enquanto as demais jogavam cartas ou cantarolavam. Pareciam felizes. — Irrecuperáveis. É o que são. Agora você é um deles, Pandora — disse de largo sorriso — Me concede essa dança? — O quê? — Um belo som como este, não pode ser em vão. Venha, vou ensiná-la alguns passos — Srta. Pompoo esticou seu braço para mim. Segurei em sua mão fria, que me puxava para perto dela. Ambas deslizávamos como patinadores no gelo. Ela movimentava bem seu corpo, me conduzindo. Era muito habilidosa e flexível, mesmo de salto alto. As crianças pararam de fazer suas tarefas para nos observar, estavam hipnotizadas pela diretora. — Por que essa carinha de surpresa? Pensou que aqui fosse um sanatório? — brincou, me soltando e dando um giro, rasgando o ar, esvoaçando seu longo vestido vinho e parando em frente à porta. Gentilmente olhou para todos presentes — Cuidem bem da nossa nova amiga — Ordenou, girando a maçaneta da porta de mogno e fechando-a com um baque.
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