Lívia
Passei a noite acordada. Não porque a cama fosse desconfortável — embora fosse —, mas porque o silêncio nunca foi tão barulhento. A casa, que sempre me observou com indiferença mecânica, parecia agora atenta demais. Como se tivesse entendido que algo em mim havia mudado e estivesse curiosa para ver até onde isso iria.
Adriano Moretti havia dito meu nome. Não “funcionária”. Não “ela”. Não um pedido seco ou uma ordem velada. Meu nome... Lívia. O som ainda ecoava dentro de mim como um toque que não aconteceu, mas deixou marca.
Virei de um lado para o outro, encarando o teto baixo do quarto de funcionários. As paredes não tinham telas, nem sensores aparentes, mas eu sabia que nada ali era realmente cego. Mesmo assim, permiti-me fechar os olhos e lembrar do jeito como ele me olhou quando pronunciou aquelas sílabas. Não havia desejo. Não havia gentileza. Havia… reconhecimento. E isso era muito mais perigoso.
Levantei antes do horário. Tomei banho rápido, como sempre, mas hoje a água parecia mais fria. Ou talvez fosse eu, tentando esfriar algo que não deveria existir. Vesti o uniforme com mãos firmes, penteei o cabelo num coque discreto e encarei meu reflexo no espelho pequeno.
Eu parecia a mesma. Mas não era. A mulher que entrou no escritório dele no dia anterior não saiu ilesa. Algo foi quebrado — ou aberto — quando ouvi a palavra casamento sair da boca de um homem que nunca falou de sentimentos, nem de futuro, nem de nós.
Nós... A ideia era absurda. Irracional. Impossível. E, ainda assim, meu corpo não reagiu com a repulsa que deveria.
Saí do quarto e percorri os corredores silenciosos. A casa estava calma demais, como um predador à espreita. Passei pela cozinha, organizei o café da manhã, revisei listas mentais. Trabalho é refúgio. Sempre foi..Mas cada passo me levava mais perto dele.
Adriano estava na sala de jantar quando entrei. Sem paletó, camisa escura com as mangas dobradas até o antebraço. Parecia menos intocável assim — e, paradoxalmente, mais perigoso.
Ele não me olhou de imediato.
— Bom dia — disse, a voz baixa.
— Bom dia, senhor.
Coloquei a bandeja sobre a mesa. Café, frutas cortadas, pão. Tudo perfeito. Tudo neutro.
— Dormiu bem? — ele perguntou.
Minha mão tremeu por um milésimo de segundo.
Nunca havia perguntado isso antes.
— Sim — respondi, mesmo sabendo que era mentira.
Ele ergueu os olhos então. Não como quem avalia um objeto, mas como quem observa uma reação.
— Mentir não é necessário comigo, Lívia.
O meu nome outra vez.
Meu estômago se contraiu.
— Desculpe, senhor — murmurei.
— Não se desculpe. — Ele tomou um gole de café. — Prefiro verdades desconfortáveis a mentiras educadas.
Engoli em seco. Verdades desconfortáveis eram especialidade minha, embora eu raramente tivesse permissão para dizê-las em voz alta.
— Não dormi bem — confessei.
Ele assentiu, como se já esperasse por isso.
— Eu também não.
A frase caiu entre nós como algo íntimo demais para ser dito naquele espaço. O silêncio se estendeu, denso, carregado de significados que não ousávamos nomear.
— Pensei que talvez quisesse… — ele começou, depois parou.
Adriano Moretti não parava frases.
— Quisesse o quê? — perguntei, sem conseguir me conter.
Ele me encarou por alguns segundos. Parecia medir não apenas palavras, mas consequências.
— Mostrar-lhe algo.
Assenti.
Seguimos até o escritório. A casa abriu caminho como se obedecesse a uma coreografia invisível. Ele ativou uma tela na parede, e documentos começaram a surgir. Não jurídicos. Não financeiros.
Pessoais.
— Isso é o que o mundo sabe sobre mim — ele disse. — O suficiente para me definir, nunca o suficiente para me conhecer.
Fotos frias, manchetes controladas, eventos públicos calculados. Um homem construído para ser visto, não tocado.
— E isso — continuou, mudando o arquivo — é o que o mundo não pode saber.
Meu coração acelerou.
Havia nomes riscados, documentos confidenciais, decisões tomadas em zonas cinzentas da legalidade. Nada explícito, mas tudo pesado demais para ser ignorado.
— Por que está me mostrando isso? — perguntei.
Ele se aproximou, parando ao meu lado, não à minha frente. Um gesto sutil. Menos dominante.
— Porque, se aceitar, você não será apenas uma peça. Será parte do risco.
Olhei para ele, de verdade, pela primeira vez. Não o CEO. Não o homem que controla tudo. Mas alguém que vive cercado por muros altos demais para permitir qualquer erro.
— E se eu não aceitar? — perguntei.
— Então isso nunca existiu — respondeu. — Sua dívida será resolvida. Você poderá ir embora. Sem consequências.
O alívio deveria ter vindo. Não veio.
— E por que isso soa como uma ameaça disfarçada de gentileza? — arrisquei.
Ele sorriu de leve. Um sorriso cansado.
— Porque eu não sei ser gentil sem cálculo.
Houve algo quase honesto nisso.
— Você disse que nada é pessoal — falei.
— Disse.
— Então por que me chamar pelo nome?
A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era tenso. Era exposto.
— Porque contratos são impessoais — ele disse devagar. — Mas pessoas não são.
Meu peito apertou.
— E isso é um problema para você?
— Sim — respondeu, sem hesitar. — Mas estou acostumado a lidar com problemas.
Aproximei-me da tela, fingindo analisar documentos que já não faziam sentido. Minha mente estava longe dali, presa à forma como ele dizia meu nome como se estivesse testando seus limites.
— Se eu aceitar — comecei —, não será porque você pode pagar minha dívida.
Ele me observava com atenção absoluta.
— Será por quê, então?
Virei-me para ele.
— Porque, pela primeira vez desde que cheguei aqui, alguém me vê como escolha. Não como função.
Algo atravessou o olhar dele. Não sei nomear. Talvez surpresa. Talvez respeito.
— Pense com cuidado — disse. — O que estou oferecendo não é um conto de fadas.
— Eu sei — respondi. — Contos de fadas não têm cláusulas ocultas.
Um canto da boca dele se curvou, quase um sorriso.
— Você é mais perspicaz do que aparenta.
— Eu sobrevivo sendo.
Ele assentiu.
— Amanhã, preciso da sua resposta.
— Você já a tem — falei, antes de pensar melhor.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Tem certeza?
Respirei fundo. A casa observava. Sempre observaria. Mas, pela primeira vez, senti que não estava sozinha dentro dela.
— Sim — disse. — Mas não nos termos que você imagina.
O olhar dele se intensificou, algo perigoso e curioso se misturando ali.
— Então teremos uma negociação interessante, Lívia.
Meu nome outra vez. Não como ordem. Não como ameaça. Como início. E naquele instante, entendi: o dia em que ele me chamou pelo nome foi o dia em que deixei de ser invisível. E isso mudaria tudo.