O dia em que ele me chama pelo nome

1151 Words
Lívia Passei a noite acordada. Não porque a cama fosse desconfortável — embora fosse —, mas porque o silêncio nunca foi tão barulhento. A casa, que sempre me observou com indiferença mecânica, parecia agora atenta demais. Como se tivesse entendido que algo em mim havia mudado e estivesse curiosa para ver até onde isso iria. Adriano Moretti havia dito meu nome. Não “funcionária”. Não “ela”. Não um pedido seco ou uma ordem velada. Meu nome... Lívia. O som ainda ecoava dentro de mim como um toque que não aconteceu, mas deixou marca. Virei de um lado para o outro, encarando o teto baixo do quarto de funcionários. As paredes não tinham telas, nem sensores aparentes, mas eu sabia que nada ali era realmente cego. Mesmo assim, permiti-me fechar os olhos e lembrar do jeito como ele me olhou quando pronunciou aquelas sílabas. Não havia desejo. Não havia gentileza. Havia… reconhecimento. E isso era muito mais perigoso. Levantei antes do horário. Tomei banho rápido, como sempre, mas hoje a água parecia mais fria. Ou talvez fosse eu, tentando esfriar algo que não deveria existir. Vesti o uniforme com mãos firmes, penteei o cabelo num coque discreto e encarei meu reflexo no espelho pequeno. Eu parecia a mesma. Mas não era. A mulher que entrou no escritório dele no dia anterior não saiu ilesa. Algo foi quebrado — ou aberto — quando ouvi a palavra casamento sair da boca de um homem que nunca falou de sentimentos, nem de futuro, nem de nós. Nós... A ideia era absurda. Irracional. Impossível. E, ainda assim, meu corpo não reagiu com a repulsa que deveria. Saí do quarto e percorri os corredores silenciosos. A casa estava calma demais, como um predador à espreita. Passei pela cozinha, organizei o café da manhã, revisei listas mentais. Trabalho é refúgio. Sempre foi..Mas cada passo me levava mais perto dele. Adriano estava na sala de jantar quando entrei. Sem paletó, camisa escura com as mangas dobradas até o antebraço. Parecia menos intocável assim — e, paradoxalmente, mais perigoso. Ele não me olhou de imediato. — Bom dia — disse, a voz baixa. — Bom dia, senhor. Coloquei a bandeja sobre a mesa. Café, frutas cortadas, pão. Tudo perfeito. Tudo neutro. — Dormiu bem? — ele perguntou. Minha mão tremeu por um milésimo de segundo. Nunca havia perguntado isso antes. — Sim — respondi, mesmo sabendo que era mentira. Ele ergueu os olhos então. Não como quem avalia um objeto, mas como quem observa uma reação. — Mentir não é necessário comigo, Lívia. O meu nome outra vez. Meu estômago se contraiu. — Desculpe, senhor — murmurei. — Não se desculpe. — Ele tomou um gole de café. — Prefiro verdades desconfortáveis a mentiras educadas. Engoli em seco. Verdades desconfortáveis eram especialidade minha, embora eu raramente tivesse permissão para dizê-las em voz alta. — Não dormi bem — confessei. Ele assentiu, como se já esperasse por isso. — Eu também não. A frase caiu entre nós como algo íntimo demais para ser dito naquele espaço. O silêncio se estendeu, denso, carregado de significados que não ousávamos nomear. — Pensei que talvez quisesse… — ele começou, depois parou. Adriano Moretti não parava frases. — Quisesse o quê? — perguntei, sem conseguir me conter. Ele me encarou por alguns segundos. Parecia medir não apenas palavras, mas consequências. — Mostrar-lhe algo. Assenti. Seguimos até o escritório. A casa abriu caminho como se obedecesse a uma coreografia invisível. Ele ativou uma tela na parede, e documentos começaram a surgir. Não jurídicos. Não financeiros. Pessoais. — Isso é o que o mundo sabe sobre mim — ele disse. — O suficiente para me definir, nunca o suficiente para me conhecer. Fotos frias, manchetes controladas, eventos públicos calculados. Um homem construído para ser visto, não tocado. — E isso — continuou, mudando o arquivo — é o que o mundo não pode saber. Meu coração acelerou. Havia nomes riscados, documentos confidenciais, decisões tomadas em zonas cinzentas da legalidade. Nada explícito, mas tudo pesado demais para ser ignorado. — Por que está me mostrando isso? — perguntei. Ele se aproximou, parando ao meu lado, não à minha frente. Um gesto sutil. Menos dominante. — Porque, se aceitar, você não será apenas uma peça. Será parte do risco. Olhei para ele, de verdade, pela primeira vez. Não o CEO. Não o homem que controla tudo. Mas alguém que vive cercado por muros altos demais para permitir qualquer erro. — E se eu não aceitar? — perguntei. — Então isso nunca existiu — respondeu. — Sua dívida será resolvida. Você poderá ir embora. Sem consequências. O alívio deveria ter vindo. Não veio. — E por que isso soa como uma ameaça disfarçada de gentileza? — arrisquei. Ele sorriu de leve. Um sorriso cansado. — Porque eu não sei ser gentil sem cálculo. Houve algo quase honesto nisso. — Você disse que nada é pessoal — falei. — Disse. — Então por que me chamar pelo nome? A pergunta escapou antes que eu pudesse impedir. O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era tenso. Era exposto. — Porque contratos são impessoais — ele disse devagar. — Mas pessoas não são. Meu peito apertou. — E isso é um problema para você? — Sim — respondeu, sem hesitar. — Mas estou acostumado a lidar com problemas. Aproximei-me da tela, fingindo analisar documentos que já não faziam sentido. Minha mente estava longe dali, presa à forma como ele dizia meu nome como se estivesse testando seus limites. — Se eu aceitar — comecei —, não será porque você pode pagar minha dívida. Ele me observava com atenção absoluta. — Será por quê, então? Virei-me para ele. — Porque, pela primeira vez desde que cheguei aqui, alguém me vê como escolha. Não como função. Algo atravessou o olhar dele. Não sei nomear. Talvez surpresa. Talvez respeito. — Pense com cuidado — disse. — O que estou oferecendo não é um conto de fadas. — Eu sei — respondi. — Contos de fadas não têm cláusulas ocultas. Um canto da boca dele se curvou, quase um sorriso. — Você é mais perspicaz do que aparenta. — Eu sobrevivo sendo. Ele assentiu. — Amanhã, preciso da sua resposta. — Você já a tem — falei, antes de pensar melhor. Ele ergueu uma sobrancelha. — Tem certeza? Respirei fundo. A casa observava. Sempre observaria. Mas, pela primeira vez, senti que não estava sozinha dentro dela. — Sim — disse. — Mas não nos termos que você imagina. O olhar dele se intensificou, algo perigoso e curioso se misturando ali. — Então teremos uma negociação interessante, Lívia. Meu nome outra vez. Não como ordem. Não como ameaça. Como início. E naquele instante, entendi: o dia em que ele me chamou pelo nome foi o dia em que deixei de ser invisível. E isso mudaria tudo.
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