Capítulo 45

1275 Words
O silêncio ainda dominava a sala quando Daniel respirou fundo de novo. Mas dessa vez… ele não parou. — Eu não entrei nisso porque quis. Todos olharam pra ele. — Eu nasci nisso. Lucas franziu a testa. — Como assim? Daniel passou a mão no rosto, cansado. — Minha família… sempre foi envolvida com esse tipo de coisa. O clima ficou ainda mais pesado. — Meu pai comandava tudo. Rebeca ficou imóvel. — E eu… fui criado pra continuar. Rafael cruzou os braços, atento. — Então você já tava dentro desde sempre. Daniel assentiu de leve. — Desde moleque. Pausa. — Mas eu nunca quis isso. Carla falou baixo: — E por que não saiu antes? Daniel respondeu sem rodeio: — Porque enquanto meu pai tava vivo… eu não podia. Silêncio. — Ele não deixava? — Não — Daniel disse. — Ele obrigava. As palavras caíram pesadas. Camila arregalou os olhos. — Mas… seu pai não tava doente? Daniel olhou pra ela. E respondeu direto: — Eu menti. O ar ficou pesado na hora. — Eu precisava sair daqui… ir ver meu irmão… resolver as coisas. Lucas balançou a cabeça, sem acreditar. — Então aquilo tudo foi desculpa? Daniel assentiu. — Foi. Rebeca apertou a mão de Rafael, nervosa. — E seu pai? — Roberto perguntou. Daniel respirou fundo. — Morreu. Silêncio. — E quando ele morreu… eu tive uma escolha. Todos estavam atentos. — Eu podia assumir o lugar dele… Pausa. — Ou sair de vez. — E você saiu — Rafael disse. — Saí. — E seu irmão? — Carla perguntou. — Ficou. — Ele assumiu tudo? Daniel assentiu. — Sim. Lucas soltou um riso sem humor. — Que família tranquila… Ninguém reagiu. Porque não tinha graça nenhuma. Daniel continuou: — Eu rompi com tudo. Cortei contato. Fiz o curso de bombeiro… Camila olhou pra ele. — Pra ter uma vida normal… — Exatamente. Pausa. — Longe disso tudo. Rebeca falou baixo: — E mesmo assim… isso voltou pra você. Daniel olhou pra ela. — Isso nunca some de verdade. Silêncio. Pesado. Real. Rafael então perguntou: — E o Marcelo? Daniel respondeu: — Ele era aliado do meu pai. Todos prestaram mais atenção ainda. — Quando meu pai morreu… meu irmão assumiu… mas o Marcelo não aceitou algumas mudanças. — Tipo o quê? — Roberto perguntou. — Menos exposição… menos violência… menos risco. Lucas ironizou: — Ou seja… ele não gostou de perder poder. — Exato — Daniel disse. — E você entrou no meio disso? Daniel assentiu. — Eu tentei resolver… do meu jeito. Rafael já sabia a resposta. — Foi quando você derrubou o esquema. — Sim. Silêncio. — E ele nunca esqueceu — Camila disse. Daniel negou levemente. — Não. Pausa. — Esse tipo de gente… não esquece. A sala ficou em silêncio absoluto. Cada um processando. Cada um entendendo onde estava metido. Jéssica abraçou mais forte o braço de Lucas. — Então… a gente tá no meio de uma guerra que nem é nossa… Daniel olhou pra ela. Sincero. — Agora é. Ninguém teve coragem de responder. Camila enxugou o rosto, ainda abalada. — Eu só queria que isso fosse um pesadelo… Rebeca apertou a mão de Rafael. — A gente vai sair disso… Mas nem ela parecia acreditar totalmente. Rafael então falou firme: — Amanhã a gente resolve. Daniel olhou pra ele. — Amanhã a gente resolve. O silêncio ainda pesava quando Daniel levantou o olhar. Dessa vez, decidido. — Na verdade… — ele começou. Todos olharam pra ele. — Eu não vou envolver ninguém aqui. Rafael franziu a testa na hora. — Como assim? Daniel ficou firme. — Amanhã… nenhum de vocês vai. Rebeca apertou a mão de Rafael. — Daniel… — Quem ligou pra mim não foi só o Fabiano — ele continuou. — Ele é meu irmão. O impacto veio de novo. — Ele já tá vindo — Daniel disse. — Com homens. Gente preparada. Lucas soltou o ar, nervoso. — Isso tá ficando cada vez pior… Daniel ignorou. — A gente vai se encontrar amanhã cedo. — “A gente” quem? — Rafael perguntou, já sabendo a resposta. — Eu e ele. Silêncio. — E juntos… a gente vai invadir e acabar com o Marcelo. Camila balançou a cabeça. — Invadir?! — Sim. Rafael deu um passo à frente. — E você acha que eu vou ficar aqui assistindo? Daniel encarou ele. — Acho. — Tá maluco — Rafael respondeu na hora. — Isso não é só seu! — É sim! — Daniel rebateu, pela primeira vez alterando a voz. — Sempre foi! O ambiente travou. — Isso começou antes de vocês — ele continuou. — E vai terminar sem vocês. Rebeca falou baixo: — Mas ele tá atrás da gente também… — Porque ele quer chegar em mim — Daniel respondeu. — E eu não vou dar mais essa chance. Lucas cruzou os braços. — E se ele vier aqui de novo? — Ele não vem — Daniel disse. — Não depois de amanhã. — Você não pode garantir isso — Roberto rebateu. Daniel ficou em silêncio por um segundo. — Não posso. Pausa. — Mas posso garantir que quanto mais vocês se envolverem… pior fica. Rafael riu sem humor. — Já tá pior, Daniel. — Pode piorar mais — ele respondeu. Silêncio. Camila falou com a voz fraca: — A gente não sabe nem se proteger… Jéssica abaixou o olhar, lembrando do que passou. — Eles me pegaram em segundos… Daniel respirou fundo. — Justamente por isso. Rafael se aproximou mais. — Você não vai sozinho. — Eu não vou sozinho — Daniel respondeu. — Meu irmão vai estar lá. E os homens dele. — Eu não confio neles — Rafael disse direto. — Nem precisa — Daniel rebateu. — Só precisa confiar que eu sei o que tô fazendo. — E você sabe? — Rafael provocou. Silêncio. Pesado. Daniel sustentou o olhar. — Sei o suficiente pra não levar vocês pra uma guerra. A palavra ficou no ar. Guerra. Rebeca fechou os olhos. Camila voltou a chorar. Lucas olhou pro chão. Rafael passou a mão no rosto, irritado. — Você decide tudo sozinho, né? Daniel respondeu baixo: — Não. Pausa. — Eu só tô tentando consertar o erro que eu causei. O silêncio voltou. Mas dessa vez… com um peso diferente. Rafael olhou pra ele por alguns segundos. Depois desviou. — Se você não voltar… Daniel interrompeu: — Eu volto. Mas não parecia promessa. Parecia necessidade. Rebeca olhou pra ele, com medo. — Daniel… Ele suavizou o olhar. — Eu não vou deixar ele encostar em vocês de novo. Camila sussurrou: — Já encostou… Daniel fechou os olhos por um segundo. Sentindo o peso daquilo. — Eu sei. — E amanhã… isso acaba. Ninguém respondeu. Porque no fundo… ninguém tinha certeza disso. Daniel pegou a chave. — Descansa essa noite. Fica todo mundo junto. Rafael ainda olhava pra ele. — Isso não termina sem mim. Daniel respondeu, firme: — Termina. Os dois se encararam. Tensão. Orgulho. Medo. E uma verdade que nenhum dos dois queria aceitar: Nem tudo estava sob controle. Daniel virou e foi em direção à porta. Antes de sair, parou. Sem olhar pra trás. — Se alguma coisa acontecer… — Não me espera. E saiu. A porta se fechou. E o silêncio que ficou… foi o mais pesado de todos. Porque agora… eles sabiam. Amanhã… não seria só um confronto. Seria um ponto final. Ou… o começo de algo ainda pior. — Porque resolver… não depende só da gente. O silêncio voltou. Mas agora… não era só medo. Era consciência. Eles sabiam exatamente o tamanho do problema.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD