O silêncio ainda dominava a sala quando Daniel respirou fundo de novo.
Mas dessa vez… ele não parou.
— Eu não entrei nisso porque quis.
Todos olharam pra ele.
— Eu nasci nisso.
Lucas franziu a testa. — Como assim?
Daniel passou a mão no rosto, cansado.
— Minha família… sempre foi envolvida com esse tipo de coisa.
O clima ficou ainda mais pesado.
— Meu pai comandava tudo.
Rebeca ficou imóvel.
— E eu… fui criado pra continuar.
Rafael cruzou os braços, atento.
— Então você já tava dentro desde sempre.
Daniel assentiu de leve. — Desde moleque.
Pausa.
— Mas eu nunca quis isso.
Carla falou baixo: — E por que não saiu antes?
Daniel respondeu sem rodeio: — Porque enquanto meu pai tava vivo… eu não podia.
Silêncio.
— Ele não deixava?
— Não — Daniel disse. — Ele obrigava.
As palavras caíram pesadas.
Camila arregalou os olhos. — Mas… seu pai não tava doente?
Daniel olhou pra ela.
E respondeu direto:
— Eu menti.
O ar ficou pesado na hora.
— Eu precisava sair daqui… ir ver meu irmão… resolver as coisas.
Lucas balançou a cabeça, sem acreditar. — Então aquilo tudo foi desculpa?
Daniel assentiu.
— Foi.
Rebeca apertou a mão de Rafael, nervosa.
— E seu pai? — Roberto perguntou.
Daniel respirou fundo.
— Morreu.
Silêncio.
— E quando ele morreu… eu tive uma escolha.
Todos estavam atentos.
— Eu podia assumir o lugar dele…
Pausa.
— Ou sair de vez.
— E você saiu — Rafael disse.
— Saí.
— E seu irmão? — Carla perguntou.
— Ficou.
— Ele assumiu tudo?
Daniel assentiu. — Sim.
Lucas soltou um riso sem humor. — Que família tranquila…
Ninguém reagiu.
Porque não tinha graça nenhuma.
Daniel continuou:
— Eu rompi com tudo. Cortei contato. Fiz o curso de bombeiro…
Camila olhou pra ele. — Pra ter uma vida normal…
— Exatamente.
Pausa.
— Longe disso tudo.
Rebeca falou baixo: — E mesmo assim… isso voltou pra você.
Daniel olhou pra ela.
— Isso nunca some de verdade.
Silêncio.
Pesado.
Real.
Rafael então perguntou: — E o Marcelo?
Daniel respondeu: — Ele era aliado do meu pai.
Todos prestaram mais atenção ainda.
— Quando meu pai morreu… meu irmão assumiu… mas o Marcelo não aceitou algumas mudanças.
— Tipo o quê? — Roberto perguntou.
— Menos exposição… menos violência… menos risco.
Lucas ironizou: — Ou seja… ele não gostou de perder poder.
— Exato — Daniel disse.
— E você entrou no meio disso?
Daniel assentiu. — Eu tentei resolver… do meu jeito.
Rafael já sabia a resposta. — Foi quando você derrubou o esquema.
— Sim.
Silêncio.
— E ele nunca esqueceu — Camila disse.
Daniel negou levemente. — Não.
Pausa.
— Esse tipo de gente… não esquece.
A sala ficou em silêncio absoluto.
Cada um processando.
Cada um entendendo onde estava metido.
Jéssica abraçou mais forte o braço de Lucas.
— Então… a gente tá no meio de uma guerra que nem é nossa…
Daniel olhou pra ela.
Sincero.
— Agora é.
Ninguém teve coragem de responder.
Camila enxugou o rosto, ainda abalada. — Eu só queria que isso fosse um pesadelo…
Rebeca apertou a mão de Rafael. — A gente vai sair disso…
Mas nem ela parecia acreditar totalmente.
Rafael então falou firme:
— Amanhã a gente resolve.
Daniel olhou pra ele.
— Amanhã a gente resolve.
O silêncio ainda pesava quando Daniel levantou o olhar.
Dessa vez, decidido.
— Na verdade… — ele começou.
Todos olharam pra ele.
— Eu não vou envolver ninguém aqui.
Rafael franziu a testa na hora. — Como assim?
Daniel ficou firme. — Amanhã… nenhum de vocês vai.
Rebeca apertou a mão de Rafael. — Daniel…
— Quem ligou pra mim não foi só o Fabiano — ele continuou. — Ele é meu irmão.
O impacto veio de novo.
— Ele já tá vindo — Daniel disse. — Com homens. Gente preparada.
Lucas soltou o ar, nervoso. — Isso tá ficando cada vez pior…
Daniel ignorou.
— A gente vai se encontrar amanhã cedo.
— “A gente” quem? — Rafael perguntou, já sabendo a resposta.
— Eu e ele.
Silêncio.
— E juntos… a gente vai invadir e acabar com o Marcelo.
Camila balançou a cabeça. — Invadir?!
— Sim.
Rafael deu um passo à frente. — E você acha que eu vou ficar aqui assistindo?
Daniel encarou ele. — Acho.
— Tá maluco — Rafael respondeu na hora. — Isso não é só seu!
— É sim! — Daniel rebateu, pela primeira vez alterando a voz. — Sempre foi!
O ambiente travou.
— Isso começou antes de vocês — ele continuou. — E vai terminar sem vocês.
Rebeca falou baixo: — Mas ele tá atrás da gente também…
— Porque ele quer chegar em mim — Daniel respondeu. — E eu não vou dar mais essa chance.
Lucas cruzou os braços. — E se ele vier aqui de novo?
— Ele não vem — Daniel disse. — Não depois de amanhã.
— Você não pode garantir isso — Roberto rebateu.
Daniel ficou em silêncio por um segundo.
— Não posso.
Pausa.
— Mas posso garantir que quanto mais vocês se envolverem… pior fica.
Rafael riu sem humor. — Já tá pior, Daniel.
— Pode piorar mais — ele respondeu.
Silêncio.
Camila falou com a voz fraca: — A gente não sabe nem se proteger…
Jéssica abaixou o olhar, lembrando do que passou. — Eles me pegaram em segundos…
Daniel respirou fundo.
— Justamente por isso.
Rafael se aproximou mais. — Você não vai sozinho.
— Eu não vou sozinho — Daniel respondeu. — Meu irmão vai estar lá. E os homens dele.
— Eu não confio neles — Rafael disse direto.
— Nem precisa — Daniel rebateu. — Só precisa confiar que eu sei o que tô fazendo.
— E você sabe? — Rafael provocou.
Silêncio.
Pesado.
Daniel sustentou o olhar.
— Sei o suficiente pra não levar vocês pra uma guerra.
A palavra ficou no ar.
Guerra.
Rebeca fechou os olhos.
Camila voltou a chorar.
Lucas olhou pro chão.
Rafael passou a mão no rosto, irritado.
— Você decide tudo sozinho, né?
Daniel respondeu baixo: — Não.
Pausa.
— Eu só tô tentando consertar o erro que eu causei.
O silêncio voltou.
Mas dessa vez…
com um peso diferente.
Rafael olhou pra ele por alguns segundos.
Depois desviou.
— Se você não voltar…
Daniel interrompeu: — Eu volto.
Mas não parecia promessa.
Parecia necessidade.
Rebeca olhou pra ele, com medo. — Daniel…
Ele suavizou o olhar.
— Eu não vou deixar ele encostar em vocês de novo.
Camila sussurrou: — Já encostou…
Daniel fechou os olhos por um segundo.
Sentindo o peso daquilo.
— Eu sei.
— E amanhã… isso acaba.
Ninguém respondeu.
Porque no fundo…
ninguém tinha certeza disso.
Daniel pegou a chave.
— Descansa essa noite. Fica todo mundo junto.
Rafael ainda olhava pra ele.
— Isso não termina sem mim.
Daniel respondeu, firme: — Termina.
Os dois se encararam.
Tensão.
Orgulho.
Medo.
E uma verdade que nenhum dos dois queria aceitar:
Nem tudo estava sob controle.
Daniel virou e foi em direção à porta.
Antes de sair, parou.
Sem olhar pra trás.
— Se alguma coisa acontecer…
— Não me espera.
E saiu.
A porta se fechou.
E o silêncio que ficou…
foi o mais pesado de todos.
Porque agora…
eles sabiam.
Amanhã…
não seria só um confronto.
Seria um ponto final.
Ou…
o começo de algo ainda pior.
— Porque resolver… não depende só da gente.
O silêncio voltou.
Mas agora…
não era só medo.
Era consciência.
Eles sabiam exatamente o tamanho do problema.