Capítulo 21

967 Words
A madrugada avançava… e o hospital parecia não dormir nunca. Rebeca continuava andando de um lado para o outro, os olhos vermelhos, as mãos trêmulas. A imagem de Carla presa nas ferragens não saía da cabeça. — Eu devia ter impedido… — ela repetia, quase sem voz. Rafael, encostado na parede, observava em silêncio por alguns segundos… até se aproximar de novo. — Rebeca… — ele falou com firmeza, mas com cuidado. — Olha pra mim. Ela levantou o olhar, perdida. — Você não tem culpa disso. — Mas eu sabia que ela tinha bebido… — a voz dela falhou. — Eu deixei… Rafael respirou fundo. — Quem dirigiu foi o Roberto. E foi uma escolha dele. Você não podia prever isso. Ela ficou em silêncio… mas a dor ainda estava ali As horas passavam devagar. Cada vez que a porta do centro cirúrgico se abria, o coração de Rebeca disparava. Até que, finalmente… Um médico saiu. — Família da Carla? Rebeca foi a primeira a se aproximar. — Sou amiga… como ela tá? O médico tirou a máscara, com expressão cansada. — A cirurgia foi longa… mas conseguimos estabilizar. Ela está fora de perigo imediato. Rebeca levou a mão ao rosto, chorando. — Graças a Deus… Rafael fechou os olhos por um segundo, aliviado. — Ela vai precisar de recuperação, mas vai ficar bem — o médico completou. Um peso enorme saiu dos ombros deles. Mas a tensão voltou na mesma hora. — E o Roberto? — Rafael perguntou. O médico ficou sério novamente. — O estado dele ainda é crítico. Ele teve um trauma muito forte… estamos tentando estabilizar, mas as próximas horas são decisivas. O silêncio caiu como uma pedra. Rebeca segurou a mão de Rafael com força. — Ele não pode morrer… — disse, quase em desespero. Rafael apertou a mão dela de volta. — Vamos acreditar que ele vai sair dessa. Mais tarde, já com o dia começando a clarear, permitiram que Rebeca visse Carla rapidamente. O quarto ainda cheirava a hospital. Carla estava deitada, cheia de curativos, ligada a aparelhos… mas viva. Rebeca se aproximou devagar. — Amiga… — sussurrou, com lágrimas nos olhos. Carla abriu os olhos com dificuldade. — Re… be… ca… A voz era fraca, quase um sopro. Rebeca segurou a mão dela com cuidado. — Eu tô aqui… você tá segura agora… Carla tentou sorrir, mas sentiu dor. — Ro… ber… to… Rebeca sentiu o coração apertar. — Ele tá sendo cuidado… vai ficar bem… — disse, mesmo sem ter certeza. Carla fechou os olhos, exausta. Do lado de fora, Rafael observava tudo. O rosto sério. Pensativo. Aquele dia… aquela noite… tinham mudado tudo. Agora não era mais sobre festa, sentimentos confusos ou aproximações. O dia finalmente chegou. Depois de dias de espera, exames e cuidados, os médicos autorizaram um encontro rápido entre Carla e Roberto. Era pouco tempo. Mas significava tudo. Carla foi levada em uma cadeira de rodas. Ainda fraca, com movimentos limitados… mas com o coração acelerado como nunca. Rebeca caminhava ao lado dela, segurando sua mão. — Você tá pronta? — perguntou, com cuidado. Carla respirou fundo. — Não… mas eu preciso disso. Do outro lado, no quarto, Roberto estava sentado na cama, apoiado por travesseiros. O corpo ainda sentia o peso do acidente. Mas a mente… estava ali. Esperando. Quando a porta se abriu… os dois se olharam. E o mundo pareceu parar. Carla não conseguiu segurar. As lágrimas vieram na hora. — Você… — ela tentou falar, mas a voz falhou. Roberto também ficou sem palavras por alguns segundos. Os olhos marejados. — Você tá viva… — ele disse, quase em um sussurro. Carla deu um leve riso entre o choro. — E você também… Rebeca percebeu o momento… e saiu discretamente, fechando a porta. Deixando os dois sozinhos. Roberto tentou se ajeitar. — Vem mais perto… Carla se aproximou com a cadeira, até ficar ao lado da cama. Eles ficaram se olhando por alguns segundos… absorvendo tudo. A dor. O medo. O alívio. — Eu achei que tinha te perdido… — Roberto disse, com a voz carregada. Carla segurou a mão dele com cuidado. — Eu também… O silêncio que veio depois foi profundo. Mas não vazio. Era cheio de tudo que eles não tinham dito antes. — Me desculpa… — Roberto falou, de repente. Carla franziu levemente a testa. — Pelo quê? — Eu dirigi daquele jeito… — ele fechou os olhos. — Eu podia ter… acabado com tudo. Carla apertou a mão dele. — Para… — disse, firme, mesmo fraca. — A gente tá aqui. É isso que importa. Ele abriu os olhos novamente. — Não… importa sim. Eu podia ter te perdido. Ela ficou em silêncio por um instante. E então… — Mas não perdeu. Os olhos deles se encontraram de novo. Mais intensos. Mais verdadeiros. — Eu não quero mais fugir do que eu sinto… — Roberto disse, baixo. O coração de Carla disparou. — E o que você sente? Ele não desviou. — Você. Carla sentiu as lágrimas voltarem. Mas dessa vez… com um sorriso. — Demorou, hein… Ele tentou rir… mesmo com dor. — Eu sei… Com cuidado, ele levou a mão até o rosto dela. E ela fechou os olhos por um segundo, sentindo. Sem pressa… sem dúvida… eles se aproximaram. E se beijaram. Um beijo leve. Delicado. Mas cheio de significado. Não era mais impulso. Não era só momento. Era escolha. Quando se afastaram, Carla encostou a testa na dele. — A gente ganhou uma segunda chance… — ela disse. Roberto assentiu. — Então dessa vez… a gente não vai errar. E naquele quarto de hospital… entre curativos, dor e recuperação… nascia algo ainda mais forte. Mais verdadeiro. Porque às vezes… é preciso quase perder tudo… pra entender o que realmente importa.
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