A madrugada avançava… e o hospital parecia não dormir nunca.
Rebeca continuava andando de um lado para o outro, os olhos vermelhos, as mãos trêmulas. A imagem de Carla presa nas ferragens não saía da cabeça.
— Eu devia ter impedido… — ela repetia, quase sem voz.
Rafael, encostado na parede, observava em silêncio por alguns segundos… até se aproximar de novo.
— Rebeca… — ele falou com firmeza, mas com cuidado. — Olha pra mim.
Ela levantou o olhar, perdida.
— Você não tem culpa disso.
— Mas eu sabia que ela tinha bebido… — a voz dela falhou. — Eu deixei…
Rafael respirou fundo.
— Quem dirigiu foi o Roberto. E foi uma escolha dele. Você não podia prever isso.
Ela ficou em silêncio… mas a dor ainda estava ali
As horas passavam devagar.
Cada vez que a porta do centro cirúrgico se abria, o coração de Rebeca disparava.
Até que, finalmente…
Um médico saiu.
— Família da Carla?
Rebeca foi a primeira a se aproximar.
— Sou amiga… como ela tá?
O médico tirou a máscara, com expressão cansada.
— A cirurgia foi longa… mas conseguimos estabilizar. Ela está fora de perigo imediato.
Rebeca levou a mão ao rosto, chorando.
— Graças a Deus…
Rafael fechou os olhos por um segundo, aliviado.
— Ela vai precisar de recuperação, mas vai ficar bem — o médico completou.
Um peso enorme saiu dos ombros deles.
Mas a tensão voltou na mesma hora.
— E o Roberto? — Rafael perguntou.
O médico ficou sério novamente.
— O estado dele ainda é crítico. Ele teve um trauma muito forte… estamos tentando estabilizar, mas as próximas horas são decisivas.
O silêncio caiu como uma pedra.
Rebeca segurou a mão de Rafael com força.
— Ele não pode morrer… — disse, quase em desespero.
Rafael apertou a mão dela de volta.
— Vamos acreditar que ele vai sair dessa.
Mais tarde, já com o dia começando a clarear, permitiram que Rebeca visse Carla rapidamente.
O quarto ainda cheirava a hospital.
Carla estava deitada, cheia de curativos, ligada a aparelhos… mas viva.
Rebeca se aproximou devagar.
— Amiga… — sussurrou, com lágrimas nos olhos.
Carla abriu os olhos com dificuldade.
— Re… be… ca…
A voz era fraca, quase um sopro.
Rebeca segurou a mão dela com cuidado.
— Eu tô aqui… você tá segura agora…
Carla tentou sorrir, mas sentiu dor.
— Ro… ber… to…
Rebeca sentiu o coração apertar.
— Ele tá sendo cuidado… vai ficar bem… — disse, mesmo sem ter certeza.
Carla fechou os olhos, exausta.
Do lado de fora, Rafael observava tudo.
O rosto sério.
Pensativo.
Aquele dia… aquela noite…
tinham mudado tudo.
Agora não era mais sobre festa, sentimentos confusos ou aproximações.
O dia finalmente chegou.
Depois de dias de espera, exames e cuidados, os médicos autorizaram um encontro rápido entre Carla e Roberto.
Era pouco tempo.
Mas significava tudo.
Carla foi levada em uma cadeira de rodas.
Ainda fraca, com movimentos limitados… mas com o coração acelerado como nunca.
Rebeca caminhava ao lado dela, segurando sua mão.
— Você tá pronta? — perguntou, com cuidado.
Carla respirou fundo.
— Não… mas eu preciso disso.
Do outro lado, no quarto, Roberto estava sentado na cama, apoiado por travesseiros.
O corpo ainda sentia o peso do acidente.
Mas a mente… estava ali.
Esperando.
Quando a porta se abriu…
os dois se olharam.
E o mundo pareceu parar.
Carla não conseguiu segurar.
As lágrimas vieram na hora.
— Você… — ela tentou falar, mas a voz falhou.
Roberto também ficou sem palavras por alguns segundos.
Os olhos marejados.
— Você tá viva… — ele disse, quase em um sussurro.
Carla deu um leve riso entre o choro.
— E você também…
Rebeca percebeu o momento… e saiu discretamente, fechando a porta.
Deixando os dois sozinhos.
Roberto tentou se ajeitar.
— Vem mais perto…
Carla se aproximou com a cadeira, até ficar ao lado da cama.
Eles ficaram se olhando por alguns segundos… absorvendo tudo.
A dor.
O medo.
O alívio.
— Eu achei que tinha te perdido… — Roberto disse, com a voz carregada.
Carla segurou a mão dele com cuidado.
— Eu também…
O silêncio que veio depois foi profundo.
Mas não vazio.
Era cheio de tudo que eles não tinham dito antes.
— Me desculpa… — Roberto falou, de repente.
Carla franziu levemente a testa.
— Pelo quê?
— Eu dirigi daquele jeito… — ele fechou os olhos. — Eu podia ter… acabado com tudo.
Carla apertou a mão dele.
— Para… — disse, firme, mesmo fraca. — A gente tá aqui. É isso que importa.
Ele abriu os olhos novamente.
— Não… importa sim. Eu podia ter te perdido.
Ela ficou em silêncio por um instante.
E então…
— Mas não perdeu.
Os olhos deles se encontraram de novo.
Mais intensos.
Mais verdadeiros.
— Eu não quero mais fugir do que eu sinto… — Roberto disse, baixo.
O coração de Carla disparou.
— E o que você sente?
Ele não desviou.
— Você.
Carla sentiu as lágrimas voltarem.
Mas dessa vez… com um sorriso.
— Demorou, hein…
Ele tentou rir… mesmo com dor.
— Eu sei…
Com cuidado, ele levou a mão até o rosto dela.
E ela fechou os olhos por um segundo, sentindo.
Sem pressa…
sem dúvida…
eles se aproximaram.
E se beijaram.
Um beijo leve.
Delicado.
Mas cheio de significado.
Não era mais impulso.
Não era só momento.
Era escolha.
Quando se afastaram, Carla encostou a testa na dele.
— A gente ganhou uma segunda chance… — ela disse.
Roberto assentiu.
— Então dessa vez… a gente não vai errar.
E naquele quarto de hospital…
entre curativos, dor e recuperação…
nascia algo ainda mais forte.
Mais verdadeiro.
Porque às vezes…
é preciso quase perder tudo…
pra entender o que realmente importa.