O domingo seguia leve… mas nem tudo ali era tão simples quanto parecia.
Daniel já estava completamente entrosado com o grupo.
Rindo, conversando, ajudando no churrasco, contando histórias do quartel.
— O cara é gente boa — Lucas comentou com Leandro, baixo.
— Demais — Leandro concordou. — Já chegou no clima.
Rafael também observava.
— Ele trabalha bem — disse. — É rápido, atento… bom bombeiro.
E era verdade.
Daniel tinha presença.
Sabia agir sob pressão.
Passava confiança no trabalho.
Mas fora dele…
era diferente.
E ninguém ali sabia disso.
Enquanto todos conversavam e riam, Daniel começou a reparar mais no ambiente.
Observando.
Analisando.
Até que… o olhar dele parou.
Em Rebeca.
Ela estava rindo com Carla, o cabelo levemente molhado, o rosto iluminado pelo sol.
Natural.
Leve.
Bonita.
Daniel ficou alguns segundos olhando.
Como se tivesse sido pego de surpresa.
Algo ali chamou atenção de um jeito diferente.
Mais forte.
Mais direto.
“Que mulher…” ele pensou, sem desviar o olhar.
Camila, ao lado dele, falava alguma coisa… mas ele demorou a responder.
— Amor? — ela chamou.
— Oi? — ele voltou, disfarçando na hora.
— Você tá viajando.
— Nada… só pensando.
Ela sorriu, sem desconfiar.
Mas Daniel voltou a olhar.
Dessa vez, mais discreto.
Mais cuidadoso.
Não era só interesse.
Era algo imediato.
Como se tivesse sido… impacto.
Do outro lado, Rafael se aproximava de Rebeca, abraçando ela por trás.
Daniel viu.
E ficou em silêncio.
Ele desviou o olhar.
Pegou uma bebida.
Tentou se distrair.
Mas, de vez em quando…
olhava de novo.
Sem ninguém perceber…
um novo elemento começava a se formar.
Silencioso.
Disfarçado.
E diferente dos outros…
não era simples.
Não era leve.
Era perigoso.
Enquanto isso, o grupo continuava reunido.
Rindo.
Brincando.
Vivendo.
Sem imaginar que, no meio deles…
alguém começava a querer mais do que devia.
O sol já começava a descer, deixando o céu em tons mais quentes… mas o clima na casa de Lucas continuava leve, quase perfeito.
Risos, música, conversas soltas.
E, no meio disso tudo…
Daniel tentava se manter normal.
Ele estava encostado próximo à churrasqueira, conversando com Rafael e Roberto sobre o trabalho.
— O plantão anda puxado — Daniel comentou. — Mas tô me adaptando.
Rafael assentiu.
— Aqui é assim mesmo.
Roberto completou:
— Você pega o ritmo rápido.
Daniel respondeu… mas sem a mesma presença.
Porque, por mais que tentasse se concentrar…
seus olhos sempre acabavam voltando.
Pra ela.
Rebeca.
Ela estava sentada agora com Carla e Jéssica, rindo de alguma coisa.
Solta.
Natural.
Sem perceber que estava sendo observada.
Daniel desviou o olhar de novo.
Tomou um gole da bebida.
Respirou fundo.
— Foco… — murmurou baixo, pra si mesmo.
Mas não adiantava.
Era involuntário.
Como um ímã.
Em outro momento, Rebeca se levantou para ir até a mesa pegar algo.
E acabou passando perto dele.
— Quer alguma coisa? — ela perguntou, educada, com um sorriso.
Simples.
Gentil.
Sem malícia.
Mas, pra Daniel…
aquilo foi suficiente.
— Não… tô tranquilo — respondeu, mantendo o controle.
Mas por dentro…
não estava.
Ela seguiu.
E ele acompanhou com o olhar por um segundo a mais do que deveria.
Camila percebeu.
Não exatamente o motivo…
mas o comportamento.
— Você tá estranho hoje — disse, se aproximando dele.
Daniel voltou rápido.
— Tô nada.
— Tá sim… quieto demais.
Ele forçou um sorriso.
— Só cansado.
Ela aceitou.
Mas algo ficou no ar.
Mais tarde, quando o grupo estava reunido perto da piscina, Rafael puxou Rebeca para mais perto.
Um gesto simples.
Natural.
De quem já estava acostumado.
Daniel viu.
E dessa vez… não desviou na hora.
O maxilar travou levemente.
O olhar ficou mais fixo.
Mais frio.
Não era só interesse mais.
Era incômodo.
Ele sabia que ela tinha alguém.
Sabia que era o Rafael.
E mesmo assim…
aquilo não diminuía.
Pelo contrário.
Só parecia crescer.
“Por que ele?” passou pela cabeça dele, rápido, involuntário.
Naquele momento, ele percebeu.
Aquilo não era só uma atração passageira.
Não era algo leve.
Era o tipo de sentimento que não aceita limite fácil.
E mesmo sem dizer nada…
sem demonstrar abertamente…
Daniel já estava envolvido.
Mais do que deveria.
Enquanto isso, o grupo seguia feliz.
Sem perceber.
Sem desconfiar.
Mas, dentro dele…
algo começava a se formar.
O sol já tinha se posto quando o clima do churrasco começou a desacelerar.
A música ficou mais baixa, as conversas mais tranquilas… e o cansaço começou a aparecer.
— Acho que já deu por hoje — Leandro disse, se espreguiçando.
— Foi perfeito — Carla completou, sorrindo.
Roberto assentiu, olhando ao redor.
— A gente precisava disso.
Um por um, eles começaram a se despedir.
Abraços, risadas, promessas de repetir mais vezes.
Rebeca abraçou Carla com carinho.
— Se cuida, viu?
— Você também — Carla respondeu.
Rafael cumprimentou Roberto.
— Qualquer coisa, me chama.
— Pode deixar.
Daniel e Camila também se preparavam para sair.
— Valeu pelo convite — Daniel disse, olhando para Lucas.
— Sempre — Lucas respondeu.
Camila sorriu para todos.
— Foi ótimo conhecer vocês.
Antes de sair, Daniel olhou uma última vez.
Rebeca estava mais ao fundo, conversando com Rafael.
Ele não ficou muito tempo olhando…
Mas o suficiente.
Pouco depois, ele entrou no carro com Camila.
O trajeto foi silencioso.
Diferente do que deveria ser depois de um dia como aquele.
— Você gostou? — Camila perguntou, sorrindo.
— Gostei — ele respondeu.
Mas sem a mesma energia.
Ela percebeu.
— Você tá distante.
— Só cansado — ele disse, olhando pra estrada.
—
Ela encostou a cabeça no banco, tranquila.
Sem imaginar o que realmente passava na mente dele.
Depois de deixar Camila em casa, Daniel seguiu sozinho.
A cidade estava mais calma.
Mas a cabeça dele… não.
Imagens vinham e voltavam.
Rebeca sorrindo.
Rebeca passando por ele.
Rebeca com Rafael.
Ele apertou o volante com mais força.
— Isso não… — começou a dizer, mas parou.
—
Não era algo que ele queria sentir.
Mas já estava sentindo.
—
Naquela noite…
ele não conseguiu descansar.
Deitado na cama, olhando para o teto…
pensando.
Revivendo cada detalhe.
Cada olhar.
Cada momento.
E quanto mais tentava afastar…
mais forte ficava.
Do outro lado…
na casa de Lucas, a arrumação começava.
Jéssica decidiu ficar.
— Eu ajudo — disse, pegando alguns copos.
— Nem precisava — Lucas respondeu.
— Eu sei… mas eu quero.
Os dois começaram a organizar juntos.
Entre brincadeiras e pequenas provocações.j
— Você sempre inventa essas reuniões? — ela perguntou.
— Só quando tenho um bom motivo.
— E qual foi o de hoje?
Ele olhou pra ela.
— Você ter vindo.
Ela sorriu, balançando a cabeça.
— Convencido.
Mas não negou.
Enquanto isso, dentro daquela casa que agora ficava em silêncio…
algo continuava ecoando.
Porque, mesmo longe dali…
Daniel ainda estava preso no mesmo pensamento.
E, sem saber…
ele já tinha cruzado uma linha.