Capítulo 36

1304 Words
A segunda-feira começou diferente. O clima no quartel estava pesado desde cedo. Ninguém sabia explicar exatamente o porquê, mas todos sentiam. Rafael chegou sério, direto para o vestiário. Roberto já estava lá. — Tá com uma cara péssima. — Dormi m*l — Rafael respondeu, seco. — Também… depois de tudo. Daniel chegou logo depois, cumprimentando todos com um aceno. — Bom dia. — Bom dia — responderam quase em coro. O silêncio dominava o ambiente. Até o rádio estourar. — Atenção equipe, ocorrência grave! Incêndio em prédio residencial, possível vítimas presas! Na mesma hora, todos se movimentaram. Equipamentos. Fardas. Concentração total. Minutos depois, o caminhão já cortava a cidade com a sirene ligada. Quando chegaram, o cenário era caótico. Um prédio em chamas. Fumaça densa saindo pelas janelas. Gente gritando. Correria. — Vamos! — Rafael gritou. A equipe se dividiu rápido. — Tem gente lá em cima! — um morador desesperado gritava. Daniel olhou para o prédio. Sem hesitar. Entrou. O calor era intenso. A visibilidade quase zero. — Roberto, comigo! — Rafael chamou. Os dois subiram por outro acesso. Daniel seguiu sozinho por um corredor tomado pela fumaça. O som de algo caindo ao longe. Estalos do fogo consumindo tudo. De repente… um choro. Fraco. Mas ali. Ele parou. Prestou atenção. — Tem alguém aí? O choro aumentou. Daniel seguiu o som. Empurrou uma porta parcialmente fechada. E encontrou. Uma garotinha. Assustada. Encurralada. — Ei… calma… — ele disse, abaixando na frente dela. — Eu tô aqui. Ela chorava, sem conseguir falar. Daniel tirou parte do equipamento e colocou nela, protegendo. — Segura em mim. Ela agarrou ele com força. O fogo começou a se aproximar. O tempo estava acabando. Daniel levantou ela no colo. E saiu. O caminho de volta estava pior. Mais fumaça. Mais calor. Uma parte do teto caiu perto deles. Ele desviou por pouco. — Aguenta… a gente já vai sair. A menina tremia. Mas não soltava. Do lado de fora, Rafael e Roberto já tinham resgatado outras pessoas. — Daniel! — Rafael gritou ao ver ele sair. Ele apareceu entre a fumaça. Carregando a criança. Os paramédicos correram. Pegaram a menina. Ela foi levada rapidamente. Daniel tirou o capacete. Respirando pesado. Mas o olhar dele mudou quando percebeu… Nem todos tinham conseguido sair. Algumas pessoas não resistiram. O silêncio que veio depois foi diferente de qualquer outro. Pesado. Frio. Roberto passou a mão no rosto. — A gente fez o que deu… Rafael ficou olhando o prédio. — Não foi suficiente. Daniel não disse nada. Mas, no fundo… aquilo atingiu ele. Porque, mesmo salvando uma vida… outras se perderam. E esse peso… ninguém ali sabia carregar completamente. A equipe voltou para o quartel em silêncio. O dia tinha começado tenso. E agora… tinha deixado marcas. A repercussão veio rápido. Ainda no mesmo dia, imagens do incêndio começaram a circular. Vídeos feitos por moradores, entrevistas, sirenes ao fundo, o prédio em chamas. E, no meio de tudo, uma cena chamou atenção: Daniel saindo com a garotinha nos braços. Nos noticiários, a manchete se repetia. “Bombeiro salva criança em incêndio de grandes proporções.” A imagem dele, coberto de fuligem, olhar firme, viralizou. No quartel, alguns comentavam. — Virou famoso agora, hein — Lucas disse, tentando aliviar o clima. — Queria que fosse por outro motivo — Daniel respondeu, sem entusiasmo. Rafael observava em silêncio. Horas depois, já em casa, Daniel estava sozinho quando o celular tocou. Número desconhecido. Ele atendeu. — Alô. Do outro lado, uma voz que ele conhecia bem. — Tá virando herói agora? Daniel fechou os olhos por um segundo. — O que você quer? — Vi você na televisão — a voz continuou. — Salvando criancinha… bonito isso. Era Fabiano. Daniel ficou em silêncio. — Parabéns… de verdade — Fabiano disse, com um tom que misturava ironia e respeito. — Você sempre foi bom no que faz. — Fala logo — Daniel respondeu, mais frio. Fabiano riu baixo. — Só não esquece de uma coisa… — Você sabe quem você é. O silêncio pesou. — Essa vida de bombeirinho… — ele continuou — é bonita, limpa… mas não é a sua. Daniel apertou o celular com força. — Eu já saí disso. Fabiano ignorou. — Você pode até tentar… mas isso nunca sai de você. A respiração de Daniel ficou mais pesada. — E outra coisa… — a voz mudou, ficando mais séria. — Quando você aparece assim, na televisão… — Outras pessoas também assistem. Daniel franziu a testa. — Que tipo de pessoas? — Gente que não gosta da gente — Fabiano respondeu. — Gente que lembra… gente que espera uma oportunidade. — Você se expôs, irmão. Daniel passou a mão no rosto. — Eu não fiz nada de errado. — Pra você não… — Fabiano disse. — Mas pro nosso mundo… qualquer fraqueza vira alvo. O clima ficou pesado. — Só tô te avisando — Fabiano completou. — Fica esperto. A ligação caiu. Daniel ficou parado. Celular ainda na mão. O coração acelerado. Pela primeira vez desde que voltou,o perigo estava próximo. Ele olhou para a televisão ainda ligada. A imagem dele passando novamente. Com a garotinha nos braços. Herói. Mas, em outro lugar… alguém assistia a mesma cena. Sem emoção. Sem admiração. Apenas interesse. — Então você… — disse um homem, olhando fixo para a tela. Um leve sorriso surgiu. E naquele instante… sem que Daniel soubesse… algo começou a ser planejado. E dessa vez… não seria um problema que ele poderia simplesmente esconder. Em um apartamento escuro, longe dali, a televisão ainda estava ligada. A imagem de Daniel se repetia, saindo do prédio em chamas com a garotinha nos braços. O homem sentado no sofá não piscava. Observava cada detalhe. Cada movimento. Até soltar um leve sorriso. — Então você apareceu... Ele se levantou devagar. Alto, postura firme, olhar frio. O nome dele era Marcelo Ferraz. Um nome que, anos atrás, era temido nos mesmos lugares que a família de Daniel dominava. Marcelo não era qualquer inimigo. Ele já tinha sido aliado. Trabalhou lado a lado com o pai de Daniel e Fabiano durante anos. Conhecia os esquemas, os caminhos, os contatos. Era um dos homens de confiança… até deixar de ser. A queda dele começou com ambição. Quis mais do que devia. Tentou assumir espaços que não eram dele. E pior… tentou trair. Na época, Daniel ainda estava dentro de tudo. Foi ele quem liderou a ação que acabou com a operação de Marcelo. Foi rápido, direto, sem espaço pra erro. Marcelo perdeu tudo naquela noite. Dinheiro. Homens. Poder. E quase a vida. Desde então, desapareceu. Mas nunca esqueceu. Ele se aproximou da televisão, olhando mais de perto. — Virou herói agora… Pegou o celular, discando um número. — Sou eu. Do outro lado, uma voz respondeu. — Sumido, hein. — Eu achei alguém. — Quem? Marcelo sorriu. — O filho do velho. Silêncio. — Tem certeza? — Tenho. Tá na televisão, se mostrando pro mundo inteiro. Ele caminhou pelo apartamento, pensativo. — Ele tá fora do jogo… vivendo vida de bombeiro. — E você vai fazer o quê? Marcelo parou. O olhar ficou mais sério. Mais perigoso. — Eu vou lembrar ele de quem ele é. Do outro lado da linha, uma leve risada. — Isso pode dar problema grande. Marcelo respondeu sem hesitar. — É exatamente isso que eu quero. Ele desligou. Olhou novamente para a tela. A imagem de Daniel apareceu mais uma vez. — Você tirou tudo de mim… Pausa. — Agora eu vou tirar de você. A televisão foi desligada. O quarto ficou no escuro. Enquanto isso, sem saber de nada, Daniel estava sentado em casa, olhando o celular. A cabeça cheia depois da ligação com o irmão. O aviso ainda ecoava. Mas ele não fazia ideia… que o passado já tinha encontrado ele.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD