Capítulo 37

1521 Words
A noite seguiu silenciosa, mas o perigo já tinha começado a se mover. No esconderijo, Marcelo não perdeu tempo. Abriu um mapa da cidade sobre a mesa, algumas fotos antigas espalhadas ao lado, entre elas uma da família de Daniel anos atrás. — Ele tá exposto demais… isso facilita. Um dos homens ao lado perguntou: — Vai direto nele? Marcelo negou com a cabeça. — Não… assim não tem graça. Ele apontou para a imagem na televisão, agora pausada. — Ele tem uma vida agora… amigos… mulher… Outro homem riu. — Então você vai por eles. Marcelo olhou frio. — Eu vou fazer ele sentir… aos poucos. Enquanto isso, Daniel ainda estava acordado, inquieto. Caminhava pela sala sem parar, tentando organizar os pensamentos. — Isso não vai dar em nada… eu tô fora disso… Mas nem ele parecia acreditar totalmente no que dizia. O celular vibrou. Era Camila. — Oi, amor… você tá bem? — Tô sim… só pensando. — Vi você na televisão… você foi incrível. Daniel fechou os olhos por um segundo. — Eu só fiz meu trabalho. — Eu tenho orgulho de você. Ele ficou em silêncio por um instante. — Obrigado. Do outro lado da cidade, Rafael também estava acordado. Sentado na varanda, olhando o celular. A notícia ainda aberta na tela. — Tem alguma coisa errada… Rebeca apareceu atrás dele. — Você ainda tá pensando nisso? — Tô… Ela sentou ao lado dele. — Rafael… ele salvou uma vida. — Eu sei. — Então por que você não consegue deixar isso pra lá? Rafael respirou fundo. — Porque não foi só isso… Ela franziu a testa. — O que você quer dizer? — A forma que ele agiu… aquilo não é normal. Rebeca ficou em silêncio. — Talvez ele só saiba se defender… — Talvez… — Rafael respondeu, sem convicção. Na casa de Carla e Roberto, o clima era outro. Ela deitada no peito dele, tranquila. — Hoje foi um dos dias mais intensos da minha vida. — E terminou bem — Roberto disse. — Terminou perfeito. Ela levantou a mão, olhando o anel novamente. — Eu ainda não acredito. Roberto sorriu. — Se acostuma… você vai ver isso todo dia agora. Ela riu. — Ainda bem. De volta ao esconderijo, Marcelo terminava de organizar tudo. Pegou uma foto recente impressa da internet. Daniel… ao lado dos amigos. Ele observou cada rosto. Parou em Rebeca. — Então é você… Um dos homens se aproximou. — Já escolheu? Marcelo deu um leve sorriso. — Ainda não… mas eu sei por onde começar. Ele guardou a foto. O plano começava a tomar forma. — Vamos ver até onde vai esse herói… E, naquele momento… sem que ninguém soubesse… o perigo já tinha um alvo. E estava cada vez mais perto. Marcelo estava sentado, olhando as fotos espalhadas na mesa. — Ele construiu uma vida… interessante. Um dos homens perguntou: — Vai atingir como? Marcelo respondeu frio: — Primeiro eu observo… depois eu entro. Ele pegou a foto do grupo. — Amigos… ponto fraco. Apontou para Rafael. — Esse aqui protege… então é problema. Outro homem comentou: — E as mulheres? Marcelo sorriu de lado. — Sempre são o caminho mais rápido. Ele olhou mais uma vez para Rebeca. — Mas não pode ser direto… ele precisa sentir aos poucos. — Quer que a gente siga alguém? — Quero rotina, horários, tudo. Ele caminhou pelo lugar, pensativo. — Descobre onde trabalham, onde moram, com quem andam. — E depois? — Depois eu apareço… quando ninguém esperar. Um dos homens riu. — Isso vai ser divertido. Marcelo parou e encarou ele sério. — Isso não é diversão… é acerto de contas. Silêncio. Ele voltou o olhar para a TV desligada. — Ele tirou tudo de mim… agora eu tiro a paz dele. — E o irmão dele? Marcelo respondeu na hora. — Fabiano não vai se meter… isso aqui é entre mim e ele. — E se ele descobrir? Marcelo deu um leve sorriso. — Melhor ainda. Ele pegou o celular e mostrou a foto de Daniel fardado. — Herói… A expressão endureceu. — Vamos ver quanto tempo isso dura. — Quando começamos? Marcelo respondeu sem hesitar: — Já começou. Marcelo ficou alguns minutos em silêncio, olhando o celular. Depois levantou decidido. — Vamos começar pelo mais fácil. Um dos homens se aproximou. — Quem? Marcelo mostrou a tela com a foto da loja. — Elas trabalham aqui. — Vai mandar alguém lá? — Não… ainda não. Ele guardou o celular. — Primeiro eu quero saber tudo. — Já tenho dois caras na rua — o homem respondeu. — Quero nome, rotina, quem abre a loja, quem fecha. — Certo. Marcelo andava de um lado pro outro. — E o Daniel? — Também já estamos puxando. Quartel, horários, equipe. Marcelo assentiu. — Não chega perto dele ainda. — Por quê? Ele parou e encarou o homem. — Porque eu quero que ele fique por último . Silêncio. — A gente começa por fora… até ele perceber que tem algo errado. — E depois? Marcelo sorriu de leve. — Depois ele vai lembrar de mim. Um dos homens voltou com informações. — Já temos um endereço. Marcelo virou rápido. — De quem? — Da morena… Camila. Ele pegou o papel. — Interessante… — Vai nela? Marcelo pensou por um segundo. — Não. — Então quem? Ele olhou novamente a foto do grupo. Parou em Rebeca. — Essa aqui… — Por quê? Marcelo respondeu frio. — Porque sim. — Qual o plano? Ele se aproximou da mesa, traçando com o dedo. — A gente observa ela primeiro… segue, entende os caminhos. — E depois? Marcelo olhou fixo. — Depois a gente chega perto… bem devagar. — Quer susto ou algo maior? Ele deu um sorriso frio. — Eu quero medo. Silêncio tomou conta do lugar. — Hoje mesmo começa — Marcelo disse. — Já vou avisar os caras. Marcelo pegou a chave do carro. — Não… dessa vez eu vou junto. — Você mesmo? Ele respondeu firme. — Eu esperei anos por isso… não vou assistir de longe. A porta se abriu. — Vamos. E naquele instante, o jogo começou de verdade. O dia amanheceu aparentemente normal, mas Marcelo já estava acordado, olhando as anotações da noite anterior. — Endereço confirmado… rotina iniciando. Um dos homens perguntou: — Qual o primeiro passo hoje? Marcelo respondeu sem tirar os olhos do papel. — Pequeno… quase invisível. — Tipo o quê? Ele levantou. — Quero alguém passando na frente da casa dela… só observando. — Só isso? Marcelo olhou sério. — Por enquanto. — E a loja? — Também… mas sem chamar atenção. Um dos homens pegou o celular. — Já vou mandar o pessoal. Marcelo completou: — Nada de erro… ela não pode desconfiar ainda. — Entendido. Enquanto isso, na casa de Rebeca, ela se arrumava para o trabalho. — Hoje vai ser corrido… tô sentindo. Rafael respondeu encostado na porta. — Qualquer coisa me liga. Ela sorriu. — Você tá mais protetor que o normal. — Depois de ontem… eu tô mesmo. Ela se aproximou e beijou ele. — Vai ficar tudo bem. Rafael não respondeu de imediato. — Espero que sim. Do lado de fora, um carro passou devagar. Um homem dentro observava. — Saindo agora… confirmando rotina. No telefone, outro respondeu: — Continua seguindo. Rebeca entrou no carro sem perceber. Seguiu para a loja. No quartel, Daniel também começava o dia. — Bom dia. — Bom dia — Roberto respondeu. Rafael chegou logo depois. — Dia começou tranquilo… estranho até. Daniel comentou: — Melhor assim. Rafael olhou para ele por um segundo. — Nem sempre. De volta à rua, o carro continuava seguindo Rebeca à distância. — Ela entrou no shopping… loja confirmada. — Ótimo — a voz de Marcelo veio no telefone. — Próximo passo? Marcelo respondeu com calma. — Agora a gente aparece… de leve. — Você vai? — Vou. Algum tempo depois, Marcelo entrou no shopping como qualquer outra pessoa. Andava tranquilo, olhar discreto, mas atento. — Tô dentro. — Loja no segundo piso — o homem orientou. Marcelo subiu devagar. Quando chegou, parou alguns metros antes. Observou. Rebeca atendia uma cliente. Sorrindo. Natural. Camila organizava roupas. Carla no caixa. Marcelo cruzou os braços. — Então é assim que você vive agora… — Vai entrar? Ele respondeu baixo. — Ainda não. — Então o quê? Marcelo deu um leve sorriso. — Primeiro… eu deixo ela me ver. Ele caminhou lentamente até a frente da loja. Parou. Olhou direto para dentro. Rebeca, distraída, levantou o olhar por um segundo… e encontrou os olhos dele. Marcelo não desviou. Apenas sustentou o olhar… por alguns segundos. Depois… virou e saiu andando. Do lado de dentro, Rebeca franziu a testa. — Estranho… Carla perguntou: — O que foi? — Nada… achei que alguém tava me olhando. Do lado de fora, Marcelo já se afastava. — Pronto… começou. — Ela percebeu? — Só o suficiente. — E agora? Marcelo sorriu frio. — Agora… ela vai começar a pensar nisso. E, sem saber por quê… Rebeca realmente começou a sentir. Algo… estava errado.
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