A noite seguiu silenciosa, mas o perigo já tinha começado a se mover.
No esconderijo, Marcelo não perdeu tempo. Abriu um mapa da cidade sobre a mesa, algumas fotos antigas espalhadas ao lado, entre elas uma da família de Daniel anos atrás.
— Ele tá exposto demais… isso facilita.
Um dos homens ao lado perguntou:
— Vai direto nele?
Marcelo negou com a cabeça.
— Não… assim não tem graça.
Ele apontou para a imagem na televisão, agora pausada.
— Ele tem uma vida agora… amigos… mulher…
Outro homem riu.
— Então você vai por eles.
Marcelo olhou frio.
— Eu vou fazer ele sentir… aos poucos.
Enquanto isso, Daniel ainda estava acordado, inquieto. Caminhava pela sala sem parar, tentando organizar os pensamentos.
— Isso não vai dar em nada… eu tô fora disso…
Mas nem ele parecia acreditar totalmente no que dizia.
O celular vibrou. Era Camila.
— Oi, amor… você tá bem?
— Tô sim… só pensando.
— Vi você na televisão… você foi incrível.
Daniel fechou os olhos por um segundo.
— Eu só fiz meu trabalho.
— Eu tenho orgulho de você.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Obrigado.
Do outro lado da cidade, Rafael também estava acordado. Sentado na varanda, olhando o celular. A notícia ainda aberta na tela.
— Tem alguma coisa errada…
Rebeca apareceu atrás dele.
— Você ainda tá pensando nisso?
— Tô…
Ela sentou ao lado dele.
— Rafael… ele salvou uma vida.
— Eu sei.
— Então por que você não consegue deixar isso pra lá?
Rafael respirou fundo.
— Porque não foi só isso…
Ela franziu a testa.
— O que você quer dizer?
— A forma que ele agiu… aquilo não é normal.
Rebeca ficou em silêncio.
— Talvez ele só saiba se defender…
— Talvez… — Rafael respondeu, sem convicção.
Na casa de Carla e Roberto, o clima era outro.
Ela deitada no peito dele, tranquila.
— Hoje foi um dos dias mais intensos da minha vida.
— E terminou bem — Roberto disse.
— Terminou perfeito.
Ela levantou a mão, olhando o anel novamente.
— Eu ainda não acredito.
Roberto sorriu.
— Se acostuma… você vai ver isso todo dia agora.
Ela riu.
— Ainda bem.
De volta ao esconderijo, Marcelo terminava de organizar tudo.
Pegou uma foto recente impressa da internet.
Daniel… ao lado dos amigos.
Ele observou cada rosto.
Parou em Rebeca.
— Então é você…
Um dos homens se aproximou.
— Já escolheu?
Marcelo deu um leve sorriso.
— Ainda não… mas eu sei por onde começar.
Ele guardou a foto.
O plano começava a tomar forma.
— Vamos ver até onde vai esse herói…
E, naquele momento…
sem que ninguém soubesse…
o perigo já tinha um alvo.
E estava cada vez mais perto.
Marcelo estava sentado, olhando as fotos espalhadas na mesa.
— Ele construiu uma vida… interessante.
Um dos homens perguntou:
— Vai atingir como?
Marcelo respondeu frio:
— Primeiro eu observo… depois eu entro.
Ele pegou a foto do grupo.
— Amigos… ponto fraco.
Apontou para Rafael.
— Esse aqui protege… então é problema.
Outro homem comentou:
— E as mulheres?
Marcelo sorriu de lado.
— Sempre são o caminho mais rápido.
Ele olhou mais uma vez para Rebeca.
— Mas não pode ser direto… ele precisa sentir aos poucos.
— Quer que a gente siga alguém?
— Quero rotina, horários, tudo.
Ele caminhou pelo lugar, pensativo.
— Descobre onde trabalham, onde moram, com quem andam.
— E depois?
— Depois eu apareço… quando ninguém esperar.
Um dos homens riu.
— Isso vai ser divertido.
Marcelo parou e encarou ele sério.
— Isso não é diversão… é acerto de contas.
Silêncio.
Ele voltou o olhar para a TV desligada.
— Ele tirou tudo de mim… agora eu tiro a paz dele.
— E o irmão dele?
Marcelo respondeu na hora.
— Fabiano não vai se meter… isso aqui é entre mim e ele.
— E se ele descobrir?
Marcelo deu um leve sorriso.
— Melhor ainda.
Ele pegou o celular e mostrou a foto de Daniel fardado.
— Herói…
A expressão endureceu.
— Vamos ver quanto tempo isso dura.
— Quando começamos?
Marcelo respondeu sem hesitar:
— Já começou.
Marcelo ficou alguns minutos em silêncio, olhando o celular. Depois levantou decidido.
— Vamos começar pelo mais fácil.
Um dos homens se aproximou.
— Quem?
Marcelo mostrou a tela com a foto da loja.
— Elas trabalham aqui.
— Vai mandar alguém lá?
— Não… ainda não.
Ele guardou o celular.
— Primeiro eu quero saber tudo.
— Já tenho dois caras na rua — o homem respondeu.
— Quero nome, rotina, quem abre a loja, quem fecha.
— Certo.
Marcelo andava de um lado pro outro.
— E o Daniel?
— Também já estamos puxando. Quartel, horários, equipe.
Marcelo assentiu.
— Não chega perto dele ainda.
— Por quê?
Ele parou e encarou o homem.
— Porque eu quero que ele fique por último .
Silêncio.
— A gente começa por fora… até ele perceber que tem algo errado.
— E depois?
Marcelo sorriu de leve.
— Depois ele vai lembrar de mim.
Um dos homens voltou com informações.
— Já temos um endereço.
Marcelo virou rápido.
— De quem?
— Da morena… Camila.
Ele pegou o papel.
— Interessante…
— Vai nela?
Marcelo pensou por um segundo.
— Não.
— Então quem?
Ele olhou novamente a foto do grupo. Parou em Rebeca.
— Essa aqui…
— Por quê?
Marcelo respondeu frio.
— Porque sim.
— Qual o plano?
Ele se aproximou da mesa, traçando com o dedo.
— A gente observa ela primeiro… segue, entende os caminhos.
— E depois?
Marcelo olhou fixo.
— Depois a gente chega perto… bem devagar.
— Quer susto ou algo maior?
Ele deu um sorriso frio.
— Eu quero medo.
Silêncio tomou conta do lugar.
— Hoje mesmo começa — Marcelo disse.
— Já vou avisar os caras.
Marcelo pegou a chave do carro.
— Não… dessa vez eu vou junto.
— Você mesmo?
Ele respondeu firme.
— Eu esperei anos por isso… não vou assistir de longe.
A porta se abriu.
— Vamos.
E naquele instante, o jogo começou de verdade.
O dia amanheceu aparentemente normal, mas Marcelo já estava acordado, olhando as anotações da noite anterior.
— Endereço confirmado… rotina iniciando.
Um dos homens perguntou:
— Qual o primeiro passo hoje?
Marcelo respondeu sem tirar os olhos do papel.
— Pequeno… quase invisível.
— Tipo o quê?
Ele levantou.
— Quero alguém passando na frente da casa dela… só observando.
— Só isso?
Marcelo olhou sério.
— Por enquanto.
— E a loja?
— Também… mas sem chamar atenção.
Um dos homens pegou o celular.
— Já vou mandar o pessoal.
Marcelo completou:
— Nada de erro… ela não pode desconfiar ainda.
— Entendido.
Enquanto isso, na casa de Rebeca, ela se arrumava para o trabalho.
— Hoje vai ser corrido… tô sentindo.
Rafael respondeu encostado na porta.
— Qualquer coisa me liga.
Ela sorriu.
— Você tá mais protetor que o normal.
— Depois de ontem… eu tô mesmo.
Ela se aproximou e beijou ele.
— Vai ficar tudo bem.
Rafael não respondeu de imediato.
— Espero que sim.
Do lado de fora, um carro passou devagar.
Um homem dentro observava.
— Saindo agora… confirmando rotina.
No telefone, outro respondeu:
— Continua seguindo.
Rebeca entrou no carro sem perceber.
Seguiu para a loja.
No quartel, Daniel também começava o dia.
— Bom dia.
— Bom dia — Roberto respondeu.
Rafael chegou logo depois.
— Dia começou tranquilo… estranho até.
Daniel comentou:
— Melhor assim.
Rafael olhou para ele por um segundo.
— Nem sempre.
De volta à rua, o carro continuava seguindo Rebeca à distância.
— Ela entrou no shopping… loja confirmada.
— Ótimo — a voz de Marcelo veio no telefone.
— Próximo passo?
Marcelo respondeu com calma.
— Agora a gente aparece… de leve.
— Você vai?
— Vou.
Algum tempo depois, Marcelo entrou no shopping como qualquer outra pessoa.
Andava tranquilo, olhar discreto, mas atento.
— Tô dentro.
— Loja no segundo piso — o homem orientou.
Marcelo subiu devagar.
Quando chegou, parou alguns metros antes.
Observou.
Rebeca atendia uma cliente.
Sorrindo.
Natural.
Camila organizava roupas.
Carla no caixa.
Marcelo cruzou os braços.
— Então é assim que você vive agora…
— Vai entrar?
Ele respondeu baixo.
— Ainda não.
— Então o quê?
Marcelo deu um leve sorriso.
— Primeiro… eu deixo ela me ver.
Ele caminhou lentamente até a frente da loja.
Parou.
Olhou direto para dentro.
Rebeca, distraída, levantou o olhar por um segundo…
e encontrou os olhos dele.
Marcelo não desviou.
Apenas sustentou o olhar… por alguns segundos.
Depois… virou e saiu andando.
Do lado de dentro, Rebeca franziu a testa.
— Estranho…
Carla perguntou:
— O que foi?
— Nada… achei que alguém tava me olhando.
Do lado de fora, Marcelo já se afastava.
— Pronto… começou.
— Ela percebeu?
— Só o suficiente.
— E agora?
Marcelo sorriu frio.
— Agora… ela vai começar a pensar nisso.
E, sem saber por quê…
Rebeca realmente começou a sentir.
Algo… estava errado.