Rebeca tentou voltar ao trabalho, mas a sensação não passava.
— Carla… você viu aquele homem?
— Que homem?
— Um que ficou olhando pra cá… estranho.
Camila se aproximou.
— Cliente?
— Não sei… ele nem entrou.
Carla deu de ombros.
— Deve ser coisa da sua cabeça.
Rebeca respirou fundo.
— É… pode ser.
Do lado de fora, Marcelo observava de longe.
— Ela sentiu.
Um dos homens respondeu no telefone.
— Foi rápido.
— Ela é atenta… isso é bom.
— Próximo passo?
Marcelo pensou por um segundo.
— Agora a gente aproxima mais.
— Como?
Ele respondeu frio.
— Pequenos sinais… até ela ter certeza que tem algo errado.
Na loja, o movimento aumentava, mas Rebeca ainda parecia inquieta.
— Eu tô com uma sensação r**m…
Camila olhou preocupada.
— Quer que eu vá lá fora ver?
— Não… deixa.
Carla brincou.
— É trauma de ontem.
Rebeca tentou sorrir.
— Deve ser isso mesmo.
Horas depois, o expediente estava quase acabando.
— Hoje eu vou fechar mais cedo — Carla disse.
— Eu também — Camila completou.
Rebeca assentiu.
— Tá… vamos juntas então.
Do lado de fora, Marcelo já estava posicionado.
— Elas tão saindo.
— Segue?
— Não… hoje eu vou fazer diferente.
— O quê?
Marcelo sorriu.
— Eu vou deixar um recado.
As três saíram da loja conversando.
Rindo, tentando relaxar.
Quando chegaram ao estacionamento, Rebeca parou de repente.
— Vocês mexeram no meu carro?
Carla franziu a testa.
— Não… por quê?
Rebeca apontou.
— Isso aqui…
Um papel preso no para-brisa.
Camila se aproximou.
— O que tá escrito?
Rebeca tirou o papel, mãos levemente trêmulas.
Leu em voz baixa.
— “Eu sei quem você é.”
Silêncio.
— Que brincadeira é essa? — Carla disse, nervosa.
Camila olhou ao redor.
— Isso não tem graça nenhuma.
Rebeca engoliu seco.
— Isso não é brincadeira…
Do outro lado do estacionamento, dentro do carro, Marcelo observava.
— Agora sim…
— Você acha que ela vai contar pra alguém?
— Com certeza.
— E isso não atrapalha?
Marcelo respondeu firme.
— Não… isso só aumenta o medo.
Rebeca pegou o celular.
— Eu vou ligar pro Rafael.
Carla segurou o braço dela.
— Calma… vamos pensar.
Camila disse baixo.
— Isso tá estranho demais…
Rebeca olhou novamente o papel.
— Isso não é coincidência.
No carro, Marcelo deu partida.
— Primeiro passo completo.
— E agora?
Ele respondeu frio.
— Agora… eu entro mais fundo.
Enquanto o carro se afastava, o clima no estacionamento ficava pesado.
E, pela primeira vez…
o medo deixou de ser só sensação.
Virou real.
Marcelo voltou para o esconderijo já com um plano mais definido. Jogou as chaves na mesa e o envelope com tudo que seus capangas conseguiram do grupo.
— Ela sentiu o primeiro toque.
Um dos homens falou:
— E agora?
— Medo de verdade vem quando a pessoa não tem certeza.
Ele pegou outra folha.
— Com as fotos da casa dela e seus horários diferentes.
— Já temos algumas.
— Quero mais… noite, manhã, tudo.
— E o Daniel?
Marcelo respondeu seco.
— Ainda não.
Um dos homens insistiu:
— Mas ele é o alvo principal.
Marcelo virou rápido.
— Justamente por isso… ele é o último.
Ele respirou fundo e continuou.
— Primeiro eu mexo com elá,e depois com o resto do grupo.
— Como?
Marcelo sorriu de leve.
— Pequenos acontecimentos… coincidências demais.
Ele pegou o celular e mostrou uma foto da loja.
— Amanhã alguém entra lá.
— Pra fazer o quê?
— Nada demais… só observar, comprar alguma coisa.
— E falar com ela?
— Ainda não… só presença.
Outro homem perguntou:
— E o próximo recado?
Marcelo pensou por alguns segundos.
— Vai ser mais pessoal.
— Tipo ameaça?
Ele negou.
— Não… algo que só ela entenda.
Silêncio.
— Quero saber o nome completo dela, família, tudo.
— Já estamos puxando isso.
— Quero rápido.
Ele caminhou pelo lugar, mais agitado agora.
— Ela vai começar a perder o sono… a olhar pros lados… a desconfiar de todo mundo.
— E o grupo?
— Vai tentar proteger… e é aí que eu entro.
Um dos homens riu.
— Você quer quebrar eles por dentro.
Marcelo respondeu frio.
— Eu quero ele vulnerável.
Ele parou e olhou novamente a foto de Daniel.
— Se eu chegar logo nele não vai ter graça.
— E se ele reagir antes?
Marcelo deu um leve sorriso.
— Melhor ainda.
Ele guardou as fotos.
— Hoje à noite… mais um passo.
— Qual?
Marcelo respondeu baixo.
— Ela não vai mais se sentir segura nem em casa.
Silêncio pesado.
— Prepara o carro.
— Já vou.
Marcelo pegou o casaco.
— O jogo só começou… e ela já tá dentro dele.
A noite caiu e Marcelo já estava em movimento. O carro parado a poucos metros da casa de Rebeca, faróis apagados.
— Luz da sala acesa… ela tá em casa.
Um dos homens respondeu no telefone.
— Confirmado, entrou faz pouco tempo.
Marcelo observava em silêncio.
— Hora do próximo passo.
— Vai entrar?
— Não… ainda não.
Ele pegou um pequeno objeto no banco.
— O que é isso?
— Só um aviso… mais próximo.
Marcelo saiu do carro com calma, andando pela rua como se fosse apenas mais um. Chegou até a frente da casa, rápido, preciso.
Colocou o objeto preso no portão e saiu sem fazer barulho.
De volta ao carro.
— Pronto.
— O que você deixou?
Marcelo respondeu frio.
— Algo que ela não vai esquecer.
Minutos depois, dentro da casa, Rebeca levantou para fechar tudo. Ainda estava inquieta.
— Eu não tô bem com isso…
Ela foi até a porta… e viu.
Parou na hora.
— Não… não…
Ela abriu devagar. No portão, uma corrente fina com um cadeado… e um papel preso.
Mãos tremendo, ela pegou o papel.
— “Você não está segura nem aqui.”
O coração disparou.
— Meu Deus…
Ela pegou o celular na hora.
— Rafael… atende… atende…
Do outro lado, Rafael atendeu rápido.
— O que foi?
— Tem alguém… alguém tá mexendo comigo…
— Calma, o que aconteceu?
— Tem um recado aqui… na minha casa… isso não é normal!
Rafael já se levantou.
— Fica aí, eu tô indo agora.
Pouco tempo depois, ele chegou.
— Onde tá?
Rebeca mostrou, ainda assustada.
— Aqui… olha isso…
Rafael leu o papel, o rosto fechando na hora.
— Isso não é brincadeira.
— Eu falei… eu senti isso o dia todo.
— Você não vai ficar sozinha.
Ele pegou o celular.
— Vou chamar o pessoal.
Algum tempo depois, todos estavam reunidos na casa de Lucas, o único lugar que parecia mais seguro naquele momento.
O clima era totalmente diferente das outras vezes.
— Explica direito — Lucas disse.
Rebeca respirou fundo.
— Desde hoje mais cedo… eu senti que tinha alguém me olhando… depois apareceu aquele bilhete no carro…
Camila completou:
— E agora isso na casa dela.
Carla estava nervosa.
— Isso tá ficando sério demais.
Rafael mostrou o papel.
— Isso aqui não é coincidência.
Silêncio.
Daniel observava tudo, mais tenso que o normal.
— Alguém tá fazendo isso de propósito — Roberto disse.
— Mas quem? — Carla perguntou.
Rebeca balançou a cabeça.
— Eu não faço ideia…
Todos ficaram em silêncio por um momento.
Lucas quebrou o clima.
— A gente não vai deixar isso acontecer com você.
— Você não fica mais sozinha — Camila disse.
Rafael olhou firme.
— Quem quer que seja… mexeu com a pessoa errada.
Daniel finalmente falou, mais sério do que nunca.
— Isso não é alguém qualquer.
Todos olharam pra ele.
— Como você sabe? — Rafael perguntou.
Daniel respondeu baixo.
— Porque isso tá planejado… passo a passo.
Silêncio pesado.
Rebeca olhou pra ele, assustada.
— O que isso significa?
Daniel desviou o olhar por um segundo.
— Significa que isso não vai parar tão cedo.
O clima ficou ainda mais tenso.
Enquanto isso, do lado de fora, dentro de um carro estacionado longe dali, Marcelo observava a casa.
— Todos juntos… melhor do que eu esperava.
— Vai fazer algo agora?
Marcelo sorriu de leve.
— Não… agora eu só assisto.
Ele ligou o carro devagar.
— O medo já começou… agora é só alimentar.
E enquanto o grupo tentava entender o que estava acontecendo…