A noite ainda nem tinha começado direito… e já estava pesada.
Dentro da casa, o clima era de despedida — mesmo que ninguém tivesse coragem de chamar assim.
Rafael pegou a chave, decidido.
— Eu vou.
Rebeca levantou rápido, indo até ele. — Não… por favor…
Ele segurou o rosto dela com cuidado, os olhos presos nos dela.
— Eu preciso fazer isso.
— Eu tô com medo… — ela sussurrou.
Rafael não respondeu com palavras.
Só se aproximou…
e deu um beijo nela.
Demorado.
Intenso.
Como se pudesse ser o último.
Rebeca segurou a camisa dele, sem querer soltar. — Volta pra mim…
— Eu volto — ele disse baixo.
Do outro lado, Camila já chorava sem conseguir esconder. — Isso tá errado… isso tá muito errado…
Daniel apareceu ao lado da porta. — A gente já perdeu tempo demais.
Rafael assentiu.
E os dois saíram.
O carro cortava a rua em silêncio.
— Esse endereço… — Rafael começou.
— É armadilha — Daniel completou.
— Mesmo assim a gente tá indo.
Daniel olhou pra frente, sério. — Porque agora ele espera isso.
Silêncio.
— E quando a gente faz o que ele espera… — Rafael disse.
— A gente entra no jogo dele — Daniel finalizou.
Enquanto isso…
do outro lado da cidade…
Jéssica saía da faculdade distraída.
Fone no ouvido.
Celular na mão.
Nem percebeu o carro encostando devagar.
— Jéssica?
Ela virou.
Tempo suficiente pra ver dois homens descendo.
— Ei, o que vocês—
Não terminou.
Um pano.
Um puxão.
E tudo ficou escuro.
Minutos depois…
ela acordou.
Confusa.
Tonta.
Amarrada.
Numa cadeira.
Um pano prendendo sua boca.
O lugar era escuro.
Velho.
Silencioso.
Tentou se mexer.
Não conseguiu.
O desespero começou a crescer.
O carro de Rafael parou na rua.
— É aqui — Daniel disse, olhando a casa abandonada.
— Tá aberto… — Rafael murmurou.
— Claro que tá.
Daniel abriu o porta-luvas.
Pegou a arma.
Rafael travou por um segundo…
mas não disse nada.
Só respirou fundo.
— Eu vou na frente — Daniel disse. — Eu cubro.
Eles desceram.
Entraram.
A porta rangeu.
Escuro.
Silêncio.
— Tem alguém aí? — Rafael chamou, tenso.
Nada.
Daniel avançava devagar, olhando tudo.
— Limpo… — disse baixo.
Até que…
um barulho.
Fraco.
Rafael virou na hora. — Você ouviu?
— Ouvi.
Rafael seguiu o som.
Cada passo mais pesado.
Mais tenso.
Parou diante de uma porta.
Respirou fundo.
E abriu.
Na mesma hora…
o mundo pareceu travar.
— JÉSSICA!
Ela estava lá.
Amarrada na cadeira.
Olhos cheios de lágrimas.
Desesperada.
Tentando gritar.
Rafael correu. — Calma! Eu tô aqui!
Arrancou o pano da boca dela.
— Rafa… — ela chorou, sem ar.
Ele começou a desamarrar. — Já passou… já passou…
Ela se jogou nele assim que ficou livre.
Tremendo.
Descontrolada.
Daniel apareceu na porta, olhando tudo.
— Ele fez exatamente o que eu pensei…
— O quê? — Rafael perguntou.
Daniel analisava o ambiente. — Tirou alguém do caminho… trouxe pra cá… e sumiu.
Silêncio.
Então…
faróis.
Lá fora.
Os três olharam.
Um carro.
Parado ao longe.
Piscando.
E então…
acelerou.
Sumindo na rua.
Daniel deu um passo à frente. — Eu vou—
Rafael segurou ele. — Não!
— É a chance!
— E ela?! — Rafael apontou.
Jéssica se agarrou mais nele.
Daniel parou.
Respirou fundo.
E viu o carro desaparecer.
— Ele quis isso… — disse, com raiva contida.
Rafael assentiu. — Ele quis que a gente visse.
Silêncio.
Pesado.
Daniel olhou mais uma vez pra casa.
— Isso não foi um sequestro comum.
Pausa.
— Foi encenação.
Rafael apertou Jéssica. — Então agora acabou.
Daniel virou o rosto pra ele.
Frio.
Direto.
— Não.
Pausa.
— Agora que começou de verdade.
O caminho de volta parecia mais longo do que nunca.
Dentro do carro, ninguém falava.
Jéssica estava encolhida no banco de trás, ainda tremendo, abraçada em si mesma.
Rafael dirigia com o maxilar travado.
Daniel, ao lado, em silêncio… mas pensando rápido.
Sempre um passo à frente.
Ou tentando estar.
— Ele quis mostrar que pode pegar qualquer um… — Rafael murmurou.
— E conseguiu — Daniel respondeu, seco.
Silêncio outra vez.
Quando chegaram na casa de Lucas…
todos já estavam lá.
A porta abriu antes mesmo deles baterem.
— E aí?! — Lucas perguntou, aflito.
Rebeca veio logo atrás… e quando viu Rafael, respirou aliviada.
Mas esse alívio durou pouco.
Porque viu Jéssica.
— Jéssica?!
Camila levou a mão à boca. — Meu Deus…
Jéssica não aguentou.
Assim que entrou…
se jogou nos braços de Lucas.
— Lucas… — ela chorava sem controle.
Ele segurou ela forte. — Calma… calma… você tá aqui… tá tudo bem…
Mas não estava.
Nunca esteve.
Todos se reuniram na sala.
O clima era pesado.
Rafael contou tudo.
Cada detalhe.
A casa.
As cordas.
O carro.
O sumiço.
Quando terminou…
ninguém falou nada por alguns segundos.
Até que…
— Eles me pegaram na saída da faculdade… — Jéssica disse, ainda com a voz fraca.
Todos olharam pra ela.
— Eu nem vi… só… aconteceu…
Camila começou a chorar de novo. — A gente não tá seguro em lugar nenhum…
— Não mesmo — Roberto respondeu, sério.
Lucas passou a mão no cabelo, nervoso. — Então o que a gente faz agora?!
Ninguém respondeu.
Porque ninguém sabia.
Rebeca segurou a mão de Rafael. — Ele pode voltar…
Daniel estava quieto.
Pensando.
Ligando os pontos.
Até que…
o celular dele vibrou.
Ele olhou na hora.
— Fabiano.
Atendeu.
— Fala.
Do outro lado, a voz veio direta: — Consegui.
Daniel ficou sério. — O quê?
— O endereço.
Silêncio.
Todos na sala pararam.
O clima mudou na mesma hora.
— Tem certeza? — Daniel perguntou.
— Absoluta.
— Como?
— Não importa agora — Fabiano respondeu. — O cara tá lá. E não tá esperando visita.
Daniel apertou o celular. — Manda.
Segundos depois…
o celular vibrou.
Mensagem recebida.
Um endereço.
Real.
Diferente.
Pesado.
Daniel levantou o olhar devagar.
Rafael já entendeu. — Achou ele?
Daniel assentiu.
— Achou.
O ar ficou denso.
— Então acabou — Lucas disse, quase sem acreditar.
Daniel respondeu na mesma hora: — Não.
Pausa.
— Agora começa de verdade.
Rafael já estava pegando a chave de novo. — Então vamos.
Rebeca segurou ele na hora. — Você acabou de voltar!
— E agora eu vou terminar isso — ele respondeu.
— Não! — ela insistiu, desesperada.
Daniel interrompeu: — Dessa vez… não é igual.
Todos olharam pra ele.
— A gente não vai no impulso.
— E o que você sugere? — Roberto perguntou.
Daniel olhou o endereço de novo.
Frio.
Calculando.
— A gente vai… mas do jeito certo.
Silêncio.
— Porque dessa vez… — ele continuou —
Pausa.
— ou a gente para ele…
Ou…
ninguém terminou a frase.
Mas todos entenderam.
Jéssica apertou a mão de Lucas.
Camila chorava baixo.
Rebeca não soltava Rafael.