Capítulo 44

1149 Words
A noite ainda nem tinha começado direito… e já estava pesada. Dentro da casa, o clima era de despedida — mesmo que ninguém tivesse coragem de chamar assim. Rafael pegou a chave, decidido. — Eu vou. Rebeca levantou rápido, indo até ele. — Não… por favor… Ele segurou o rosto dela com cuidado, os olhos presos nos dela. — Eu preciso fazer isso. — Eu tô com medo… — ela sussurrou. Rafael não respondeu com palavras. Só se aproximou… e deu um beijo nela. Demorado. Intenso. Como se pudesse ser o último. Rebeca segurou a camisa dele, sem querer soltar. — Volta pra mim… — Eu volto — ele disse baixo. Do outro lado, Camila já chorava sem conseguir esconder. — Isso tá errado… isso tá muito errado… Daniel apareceu ao lado da porta. — A gente já perdeu tempo demais. Rafael assentiu. E os dois saíram. O carro cortava a rua em silêncio. — Esse endereço… — Rafael começou. — É armadilha — Daniel completou. — Mesmo assim a gente tá indo. Daniel olhou pra frente, sério. — Porque agora ele espera isso. Silêncio. — E quando a gente faz o que ele espera… — Rafael disse. — A gente entra no jogo dele — Daniel finalizou. Enquanto isso… do outro lado da cidade… Jéssica saía da faculdade distraída. Fone no ouvido. Celular na mão. Nem percebeu o carro encostando devagar. — Jéssica? Ela virou. Tempo suficiente pra ver dois homens descendo. — Ei, o que vocês— Não terminou. Um pano. Um puxão. E tudo ficou escuro. Minutos depois… ela acordou. Confusa. Tonta. Amarrada. Numa cadeira. Um pano prendendo sua boca. O lugar era escuro. Velho. Silencioso. Tentou se mexer. Não conseguiu. O desespero começou a crescer. O carro de Rafael parou na rua. — É aqui — Daniel disse, olhando a casa abandonada. — Tá aberto… — Rafael murmurou. — Claro que tá. Daniel abriu o porta-luvas. Pegou a arma. Rafael travou por um segundo… mas não disse nada. Só respirou fundo. — Eu vou na frente — Daniel disse. — Eu cubro. Eles desceram. Entraram. A porta rangeu. Escuro. Silêncio. — Tem alguém aí? — Rafael chamou, tenso. Nada. Daniel avançava devagar, olhando tudo. — Limpo… — disse baixo. Até que… um barulho. Fraco. Rafael virou na hora. — Você ouviu? — Ouvi. Rafael seguiu o som. Cada passo mais pesado. Mais tenso. Parou diante de uma porta. Respirou fundo. E abriu. Na mesma hora… o mundo pareceu travar. — JÉSSICA! Ela estava lá. Amarrada na cadeira. Olhos cheios de lágrimas. Desesperada. Tentando gritar. Rafael correu. — Calma! Eu tô aqui! Arrancou o pano da boca dela. — Rafa… — ela chorou, sem ar. Ele começou a desamarrar. — Já passou… já passou… Ela se jogou nele assim que ficou livre. Tremendo. Descontrolada. Daniel apareceu na porta, olhando tudo. — Ele fez exatamente o que eu pensei… — O quê? — Rafael perguntou. Daniel analisava o ambiente. — Tirou alguém do caminho… trouxe pra cá… e sumiu. Silêncio. Então… faróis. Lá fora. Os três olharam. Um carro. Parado ao longe. Piscando. E então… acelerou. Sumindo na rua. Daniel deu um passo à frente. — Eu vou— Rafael segurou ele. — Não! — É a chance! — E ela?! — Rafael apontou. Jéssica se agarrou mais nele. Daniel parou. Respirou fundo. E viu o carro desaparecer. — Ele quis isso… — disse, com raiva contida. Rafael assentiu. — Ele quis que a gente visse. Silêncio. Pesado. Daniel olhou mais uma vez pra casa. — Isso não foi um sequestro comum. Pausa. — Foi encenação. Rafael apertou Jéssica. — Então agora acabou. Daniel virou o rosto pra ele. Frio. Direto. — Não. Pausa. — Agora que começou de verdade. O caminho de volta parecia mais longo do que nunca. Dentro do carro, ninguém falava. Jéssica estava encolhida no banco de trás, ainda tremendo, abraçada em si mesma. Rafael dirigia com o maxilar travado. Daniel, ao lado, em silêncio… mas pensando rápido. Sempre um passo à frente. Ou tentando estar. — Ele quis mostrar que pode pegar qualquer um… — Rafael murmurou. — E conseguiu — Daniel respondeu, seco. Silêncio outra vez. Quando chegaram na casa de Lucas… todos já estavam lá. A porta abriu antes mesmo deles baterem. — E aí?! — Lucas perguntou, aflito. Rebeca veio logo atrás… e quando viu Rafael, respirou aliviada. Mas esse alívio durou pouco. Porque viu Jéssica. — Jéssica?! Camila levou a mão à boca. — Meu Deus… Jéssica não aguentou. Assim que entrou… se jogou nos braços de Lucas. — Lucas… — ela chorava sem controle. Ele segurou ela forte. — Calma… calma… você tá aqui… tá tudo bem… Mas não estava. Nunca esteve. Todos se reuniram na sala. O clima era pesado. Rafael contou tudo. Cada detalhe. A casa. As cordas. O carro. O sumiço. Quando terminou… ninguém falou nada por alguns segundos. Até que… — Eles me pegaram na saída da faculdade… — Jéssica disse, ainda com a voz fraca. Todos olharam pra ela. — Eu nem vi… só… aconteceu… Camila começou a chorar de novo. — A gente não tá seguro em lugar nenhum… — Não mesmo — Roberto respondeu, sério. Lucas passou a mão no cabelo, nervoso. — Então o que a gente faz agora?! Ninguém respondeu. Porque ninguém sabia. Rebeca segurou a mão de Rafael. — Ele pode voltar… Daniel estava quieto. Pensando. Ligando os pontos. Até que… o celular dele vibrou. Ele olhou na hora. — Fabiano. Atendeu. — Fala. Do outro lado, a voz veio direta: — Consegui. Daniel ficou sério. — O quê? — O endereço. Silêncio. Todos na sala pararam. O clima mudou na mesma hora. — Tem certeza? — Daniel perguntou. — Absoluta. — Como? — Não importa agora — Fabiano respondeu. — O cara tá lá. E não tá esperando visita. Daniel apertou o celular. — Manda. Segundos depois… o celular vibrou. Mensagem recebida. Um endereço. Real. Diferente. Pesado. Daniel levantou o olhar devagar. Rafael já entendeu. — Achou ele? Daniel assentiu. — Achou. O ar ficou denso. — Então acabou — Lucas disse, quase sem acreditar. Daniel respondeu na mesma hora: — Não. Pausa. — Agora começa de verdade. Rafael já estava pegando a chave de novo. — Então vamos. Rebeca segurou ele na hora. — Você acabou de voltar! — E agora eu vou terminar isso — ele respondeu. — Não! — ela insistiu, desesperada. Daniel interrompeu: — Dessa vez… não é igual. Todos olharam pra ele. — A gente não vai no impulso. — E o que você sugere? — Roberto perguntou. Daniel olhou o endereço de novo. Frio. Calculando. — A gente vai… mas do jeito certo. Silêncio. — Porque dessa vez… — ele continuou — Pausa. — ou a gente para ele… Ou… ninguém terminou a frase. Mas todos entenderam. Jéssica apertou a mão de Lucas. Camila chorava baixo. Rebeca não soltava Rafael.
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