A rua continuava silenciosa, mas dentro de Daniel tudo já estava em alerta.
Ele voltou para dentro da casa como se nada tivesse acontecido. O grupo ainda estava reunido na sala, tensão espalhada no ar.
Rafael olhou pra ele. — Onde você foi?
Daniel deu de ombros, simples. — Tomar um ar.
Lucas passou a mão no rosto, claramente abalado. — Isso tá errado… muito errado…
Rafael se aproximou da mesa novamente, olhando a caixa. — A gente precisa entender o que esse celular significa.
Camila falou, hesitante: — E se for de alguém… que ele já pegou?
Silêncio.
Ninguém quis responder.
Rebeca apertou mais forte a mão de Rafael. — Para… não fala isso…
Mas a ideia já tinha se instalado.
Daniel se aproximou da mesa devagar. Pegou o celular quebrado, observando cada detalhe. A sujeira… os arranhões… o estado.
— Isso aqui não é só ameaça — ele disse baixo.
Rafael cruzou os braços. — Então fala logo.
Daniel levantou o olhar. — Isso é mensagem direta.
— Pra quem? — Lucas perguntou.
— Pra mim.
O ambiente congelou.
— Como assim? — Carla falou, quase sussurrando.
Daniel colocou o celular de volta na mesa. — Esse cara não escolheu vocês por acaso.
Rafael ficou tenso. — Tá querendo dizer o quê?
Daniel respirou fundo. — Ele não tá atrás de vocês.
Pausa.
— Ele tá atrás de mim.
Explosão de reações.
— O QUÊ? — Lucas quase gritou.
— Você tá maluco? — Roberto falou.
Rebeca olhou assustada. — Daniel… que história é essa?
Daniel passou a mão no rosto, finalmente sem fugir. — Eu não queria envolver ninguém…
Rafael se aproximou, encarando ele. — Já envolveu. Agora fala.
Silêncio pesado.
— O nome dele é Marcelo.
O nome caiu como um peso.
— Marcelo quem? — Camila perguntou.
— Um cara que eu achei que tinha deixado pra trás.
— Achou? — Rafael rebateu. — Isso não parece coisa do passado.
Daniel assentiu, sério. — Porque não é mais.
Carla deu um passo pra trás. — O que você fez?
Daniel olhou direto pra ela. — Eu acabei com o negócio dele.
— Que negócio? — Lucas perguntou.
— Coisas que vocês não precisam saber.
Rafael perdeu a paciência. — Não, agora precisa sim!
Silêncio.
Daniel falou, firme: — Ele perdeu dinheiro… gente… poder.
— E agora ele quer você — Roberto concluiu.
— Não — Daniel corrigiu.
Pausa.
— Ele quer me quebrar.
Rebeca estava pálida. — E a gente?
Daniel fechou os olhos por um segundo. — Vocês são o caminho.
O clima ficou ainda mais pesado.
Lucas começou a andar de um lado pro outro. — Então isso tudo… é por sua causa?
Daniel não respondeu.
E o silêncio confirmou.
Rafael avançou um passo, com raiva contida. — Você trouxe isso pra gente.
— Eu tentei evitar — Daniel respondeu.
— Tentou m*l pra c*****o! — Lucas disparou.
— Chega! — Carla interrompeu, nervosa. — Isso não vai ajudar!
Camila estava quase chorando. — A gente tá em perigo…
Roberto tentou manter a calma. — Ok… respira… a gente precisa pensar.
Rafael ainda encarava Daniel. — Tem mais alguma coisa que a gente precisa saber?
Daniel hesitou.
E isso já foi resposta suficiente.
— Fala! — Rafael exigiu.
Daniel finalmente disse: — Ele não vai parar só com ameaça.
— Claro que não — Lucas respondeu, seco.
— Ele vai escolher alguém.
Silêncio absoluto.
Rebeca segurou o braço de Rafael com força. — Não…
Daniel continuou: — E quando isso acontecer…
Pausa.
— Vai ser rápido.
Carla começou a chorar baixo. — Eu não quero ficar aqui…
Camila abraçou ela. — A gente não vai sair sozinho… lembra?
Rafael respirou fundo, tentando retomar o controle. — Ok… então muda o plano.
Todos olharam pra ele.
— Se ele quer jogar…
Pausa.
— A gente vai jogar também.
Daniel levantou o olhar. — Isso é exatamente o que ele quer.
Rafael respondeu na mesma hora: — Então a gente faz melhor.
Silêncio.
— Como? — Roberto perguntou.
Rafael pensou por um segundo. — A gente vira isca.
— Tá louco? — Rebeca reagiu na hora.
— Não todos — Rafael continuou. — Mas alguém.
— Nem pensar — Daniel cortou.
Rafael encarou ele. — Você não manda aqui.
— Isso não é estratégia, é suicídio — Daniel rebateu.
— E ficar esperando é o quê? — Rafael devolveu.
O clima esquentou de vez.
Lucas entrou no meio. — Chega! Os dois!
Silêncio forçado.
Mas já era tarde.
A divisão tinha começado.
De um lado, Daniel — cautela, estratégia, espera.
Do outro, Rafael — ação, risco, confronto.
E no meio…
o resto do grupo.
Perdidos.
Com medo.
E sem saber em quem confiar.
Do lado de fora…
um carro passou devagar pela rua.
Vidros escuros.
Motor baixo.
Lento demais pra ser normal.
Dentro dele…
Marcelo observava a casa.
Um leve sorriso no rosto.
— Agora sim…
Ele pegou o celular, digitando uma nova mensagem.
Dentro da casa…
o celular de Camila vibrou.
Ela olhou, confusa. — Gente…
— O que foi? — Carla perguntou.
Camila ficou pálida na mesma hora. — Ele mandou mensagem…
— Lê — Rafael disse, tenso.
Camila engoliu seco.
— “Escolhe um… ou eu escolho por vocês.””
Silêncio.
Pesado.
Sufocante.
Daniel fechou os olhos devagar.
— Ele começou.
Rafael olhou ao redor.
Um por um.
Cada rosto.
Cada medo.
E percebeu…
Aquilo não era mais só um jogo psicológico.
Era uma contagem regressiva.
O silêncio depois da mensagem foi pior do que qualquer grito.
Ninguém se mexia.
Ninguém respirava direito.
— Isso não é real… — Carla murmurou, com a voz falhando.
Camila ainda segurava o celular, mãos tremendo. — Ele… ele quer que a gente escolha…
— A gente não vai escolher ninguém! — Rebeca falou na hora, desesperada.
Lucas passou a mão na cabeça. — Mas e se ele escolher?
Essa pergunta ficou no ar.
Pesada.
Perigosa.
Rafael respirou fundo, tentando manter o controle. — Ele tá blefando.
Daniel respondeu na mesma hora: — Não.
Rafael virou pra ele, irritado. — Você não pode ter certeza.
— Posso — Daniel disse, firme. — Esse tipo de cara não blefa.
Silêncio.
Camila começou a chorar de leve. — Eu quero ir embora…
Roberto se aproximou. — Ninguém vai sair sozinho.
— E ficar aqui muda o quê? — Lucas rebateu.
— Muda que a gente tá junto — Roberto respondeu.
Daniel olhou pra todos. — Ele quer exatamente isso… dividir a gente.
Rebeca falou, com a voz trêmula: — Ele já conseguiu…
E era verdade.
O medo já estava fazendo o trabalho por ele.
Rafael então tomou uma decisão.
— A gente não vai ficar esperando.
Daniel já balançou a cabeça. — Rafael…
— Não — ele cortou. — Chega de esperar. A gente precisa forçar ele a aparecer.
— Você não tá pensando direito — Daniel respondeu.
— E você tá pensando demais! — Rafael retrucou.
O clima voltou a esquentar.
Lucas entrou no meio novamente. — Então fala, Rafael. Qual é o plano?
Rafael olhou pra todos.
Pensou rápido.
— A gente dá o que ele quer.
Silêncio.
— Como assim? — Carla perguntou.
— A gente finge que escolheu alguém.
Rebeca arregalou os olhos. — Você tá louco?
— Não de verdade — Rafael continuou. — Mas a gente faz parecer real.
Daniel ficou sério. — Ele não é burro. Vai perceber.
— Não se a gente fizer direito — Rafael respondeu.
— Isso é arriscado demais — Daniel insistiu.
— Tudo aqui já é arriscado! — Rafael rebateu.
Pausa.
— Pelo menos assim… a gente controla alguma coisa.
Silêncio.
A ideia começou a entrar na cabeça deles.
Perigosa.
Mas… tentadora.
Lucas falou baixo: — E quem seria?
Ninguém respondeu.
Até que…
— Eu.
Todos viraram na mesma hora.
— Nem pensar! — Rebeca disse, quase gritando.
Rafael manteve o olhar firme. — Ele já tá de olho em mim.
Daniel deu um passo à frente. — Isso é exatamente o que ele quer.
— Então eu viro o problema — Rafael respondeu.
— Você vira o alvo — Daniel corrigiu.
— Eu já sou.
Silêncio.
Rebeca segurou o braço dele. — Não faz isso…
Rafael olhou pra ela, mais calmo. — É só encenação.
Daniel falou baixo: — Com esse cara… nada é “só”.
Pausa.
Mas Rafael já tinha decidido.
— A gente manda mensagem.
Camila ainda tremia. — O que?
Rafael pegou o celular dela devagar.
Digitou.
Todos olhando.
Tensos.
Ele mostrou antes de enviar:
— “Pode parar. A gente já escolheu. Sou eu.””
Rebeca balançou a cabeça, lágrimas nos olhos. — Não…
Daniel olhava fixo. — Se você mandar isso… não tem volta.
Rafael não desviou. — Já não tinha.
E enviou.
O som da mensagem sendo entregue ecoou na sala.
Como um tiro.
Ninguém falou nada.
Segundos passaram.
Pareciam horas.
Até que…
o celular vibrou.
Camila arregalou os olhos. — Ele respondeu…
— Lê — Daniel disse, tenso.
Ela abriu devagar.
A voz falhou na primeira tentativa.
— “Boa escolha.””
Silêncio.
Mas não acabou.
Outra mensagem chegou.
Mais uma vibração.
Camila leu, quase sem voz:
— “Então vem até mim.””
O ar sumiu da sala.
— Não… — Carla sussurrou.
Lucas ficou em choque. — Ele quer um encontro?
Daniel fechou os olhos por um segundo. — Ele acelerou o jogo…
Rafael perguntou: — O que ele mandou depois?
Camila mostrou o celular.
Um endereço.
E um horário.
— Hoje.
Rebeca começou a chorar de verdade. — Isso é uma armadilha…
Daniel respondeu, direto: — Óbvio que é.
Rafael pegou a chave do carro. — Então eu vou.
— Você não vai sozinho — Roberto disse na hora.
— Ninguém vai — Rebeca insistiu.
Daniel deu um passo à frente. — Eu vou com você.
Rafael olhou pra ele. — Achei que ia mandar eu não ir.
— Eu ainda acho — Daniel respondeu. — Mas agora… você já entrou no jogo.
Silêncio.
Pesado.
Sem volta.
Lucas falou baixo: — Se isso der errado…
Daniel respondeu, olhando pro endereço no celular: — Não é “se”.
Pausa.
— É “quando”.
Do lado de fora…
o mesmo carro continuava parado na rua.
Dentro…
Marcelo observava, satisfeito.
O celular dele vibrou.
Ele leu a mensagem enviada.
E sorriu.
— Veio até mim…
Encostou a cabeça no banco.
Tranquilo.
— Agora termina.
A noite caía de vez.
E pela primeira vez…
eles não estavam só sendo observados.
Agora…