Capítulo 30

1263 Words
Já era madrugada quando tudo terminou. A mansão estava silenciosa… elegante, imponente, como se nada do que tivesse acontecido horas antes tivesse existido. Daniel estava sozinho em um dos cômodos. Sentado, com o celular na mão. O olhar fixo na tela. Era uma foto de Rebeca. Sorrindo. Leve. Completamente distante daquele mundo. Ele passou o dedo pela tela, ampliando a imagem. Perdido. — Bonita. A voz veio atrás. Daniel nem precisou virar. — É. Fabiano se aproximou devagar, olhando por cima do ombro dele. — Quem é? Daniel hesitou por um segundo. Mas respondeu: — Namorada de um cara do quartel. Fabiano arqueou levemente a sobrancelha. — Só isso? Daniel travou o maxilar. — É. Fabiano deu um sorriso de lado. — Não parece “só isso”. O silêncio se instalou por um instante. Fabiano andou pelo cômodo, pensativo. — Você tá diferente desde que chegou. Daniel não respondeu. — Agora eu entendi — Fabiano continuou. — Tem mulher no meio. Daniel levantou o olhar. Mais sério. — Não começa. Fabiano riu baixo. — Relaxa… eu só tô entendendo o cenário. Ele parou de frente pra Daniel. — Então deixa eu ver se eu entendi… — disse. — Você, um dos nomes mais respeitados daqui… com tudo isso nas mãos… Fez um gesto ao redor. — Vai perder uma mulher… pra um bombeirinho? Daniel se levantou na hora. — Não fala assim. Fabiano deu um sorriso frio. — Por quê? É mentira? O clima pesou. — Se você quisesse… — Fabiano continuou, mais baixo — isso nem seria um problema. Pausa. — Era só eu mandar resolver. Daniel entendeu na hora. O olhar ficou duro. — Você tá falando do Rafael — disse. Fabiano deu de ombros. — Um nome a menos no mundo não muda nada pra mim. O silêncio ficou pesado. Perigoso. Daniel deu um passo à frente. — Você não vai encostar nele. Fabiano sustentou o olhar. — E por que não? Daniel respondeu sem hesitar: — Porque eu tô dizendo. Os dois ficaram se encarando por alguns segundos. Fabiano quebrou o clima com um leve riso. — Olha só… o herói ainda existe aí dentro. Daniel respirou fundo. Tentando se controlar. — Eu não quero isso — disse, mais baixo. — Não vou fazer nada com ninguém. Fabiano o observou por um instante. Analisando. — Você tá envolvido demais — comentou. Daniel desviou o olhar. — Cuidado… — Fabiano completou. — sentimento atrapalha. Ele começou a se afastar. Mas antes de sair, parou. — Só lembra de uma coisa… Olhou por cima do ombro. — Se você não decide… alguém decide por você. A porta se fechou. Daniel ficou sozinho. De novo. Olhou para o celular mais uma vez. A foto de Rebeca ainda ali. Mas agora… não parecia só desejo. Parecia conflito. A madrugada avançava… mas Daniel continuava acordado. Sentado, sozinho, o olhar perdido em algum ponto do quarto. Aquela casa… aquela vida… não eram novidade pra ele. Muito antes de vestir a farda de bombeiro… antes de tentar ser alguém diferente… Daniel já fazia parte daquilo. A família dele não era comum. Nunca foi. O pai deles construiu tudo. Um império. Silencioso. Organizado. Perigoso. Negócios que iam muito além do que qualquer pessoa de fora poderia imaginar. Transporte ilegal. Armas. Influência. Poder. E tudo funcionava como uma engrenagem perfeita. Sem falhas. Sem espaço pra erro. Desde novo, Daniel foi preparado. Treinado. Observado. Porque ele era o escolhido. O mais velho. O mais frio. O mais estratégico. O pai via nele o sucessor perfeito. Fabiano… sempre foi diferente. Mais impulsivo. Mais explosivo. Mas também… ambicioso. Enquanto Daniel aprendia a pensar… Fabiano aprendia a dominar. Os dois cresceram naquele mundo. Sem escolha. Sem saída. Daniel executava. Resolvia problemas. Nunca hesitava. Era o tipo de homem que fazia o que precisava ser feito… sem deixar rastro. Por isso… todos sabiam. Quando o pai morresse… quem assumiria seria Daniel. Mas tudo mudou. Porque, diferente do que esperavam… ele cansou. Cansou da violência. Do peso. Das decisões. Cansou de ser aquilo. E, pela primeira vez… ele escolheu. Sair. Foi uma ruptura. Forte. Inesperada. Fabiano não aceitou no começo. O pai… menos ainda. Mas Daniel não voltou atrás. E então… quando o pai morreu… não foi Daniel que assumiu. Foi Fabiano. E ele fez do jeito dele. Mais agressivo. Mais direto. Menos paciente. Mas eficiente. O império continuou. Forte. Temido. Só que diferente. E, mesmo fora… Daniel nunca se desligou completamente. Porque naquele mundo… ninguém sai de verdade. Você só… se afasta. E, às vezes… é puxado de volta. Como agora. Ele passou a mão no rosto. Pensativo. Sabia que Fabiano confiava nele. Mas também sabia… que o irmão não pensava duas vezes quando queria algo. E isso… era o perigo. Porque agora… não era só sobre negócios. Era pessoal. E quando esses dois mundos se misturam… as consequências nunca são pequenas. Daniel levantou. Foi até a janela. Olhou a cidade lá fora. Luzes. Movimento. Vida. Tão diferente da outra realidade que ele conhecia. E, mesmo assim… ele ainda estava preso entre as duas. Sem saber por quanto tempo conseguiria manter esse equilíbrio. Porque, no fundo… ele sabia. Uma hora… ia ter que escolher. E dessa vez… não dava mais pra fugir. A noite ainda pesava sobre Daniel. Mesmo depois de tudo… a missão, a conversa com Fabiano, as lembranças do passado… nada saía da cabeça dele. Ele pegou o celular novamente. Ficou alguns segundos olhando para a tela. Pensando. Até que decidiu ligar. Camila atendeu rápido. — Amor? A voz dela veio leve… mas com preocupação. — Oi… — Daniel respondeu, mais calmo. — Como tá seu pai? — ela perguntou na hora. Daniel fechou os olhos por um segundo antes de responder. — Tá melhor… foi mais um susto. Camila suspirou aliviada. — Ai, graças a Deus… eu fiquei preocupada. — Eu sei… — ele disse. — Mas já tá tudo controlado. Ele fez uns exames… tomou umas vitaminas… agora é só repouso. Mentira dita com naturalidade. Sem hesitação. — Que bom… — ela respondeu, mais tranquila. — Eu tava pensando em você o dia todo. Daniel ficou em silêncio por um instante. — Eu também — disse, mesmo que a cabeça dele estivesse em outro lugar. Camila sorriu do outro lado da linha. — Quando você volta? — Mais dois dias… — ele respondeu. — Resolvo umas coisas aqui e volto pra São Paulo. — Tá bom… tô com saudade. Ele apertou o celular na mão. — Eu também. Mas dessa vez… o peso da palavra foi diferente. — As meninas também perguntaram de você — Camila comentou. — A gente tá indo bem na loja… tá uma correria. Daniel forçou um leve sorriso, mesmo sozinho. — Que bom… fico feliz. — Quando você voltar, a gente comemora — ela disse. — A gente vê isso — respondeu. Mais frio do que antes. Quase sem perceber. Camila ficou em silêncio por um segundo. Sentiu. Mas não comentou. — Tá bom… se cuida aí, tá? — Pode deixar. — Boa noite. — Boa. A ligação terminou. Daniel ficou olhando para o celular por alguns segundos. A expressão voltou a endurecer. Porque, mesmo falando com ela… não era com ela que a mente dele estava. Ele bloqueou a tela. Respirou fundo. Do outro lado… Camila abaixou o celular devagar. O sorriso que tinha antes… já não era o mesmo. — Tá tudo bem? — Rebeca perguntou, vendo a expressão dela. Camila forçou um sorriso. — Tá… ele disse que o pai já tá melhor e ele chega daqui dois dias.
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