A noite foi chegando ao fim.
As conversas diminuíram, os copos foram esvaziando… e, aos poucos, cada um começou a se despedir.
— Foi bom demais — Roberto disse, se levantando.
— A gente repete — Carla respondeu.
Rebeca abraçou Camila.
— Amanhã cedo a gente se vê.
— Tô dentro — ela disse, sorrindo.
Rafael cumprimentou Daniel com um aperto de mão firme.
— Boa noite.
— Boa — Daniel respondeu, no mesmo tom.
Mas o olhar dos dois… ainda dizia mais do que as palavras.
Um por um, foram saindo.
Até que sobraram apenas Daniel e Camila.
— Vamos? — ela perguntou.
— Vamos — ele respondeu.
Na casa dele, o clima era diferente.
Silencioso.
Íntimo.
Camila entrou tirando os sapatos, mais à vontade.
— Eu gostei de hoje… — disse, se virando pra ele.
Daniel fechou a porta… e ficou olhando por um segundo.
— Eu também.
Ela se aproximou devagar.
— Você tava meio quieto…
— Cansado só — ele respondeu.
Camila não insistiu.
Apenas encostou nele.
— Vem cá…
Ele a abraçou.
E, por um momento…
ele se entregou ao momento sua mão começou a tirar as roupas da Camila como se tivesse pressa,e seus lábios começou a percorrer seu pescoço e deslizar em seus s***s,Camila se entregou por completo para aquele desejo.
Ao que tinha ali.
Daniel correspondeu.
O beijo foi intenso.
Quente.
Sexo sem pressa.
Sem interrupção.
Mas, no meio daquele momento…
algo mudou dentro dele.
Por um segundo…
o rosto que vinha à mente…
não era o de Camila.
Era o de Rebeca.
O sorriso.
O jeito.
O olhar.
Ele fechou os olhos com mais força.
Como se tentasse afastar aquilo.
Mas não conseguiu.
Camila, envolvida, não percebeu.
Para ela… era real.
Presente.
Mas, para ele…
começava a se misturar.
E aquilo…
tornava tudo ainda mais perigoso.
Depois, já mais calmos, deitados…
Camila apoiou a cabeça no peito dele.
— Eu gosto de estar com você… — disse, tranquila.
Daniel passou a mão no cabelo dela.
Mas o olhar estava distante.
— Eu também… — respondeu.
Mas, dessa vez…
nem ele acreditou totalmente no que disse.
Porque, mesmo ali…
com tudo aparentemente certo…
a mente dele ainda estava em outro lugar.
E esse sentimento…
só estava crescendo.
A madrugada estava silenciosa.
Camila já dormia tranquila, deitada ao lado de Daniel, com a respiração leve.
Mas ele…
não conseguia dormir.
O olhar perdido no teto.
A mente inquieta.
O celular vibrou sobre o criado-mudo.
Uma ligação.
Número conhecido.
Daniel franziu a testa na hora.
Atendeu rápido… mas se levantou imediatamente.
— Já volto — sussurrou, saindo do quarto sem fazer barulho.
Camila nem se mexeu.
Ele foi até a sala.
Fechou a porta com cuidado.
Só então falou:
— Fala.
Do outro lado…
uma voz firme.
Fria.
— Demorou pra atender.
Daniel passou a mão no rosto.
— Tava ocupado.
— Sempre ocupado… — respondeu o homem. — Ou tentando fugir?
O nome dele era Fabiano.
Irmão de Daniel.
E não era qualquer irmão.
Fabiano era o chefe de uma grande organização.
Um homem respeitado…
e temido.
— O que você quer? — Daniel perguntou, direto.
— Você.
Silêncio.
Pesado.
— Faz tempo que você tá sumido — Fabiano continuou. — E eu não gosto disso.
Daniel fechou os olhos por um segundo.
— Eu tô trabalhando.
— Bombeiro? — o tom veio carregado de ironia. — Desde quando você se contenta com pouco?
Daniel apertou o celular.
— Desde que eu quis sair disso.
Fabiano riu baixo.
— Você pode até tentar… mas isso nunca sai de você.
E era verdade.
Porque, por trás do bombeiro correto…
disciplinado.
existia alguém que já tinha vivido outra realidade.
Mais escura.
Mais perigosa.
E que, muitas vezes…
ainda era puxado de volta.
— Eu não quero me envolver — Daniel disse, firme.
— Você já está envolvido — Fabiano respondeu. — Sempre esteve.
O silêncio voltou.
— Eu preciso de você — Fabiano completou. — Tem coisa acontecendo… e eu não confio em mais ninguém.
Daniel respirou fundo.
Conflito.
Raiva.
Mas também…
lealdade.
— Eu vou pensar — disse.
— Não demora — Fabiano respondeu. — Porque quando eu precisar… eu vou chamar de novo.
A ligação caiu.
Daniel ficou parado.
O celular ainda na mão.
O olhar mais pesado.
Mais frio.
Aquele lado…
que ele tentava esconder…
estava ali.
Vivo.
Ele passou a mão no rosto.
Tentando se recompor.
Mas sabia.
Por mais que tentasse viver outra vida…
ser outra pessoa…
aquilo fazia parte dele.
E agora…
estava voltando.
Quando voltou pro quarto, Camila ainda dormia.
Tranquila.
Sem saber de nada.
Daniel deitou ao lado dela.
Mas dessa vez…
não havia paz.
Porque o passado tinha batido à porta.
E, cedo ou tarde…
ele teria que atender.
O dia amanheceu… mas Daniel não descansou de verdade.
Mesmo deitado ao lado de Camila, ele praticamente não dormiu.
A ligação ainda ecoava na cabeça.
A voz de Fabiano.
A pressão.
O passado.
Quando o despertador tocou, Camila se mexeu devagar.
— Bom dia… — disse, ainda sonolenta.
Daniel já estava sentado na beira da cama.
— Bom dia.
O tom… diferente.
Mais seco.
Ela percebeu na hora.
— Você nem dormiu, né?
— Dormi sim — ele respondeu, sem olhar pra ela.
Mentira.
Camila se levantou, se aproximando.
— Tem certeza que tá tudo bem?
Ele respirou fundo.
— Tá.
Curto.
Encerrando o assunto.
Ela não insistiu.
Mas sentiu.
Algo tinha mudado.
No quartel, mais tarde, Rafael também percebeu.
Daniel estava mais quieto.
Mais tenso.
Durante um atendimento, ele foi direto demais.
Frio.
Sem a mesma leveza de antes.
— Ei… calma — Roberto disse, em um momento.
— Eu tô calmo — Daniel respondeu, firme demais.
Rafael observava tudo.
Sem falar nada.
Mas guardando.
Depois, já no intervalo, ele se aproximou.
— Aconteceu alguma coisa?
Daniel nem olhou.
— Não.
— Tá estranho desde ontem.
— Impressão sua.
Rafael cruzou os braços.
— Não é.
Daniel levantou.
— Eu tenho coisa pra fazer.
E saiu.
Rafael ficou olhando.
Desconfiado.
Enquanto isso, na loja…
Camila também não conseguia ignorar.
— Ele tá diferente — disse, dobrando uma peça.
Carla olhou.
— Eu percebi ontem.
Rebeca tentou manter leve.
— Deve ser coisa do trabalho.
Camila balançou a cabeça.
— Não… é mais que isso.
Ela lembrou da noite.
Da distância.
Do olhar perdido.
— Parece que ele tá em outro lugar — completou.
Carla e Rebeca trocaram um olhar.
Agora… mais sérias.
Porque aquilo começava a se repetir.
E do outro lado…
Daniel estava sozinho.
Encostado na parede do quartel.
O celular na mão.
O olhar distante.
Uma mensagem de Fabiano:
"Não esquece quem você é."
Ele travou o maxilar.
Guardou o celular.
E naquele momento…
algo dentro dele começou a mudar.
Menos controle.
Mais impulsividade.
Mais frieza.
O tipo de mudança…
que não passa despercebida por muito tempo.