Capítulo 29

1159 Words
O comportamento de Daniel continuou estranho nos dias seguintes. Mais calado. Mais distante. E isso não passou despercebido por ninguém. No quartel, naquela manhã, ele tomou uma decisão. Procurou o superior e pediu alguns dias de licença. — Aconteceu alguma coisa? — perguntaram. Daniel respondeu sem hesitar: — Meu pai… ele não tá bem. Preciso ir pro Rio de Janeiro. A notícia correu rápido entre o grupo. Rafael foi um dos primeiros a saber. — Seu pai? — perguntou, surpreso. — É… piorou de repente — Daniel respondeu, mantendo o olhar firme. Roberto colocou a mão no ombro dele. — Vai lá… família em primeiro lugar. Rafael assentiu. — Qualquer coisa, avisa. Mas, no fundo… algo ainda incomodava. Na loja, Camila recebeu a notícia por mensagem. "Vou precisar viajar. Meu pai tá doente." Ela respondeu na hora: "Como assim? Ele tá bem?" Demorou um pouco… mas ele respondeu: "Vou ver isso pessoalmente. Depois te explico melhor." Camila ficou preocupada. — O que foi? — Rebeca perguntou. — O Daniel… o pai dele tá doente. Ele foi pro Rio. Rebeca levou a mão à boca. — Nossa… Carla franziu levemente a testa… mas não falou nada. — Espero que fique tudo bem — Camila disse, visivelmente abalada. Rebeca segurou a mão dela. — Vai dar certo. Mais tarde, antes de ir embora, todos desejaram melhoras. Mensagens. Apoio. Preocupação. E Daniel… agradeceu todas. Mas nenhuma daquelas palavras era baseada na verdade. Porque, horas depois… ele já estava na estrada. Bolsa no banco de trás. Olhar sério. Sem hesitação. O destino era claro. Rio de Janeiro. Mas não por causa de pai nenhum. Quando chegou à cidade, já era noite. Luzes acesas. Movimento intenso. Ele dirigiu por ruas que conhecia bem. Como alguém que já esteve ali muitas vezes. Até parar em frente a um lugar mais afastado. Discreto por fora. Mas imponente. Desceu do carro. Pegou a bolsa. E antes mesmo de bater… a porta se abriu. Um homem apareceu. — Ele tá te esperando. Daniel entrou. Sem dizer nada. E lá dentro… em um ambiente frio, elegante e silencioso… estava Fabiano. Sentado. Esperando. — Demorou — disse, com um leve sorriso. Daniel parou à frente dele. O olhar agora… já não era o mesmo de antes. — Eu vim — respondeu. E naquele momento… o bombeiro dava lugar… ao homem que ele tentava esconder. O ambiente era silencioso. Pesado. Chegando na mansão o ambiente era luxuoso… mas frio. Daniel entrou devagar, os olhos percorrendo o lugar como alguém que já conhecia cada detalhe. Fabiano continuava sentado, observando. Como um predador paciente. — Senta — disse, apontando a cadeira à frente. Daniel largou a bolsa no chão e se sentou, sem desviar o olhar. — Fala logo. Fabiano sorriu de leve. — Direto… como sempre. Ele se levantou, caminhando lentamente pelo espaço. — Eu não te chamei aqui à toa. Daniel cruzou os braços. — Eu imaginei. Fabiano parou atrás dele. — Tem uma carga chegando. Silêncio. — E? — Daniel perguntou. — E eu preciso de alguém que eu confie pra garantir que isso chegue… intacto. Daniel virou levemente o rosto. — Você tem gente pra isso. Fabiano deu uma leve risada. — Tenho… mas não confio em todos. Ele voltou para frente, encarando o irmão. — E isso aqui… não pode dar errado. Daniel já sabia. Aquilo não era algo simples. — O que é? — perguntou. Fabiano inclinou a cabeça. — Coisa grande. Resposta vaga. Como sempre. Daniel ficou em silêncio por alguns segundos. Pensando. — Eu saí disso — disse, firme. — Você sabe. Fabiano se aproximou. Mais sério agora. — Você nunca saiu. O olhar entre os dois ficou mais intenso. — Você só… fingiu. Daniel apertou o maxilar. — Eu tô construindo outra vida — disse. — Trabalho, rotina… gente que não tem nada a ver com isso. Fabiano observou. — E acha mesmo que isso apaga quem você é? Silêncio. Porque, no fundo… Daniel sabia a resposta. Fabiano continuou: — Eu não tô te pedindo pra voltar. Pausa. — Tô te pedindo pra fazer um trabalho. Daniel levantou. Andou alguns passos. Pensativo. — E depois? Fabiano sorriu. — Depois você volta pra sua vidinha de herói. A provocação ficou no ar. Daniel virou pra ele. — Última vez. Fabiano assentiu. Como se já esperasse. — Claro. Mas o olhar dele dizia outra coisa. — Quando? — Daniel perguntou. — Amanhã à noite. Daniel respirou fundo. Sabia que, ao aceitar… estava cruzando uma linha de novo. E dessa vez… talvez não fosse tão fácil voltar. Fabiano se aproximou e colocou a mão no ombro dele. — Eu sabia que podia contar com você. Daniel não respondeu. Porque, naquele momento… ele já sentia. Que estava se afastando de tudo que tentou construir. E se aproximando… de tudo que tentou deixar pra trás. A noite caiu pesada no Rio. O ar parecia mais denso… como se anunciasse que algo estava prestes a acontecer. Daniel estava pronto. Roupa escura. Expressão fria. Nada lembrava o bombeiro. Dentro do galpão, alguns homens já aguardavam. Armados. Atentos. Fabiano se aproximou. — A carga chega em vinte minutos. Daniel apenas assentiu. — E já sabemos que tem gente querendo interceptar — Fabiano completou. Daniel respirou fundo. — Então vai ter problema. Fabiano deu um leve sorriso. — É por isso que você tá aqui. O comboio chegou. Caminhão fechado. Movimento rápido. Tudo parecia sob controle… até deixar de estar. Um carro surgiu em alta velocidade. Depois outro. Homens descendo. Armas em punho. — Agora — Daniel disse, já se movendo. O confronto começou. Gritos. Correria. Disparos. Daniel não hesitou. Se moveu com precisão. Frio. Calculado. Um dos homens tentou avançar por trás. Daniel virou no tempo certo. Reagiu rápido. Sem pensar duas vezes. Outro tentou fugir com parte da carga. Daniel correu atrás. Derrubou. Recuperou. Não havia espaço pra erro. Nem pra dúvida. Naquele momento… ele não era mais o homem que salvava vidas. Era o homem que eliminava ameaças. O confronto durou minutos. Mas pareceu muito mais. Quando tudo acabou… o silêncio voltou. Pesado. Alguns homens caídos. Outros feridos. Daniel estava de pé. Respiração controlada. Olhar frio. — Tá limpo — disse. A carga estava intacta. Fabiano se aproximou devagar. Observando o cenário. Depois olhou para o irmão. — Eu sabia — disse, satisfeito. — Você não perde o jeito. Daniel não respondeu. Porque, naquele momento… não havia orgulho. Só a confirmação de algo que ele tentou negar. Aquilo ainda fazia parte dele. Os homens começaram a recolher tudo. Organizar. Missão concluída. Fabiano parou ao lado dele mais uma vez. — Viu? Rápido… eficiente… como sempre. Daniel olhou para frente. Distante. — Eu disse que era a última vez. Fabiano deu um leve sorriso. — A gente conversa sobre isso depois. Mas Daniel já sabia. Nada ali era “só uma vez”. E, enquanto deixava aquele lugar… uma sensação ficou. De que ele tinha cruzado um limite. De novo.
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