A noite no Rio ainda não tinha terminado.
E, para Daniel…
parecia que nunca terminaria.
Ele estava no quarto, tentando descansar, quando ouviu batidas rápidas na porta.
Firmes.
Urgentes.
— Entra — disse, já se levantando.
Um dos homens de Fabiano apareceu.
— Deu problema.
Daniel franziu a testa.
— Que tipo de problema?
— Parte da carga… sumiu.
Silêncio.
Pesado.
— Como assim “sumiu”? — Daniel perguntou, já sério.
— Um dos caras que tava na operação desapareceu… e levou uma parte.
Daniel passou a mão no rosto.
— Traidor…
— Fabiano quer você lá embaixo.
Não demorou.
Daniel já estava descendo as escadas.
O clima na casa tinha mudado completamente.
Mais tenso.
Mais carregado.
Fabiano estava no meio da sala, andando de um lado pro outro.
Irritado.
— Eu sabia… — ele disse, antes mesmo de Daniel falar algo. — Eu sabia que tinha alguém ali.
Daniel parou na frente dele.
— Quem foi?
Fabiano jogou uma foto na mesa.
— Esse.
Daniel pegou.
Reconheceu na hora.
Um dos homens da operação.
— Ele conhece os caminhos — Daniel disse. — Não foi impulso.
Fabiano assentiu.
— Foi planejado.
Silêncio.
— E você sabe o que acontece com traidor — Fabiano disse, olhando direto pra ele.
Daniel já sabia.
Sempre soube.
— Eu vou resolver — respondeu.
Fabiano deu um leve sorriso.
— Eu sei que vai.
Pouco tempo depois…
Daniel já estava na rua.
Agora não era mais missão.
Era caça.
Ele seguiu pistas.
Contatos.
Lugares onde aquele homem poderia estar.
Horas se passaram.
Até que encontrou.
Um galpão afastado.
Luzes baixas.
Movimento suspeito.
Daniel entrou.
Sem aviso.
O homem estava lá.
Tentando negociar a carga com outros.
Quando viu Daniel…
o desespero veio na hora.
— Eu posso explicar!
Daniel caminhou devagar.
Frio.
Controlado.
— Não precisa.
O clima ficou pesado.
Tenso.
— Eu só queria sair disso! — o homem disse, nervoso. — Eu precisava!
Daniel parou na frente dele.
Por um segundo…
algo passou pelo olhar dele.
Mas desapareceu rápido.
Porque ele já conhecia aquele discurso.
E sabia…
como aquilo terminava.
Minutos depois…
o silêncio voltou ao galpão.
A carga foi recuperada.
E o problema…
resolvido.
Quando voltou, Fabiano já esperava.
— E aí? — perguntou.
Daniel jogou a chave da caminhonete na mesa.
— Resolvido.
Fabiano sorriu.
Satisfeito.
— É por isso que eu confio em você.
Daniel não respondeu.
Porque, naquele momento…
o peso já era outro.
Mais uma vez…
ele tinha cruzado o limite.
Mais uma vez…
se afastado de tudo que estava construindo.
E, dessa vez…
não dava mais pra fingir que nada aconteceu.
Ele olhou para o celular.
Pensou em tudo.
Camila.
Rebeca.
Rafael.
E percebeu.
Quanto mais se envolvia aqui…
mais distante ficava de lá.
E talvez…
já estivesse longe demais.
Dois dias depois…
Daniel estava de voltando.
A viagem de retorno foi silenciosa.
Longa.
E pesada.
Mas, quando o carro parou…
e ele respirou fundo antes de descer…
o olhar já era outro.
Controlado.
O bombeiro.
Tinha voltado.
Camila foi a primeira a ver.
Assim que ele apareceu, abriu um sorriso e foi até ele.
— Você voltou!
Ela o abraçou forte.
Daniel correspondeu.
— Voltei.
— E seu pai? — ela perguntou, olhando nos olhos dele.
— Tá bem… já melhorou bastante.
Resposta pronta.
Sem falha.
Ela sorriu, aliviada.
— Que bom…
Rebeca e Carla também estavam por perto.
— Que bom que deu tudo certo — Rebeca disse.
— Melhoras pra ele — Carla completou.
Daniel agradeceu.
Educado.
Normal.
Nenhum olhar suspeito.
Nenhuma pergunta difícil.
Tudo… como ele precisava.
No quartel, mais tarde, a recepção foi a mesma.
— E aí, resolveu tudo? — Roberto perguntou.
— Resolvi — Daniel respondeu.
Rafael observou.
Em silêncio.
— E seu pai? — ele perguntou.
— Melhorando — Daniel disse, direto.
Rafael sustentou o olhar por um segundo a mais.
Como se tentasse ler algo.
Mas não encontrou nada.
Porque Daniel estava impecável.
Calmo.
Focado.
Sem sinais.
— Então tá tranquilo — Rafael disse, por fim.
Daniel apenas assentiu.
O dia seguiu.
Ocorrências.
Rotina.
Trabalho.
E ele agiu como sempre.
Ou até melhor.
Eficiente.
Preciso.
Sem espaço pra dúvida.
Na loja, à noite, Camila comentava:
— Ele voltou normal… acho que eu que tava exagerando.
Rebeca sorriu.
— Eu falei.
Carla, dessa vez, não discordou.
— Talvez a gente tenha criado coisa mesmo.
E assim…
o assunto morreu.
Pelo menos por enquanto.
Porque ninguém ali…
imaginava.
Que, horas antes…
Daniel estava em outro mundo.
Tomando decisões que não tinham volta.
Fazendo coisas que jamais poderiam ser descobertas.
E agora…
sentado ali…
conversando…
vivendo normalmente…
era como se nada tivesse acontecido.
Mas, por dentro…
ele sabia.
Aquilo não tinha acabado.
O dia de trabalho finalmente chegou ao fim.
Cansativo… mas produtivo.
No quartel, já mais relaxados, Roberto jogou a ideia:
— E se a gente for tomar uma na praia?
Lucas, que tinha aparecido por lá, já animou.
— Agora você falou minha língua.
Leandro riu.
— Bora… hoje merece.
Rafael olhou para Daniel.
— Vai?
Daniel hesitou por um segundo.
Mas respondeu:
— Vou.
Pouco depois, já estavam todos na beira da praia.
Noite agradável.
Brisa leve.
Som das ondas quebrando.
Lucas abriu uma cerveja e levantou.
— Hoje é só paz!
— Só paz — Roberto repetiu.
Rafael pegou o celular.
— Vou chamar as meninas.
Não demorou.
Rebeca, Carla e Camila chegaram animadas, rindo, entrando no clima na hora.
— Olha a bagunça — Carla brincou.
— Faltava vocês — Lucas respondeu.
Camila foi direto até Daniel, sorrindo.
— Já tava com saudade.
Ele puxou ela pela cintura.
— Eu também.
Dessa vez…
o gesto parecia mais natural.
Mais presente.
Rebeca sentou ao lado de Rafael, encostando nele.
— Eu precisava disso…
— Eu também — ele respondeu, beijando a testa dela.
A conversa foi fluindo.
Leve.
Solta.
Risadas.
Histórias.
Brincadeiras.
Lucas e Jéssica trocavam olhares constantes.
Carla e Roberto estavam cada vez mais próximos.
Rebeca e Rafael… tranquilos, firmes.
E Daniel…
estava ali.
No meio de tudo.
Rindo.
Participando.
Se integrando.
Sem deixar escapar nada.
Em um momento, Leandro levantou a garrafa.
— Um brinde!
— Ao quê? — Carla perguntou.
— A gente… — ele disse. — Porque depois de tudo… ainda estamos aqui.
Todos levantaram as bebidas.
— A gente!
As garrafas se encontraram.
E, naquele instante…
parecia verdade.
Não havia tensão.
Não havia suspeita.
Nem Rafael desconfiava mais.
Nem Carla questionava.
Nem Camila sentia distância.
Tudo estava leve.
E a amizade…
só crescia.
Mas, no meio daquela paz…
Daniel olhou para o mar por um segundo.
Em silêncio.
Porque ele sabia.
Aquilo era só um momento.
E, por trás daquele sorriso…
a tempestade ainda existia.
Só estava esperando a hora de voltar.