Capítulo 8

973 Words
A música ainda ecoava pela casa de piscina, misturada com risadas altas, copos tilintando e o som constante da água sendo agitada por alguém que pulava sem parar. O clima era de festa, mas para alguns, a noite tinha tomado um rumo bem mais intenso do que o esperado. Depois da cena de ciúmes que quase estragou tudo, o ambiente parecia dividido entre tensão e tentativa de voltar ao normal. Rebeca ainda sentia o coração acelerado. Ela estava sentada em uma das cadeiras próximas à mesa, tentando recuperar o controle da respiração. A discussão com a namorada de Leandro tinha sido pesada. As palavras ditas ainda ecoavam na cabeça dela, misturadas com o olhar desconfiado, quase acusador. Mas o que mais mexeu com ela não foi nem o ciúme em si. Foi a forma como Rafael apareceu. — Você tá melhor? — ele perguntou, sentado ao lado dela, com um tom mais suave do que o habitual. Rebeca olhou pra ele, ainda meio perdida. — Tô… tentando entender o que acabou de acontecer. Rafael soltou um leve sorriso de canto. — Às vezes nem vale a pena entender. Tem gente que já chega pronta pra brigar. Ela suspirou, cruzando os braços. — Eu nem fiz nada. — Eu sei — ele respondeu firme. — Por isso eu falei aquilo. Ela virou o rosto pra ele, curiosa. — Aquilo… de dizer que eu era sua namorada? Rafael deu de ombros, meio sem jeito. — Foi a única forma rápida de fazer ela parar. Por um segundo, o silêncio se instalou entre os dois. Não era desconfortável… mas também não era simples. Rebeca sentiu algo diferente ali. Não era só gratidão. — Você não precisava ter feito isso. — Precisava sim — ele respondeu, olhando direto nos olhos dela. — Eu não ia deixar ninguém te tratar daquele jeito. Aquilo mexeu com ela. Antes que ela pudesse responder, uma gargalhada alta veio da mesa ao lado. Carla. Rebeca virou o rosto e viu a amiga completamente entregue ao momento. Carla estava sentada na mesa, com as pernas cruzadas, rindo enquanto Roberto falava alguma coisa no ouvido dela. — Olha ela… — Rebeca murmurou, quase sorrindo pela primeira vez depois da confusão. — Sua amiga não perde tempo, né? — Rafael comentou, divertido. E como se fosse um sinal, Carla puxou Roberto pela camisa e o beijou ali mesmo, sem cerimônia nenhuma. O beijo foi intenso, sem vergonha, como se o resto da festa tivesse desaparecido. Algumas pessoas em volta assobiaram e gritaram, incentivando. Rebeca riu, balançando a cabeça. — Essa é a Carla que eu conheço. — Pelo jeito, ela superou rápido qualquer clima estranho — Rafael disse. — Ela não liga muito pra essas coisas… vive o momento. Rafael ficou em silêncio por um instante, observando Rebeca agora. — E você? Ela arqueou a sobrancelha. — Eu o quê? — Você vive o momento? A pergunta pegou ela desprevenida. Rebeca olhou pra piscina, pensativa. — Acho que… não tanto quanto eu gostaria. Rafael encostou na cadeira, relaxando. — Talvez você só não encontrou o momento certo ainda. Ela deu um meio sorriso. — Ou a pessoa certa. O olhar entre os dois mudou. Ficou mais intenso. Mais carregado. Mas antes que qualquer coisa pudesse acontecer, Carla apareceu do nada, puxando uma cadeira e sentando ao lado deles, ainda com o batom levemente borrado. — EU TÔ AMANDO ESSA FESTA! — ela disse, animada, pegando um copo da mesa. Rebeca riu. — Deu pra perceber. Carla olhou de Rebeca pra Rafael, com aquele olhar típico de quem já entendeu tudo sem ninguém precisar dizer nada. — Interrompi alguma coisa? — Não — os dois responderam quase ao mesmo tempo. Carla sorriu maliciosamente. — Sei… Ela deu um gole na bebida e se inclinou na direção de Rebeca, falando mais baixo: — E aí? Já tá melhor depois da doida ciumenta? Rebeca revirou os olhos. — Nem me lembra. — Ainda bem que o Rafael salvou, né? Rafael levantou as mãos, em tom de brincadeira. — Herói da noite. — Total — Carla confirmou. — Se não fosse você, aquela menina ia arrumar um barraco maior ainda. Rebeca olhou pra ele de novo, mais séria dessa vez. — Obrigada… de verdade. Ele assentiu, sem fazer alarde. — Sempre que precisar. Carla observava os dois como se estivesse assistindo a um filme. — Meu Deus, eu tô vendo química aqui — ela disse, sem filtro nenhum. — CARLA! — Rebeca falou, sem graça. Rafael riu. — Ela não mente, né? — Não ajuda também — Rebeca rebateu, rindo. A música aumentou novamente, e alguém começou a chamar o pessoal pra entrar na piscina. O clima da festa estava voltando com força total. Mas ali, naquela mesa, algo tinha mudado. Rebeca não estava mais pensando na discussão. Nem no constrangimento. Ela estava pensando em Rafael. Na forma como ele a defendeu. Na maneira como olhou pra ela. E, principalmente, no que ele disse. “Eu não ia deixar ninguém te tratar daquele jeito.” Carla se levantou de repente. — Eu vou voltar lá — disse, apontando pra onde Roberto estava. — Tenho assuntos pendentes. Rebeca riu. — Vai lá. Carla piscou pra ela. — Depois a gente conversa… E saiu, deixando os dois sozinhos novamente. O silêncio voltou, mas agora era diferente. Mais confortável. Mais cheio de possibilidades. Rafael se inclinou um pouco mais perto. — Então… sua amiga vai te deixar em paz agora? — Duvido — Rebeca respondeu, sorrindo. — Ainda bem. Ela inclinou a cabeça, curiosa. — Por quê? Ele olhou direto nos olhos dela. — Porque eu queria continuar essa conversa. O coração dela acelerou de novo. Mas dessa vez… não era por causa de problema. Era por algo completamente diferente. E talvez, só talvez, aquela noite ainda tivesse muito mais pra acontecer.
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