O caminho até a casa do pai de Miguel foi silencioso demais para ser confortável. O carro cortava a cidade sob a chuva pesada, os limpadores de para-brisa trabalhando em um ritmo constante que parecia marcar a tensão crescente dentro daquele espaço fechado. Mariana estava no banco do passageiro, o corpo ereto, as mãos entrelaçadas no colo com força suficiente para deixar os nós dos dedos esbranquiçados. Ela não olhava para Miguel, não porque não queria, mas porque tinha medo do que encontraria se olhasse fundo demais. Já Miguel mantinha os olhos fixos na estrada, a mandíbula travada, como se estivesse segurando dentro de si uma explosão inteira que ainda não podia acontecer. — Quando a gente chegar lá, eu vou conduzir essa conversa — ele disse, finalmente quebrando o silêncio, a voz contr

