Quem entra pela porta da frente?

1105 Words
Mariana não esperou muito. Ela até tentou seguir o dia como se nada tivesse acontecido, se ocupando com tarefas simples, evitando cruzar com ele mais do que o necessário, mas não deu. A sensação de estar presa em algo que ela mesma não aceitava foi crescendo de um jeito insuportável, apertando o peito, incomodando, fazendo com que cada pensamento voltasse pro mesmo ponto: aquilo não podia continuar daquele jeito. No fim da tarde, quando viu Miguel sozinho no escritório, ela não pensou duas vezes. Bateu na porta e entrou antes mesmo que ele respondesse, como se, se hesitasse, não teria coragem de falar o que precisava. Ele levantou os olhos na hora, surpreso, mas não desconfortável. Pelo contrário. O olhar dele ainda tinha aquele peso, aquela intensidade que sempre puxava ela de volta, e foi exatamente isso que fez Mariana se manter firme. — A gente precisa conversar — ela disse, fechando a porta atrás de si. Miguel apoiou os braços na mesa, observando ela com atenção, como se já imaginasse o rumo daquela conversa. — Eu imaginei que isso ia acontecer. — Então facilita pra mim e não complica — ela respondeu, cruzando os braços, mas sem se esconder atrás disso. — Porque eu não vou sair daqui sem uma resposta. O silêncio que se formou não era leve. Era tenso, carregado de tudo que vinha sendo empurrado pra depois. — Sobre o quê exatamente? — ele perguntou, mesmo sabendo. Mariana soltou um riso curto, sem humor. — Não se faz de desentendido, Miguel. Você sabe muito bem. Ele passou a mão pelo rosto, como se tentasse ganhar tempo, mas ela não deu. — Eu não posso continuar sendo parte disso — ela continuou, agora mais firme, mais direta. — Eu não vou ser pivô de traição, ainda mais nesse nível. Isso aqui já passou de qualquer limite aceitável faz tempo. Miguel ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo, mas sem interromper. — Você precisa decidir — ela completou, olhando direto pra ele. — Ou você resolve sua situação com a Olívia, ou isso acaba agora. Aquilo não era ameaça. Era limite. E ele percebeu. O olhar dele mudou, ficou mais sério, mais pesado, mas pela primeira vez… não tinha resposta pronta. — Mariana… — ele começou, mas parou. E isso foi tudo. Ela percebeu na hora. — Você não sabe — disse, mais baixo, mas com uma clareza que doía. — Você não consegue decidir. Miguel fechou os olhos por um segundo, passando a mão na nuca, visivelmente incomodado, algo raro nele. — Não é simples assim. — É sim — ela rebateu, sem levantar a voz, mas com firmeza. — Só não é fácil pra você. Ele não negou. E isso foi pior. — Tem coisas envolvidas, tem contrato, tem família, tem— — E tem eu — ela cortou, dando um passo à frente. — Ou não tem? O silêncio que se seguiu foi pesado. E dessa vez, ele não conseguiu responder. Mariana sentiu aquilo como um golpe direto. Não porque ela esperava uma declaração perfeita. Mas porque esperava… alguma escolha. Qualquer uma. — Entendi — ela disse, assentindo devagar, como se finalmente estivesse encaixando tudo. Miguel levantou o olhar na mesma hora. — Não é isso que você tá pensando. Ela soltou um riso sem humor, balançando a cabeça. — É exatamente isso. Eu só não queria admitir. Ele se aproximou um passo, como se quisesse impedir ela de continuar, mas ela não recuou. — Eu sou a mulher que você quer — ela disse, a voz firme, mas carregada de algo mais profundo — mas não a que você escolhe. Aquilo atingiu. Forte. Ele ficou em silêncio. — Eu sou a que fica escondida — ela continuou, agora mais baixa, mais amarga — a que você procura quando ninguém tá vendo, a que você beija quando pode… mas não é a que entra pela porta da frente. O olhar dele mudou. Pesado. Culpado. Mas ainda assim… indeciso. E foi isso que quebrou tudo. Mariana respirou fundo, como se estivesse segurando alguma coisa há tempo demais. — A Olívia é a mulher que você apresenta, que senta na mesa com você, que todo mundo vê. Eu sou a que você esconde no quarto. — Não fala assim — ele disse, baixo, dando mais um passo. — É assim — ela respondeu na mesma hora. — E o pior é que eu deixei. O silêncio ficou denso. Irrecuperável. — Eu não vou mais me colocar nesse lugar — ela disse por fim, mais calma, mas muito mais decidida. — Se você não consegue escolher… então eu escolho por mim. Miguel abriu a boca pra falar, mas ela não deixou. — Não — ela interrompeu, levantando a mão levemente. — Não tenta consertar agora. Porque você teve tempo. Teve oportunidade. E não fez nada. Ele travou. E dessa vez… não teve argumento. Mariana deu um passo pra trás, criando distância de vez. — A partir de agora, é só trabalho. Só isso. — Mariana— — Só trabalho, Miguel. A forma como ela disse não deixou espaço pra discussão. E pela primeira vez… ele não insistiu. Ela virou e saiu. Sem olhar pra trás. Sem hesitar. E quando a porta se fechou, o silêncio que ficou no escritório foi diferente de tudo que ele já tinha sentido. Porque não era só ausência. Era perda. Os dias seguintes foram estranhos. Frios. Distantes. Mariana fazia o trabalho dela perfeitamente, como sempre, mas sem olhar a mais, sem pausa desnecessária, sem qualquer brecha. Era profissional em cada detalhe, em cada movimento, em cada palavra. E isso… irritava. Não pela forma. Mas pelo que faltava. Miguel percebeu rápido. A ausência do olhar. Da provocação. Da tensão. Do jeito que ela reagia. Agora não tinha nada. E isso incomodava mais do que deveria. Muito mais. Ele tentou manter o mesmo controle de sempre, focar no trabalho, nas reuniões, nos compromissos, mas não adiantava. Em algum momento do dia, o pensamento sempre voltava pra ela. Pro jeito que ela falou. Pro jeito que ela saiu. Pra forma como, pela primeira vez, ela não deixou espaço pra ele. E aquilo… não era algo que ele estava acostumado a lidar. Na terceira noite, sozinho no quarto, o silêncio ficou insuportável. Não era falta de companhia. Era falta dela. Do jeito dela. Da presença dela. E foi nesse momento que ele entendeu uma coisa que vinha evitando desde o começo. Não era só desejo. Nunca foi. E agora… talvez fosse tarde. Mesmo assim, ele levantou. Porque ficar parado já não era mais uma opção. E pela primeira vez… Miguel foi atrás.
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