O que você causa

958 Words
Mariana não contou pra ele. Nem quando passaram pelo caixa. Nem quando ele estava distraído resolvendo o pagamento das outras peças. Nem quando guardou discretamente a sacola menor dentro das outras. Foi impulsivo. Mas não inconsequente. Pela primeira vez, ela não estava apenas acompanhando o ritmo dele… estava criando o próprio. E isso mudava tudo. Durante o caminho de volta, Miguel falava sobre coisas práticas — faculdade, horários, possibilidades, próximos passos — mas Mariana estava quieta demais, olhando pela janela, um leve sorriso escondido no canto da boca, como se guardasse um segredo que só fazia sentido pra ela. — Você tá muito calada — ele comentou, de relance. Ela virou o rosto devagar. — Só pensando. — Pensando em quê? Ela sustentou o olhar por um segundo, provocando sem entregar. — Em coisas que você ainda não sabe. O canto da boca dele subiu levemente. — Eu devia me preocupar? — Talvez… — respondeu, voltando a olhar pra frente. E aquilo ficou no ar. A noite chegou mais rápido do que ela esperava. E, pela primeira vez, Mariana não sentiu insegurança ao se preparar. Sentiu expectativa. O quarto estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave do abajur, e quando abriu a sacola e tirou a lingerie vermelha rendada, ficou alguns segundos olhando. Não era só sobre a peça. Era sobre o que ela representava. Escolha. Liberdade. Desejo sem culpa. Respirou fundo. E vestiu. O tecido encaixou no corpo como se tivesse sido feito pra ela, valorizando cada curva, contrastando com a pele bronzeada, destacando ainda mais os olhos verdes quando ela se olhou no espelho. O cabelo solto caía pelas costas, e o leve nervosismo que sentia não era de medo. Era de antecipação. — Agora você vai até o fim… — murmurou pra si mesma. E foi. Miguel estava no quarto, apoiado na cabeceira da cama, distraído com o celular, quando ouviu o som da porta abrindo devagar. Nem levantou o olhar de imediato. — Demorou… — começou a dizer, sem prestar atenção. Mas parou. Porque quando olhou… travou. O silêncio caiu pesado. Denso. Carregado. Mariana encostou na porta por um segundo, sem pressa, deixando que ele olhasse, deixando que absorvesse, e o efeito foi imediato. O olhar dele percorreu cada detalhe, lento, intenso, quase incrédulo, como se não estivesse preparado pra aquilo. — Você… — ele começou, mas não terminou. Ela deu um passo à frente. Depois outro. Sem quebrar o contato visual. — Eu o quê? — perguntou, a voz baixa, mas firme, diferente de antes. Miguel passou a mão pelo rosto, como se estivesse tentando se recompor, mas o olhar entregava que não estava conseguindo. — Você não faz ideia do que tá fazendo comigo agora. Mariana inclinou levemente a cabeça, se aproximando mais, o suficiente pra sentir a mudança no ar. — E se eu fizer? Aquilo foi o suficiente pra acabar com qualquer controle que ele ainda tentava manter. Miguel levantou na mesma hora, andando até ela com passos firmes, sem desviar o olhar, e quando parou na frente, a diferença de altura, a proximidade, o calor… tudo intensificou de uma vez. — Isso aqui foi sua ideia? — ele perguntou, a voz mais grave, mais baixa. Ela não recuou. — Foi. O olhar dele escureceu. — Então você vai ter que lidar com as consequências. O coração dela disparou. Mas ela não fugiu. — Eu acho que é exatamente isso que eu quero. Aquilo quebrou qualquer limite. Miguel segurou o rosto dela com firmeza e puxou pra um beijo intenso, direto, sem espaço pra hesitação, e Mariana respondeu na mesma hora, se entregando completamente, sem tentar controlar, sem tentar recuar. A diferença daquela noite pra todas as outras era clara: dessa vez, ela tinha começado. E ele… estava perdendo o controle. As mãos dele desceram pelo corpo dela com firmeza, puxando pra mais perto, como se quisesse eliminar qualquer espaço entre os dois, e o beijo aprofundou, carregado, urgente, fazendo ela soltar um suspiro baixo que só aumentou a intensidade do momento. — Você tá brincando com coisa séria… — ele murmurou contra os lábios dela. Mariana segurou na camisa dele, puxando levemente. — Eu não tô brincando. O olhar dele travou no dela por um segundo. E então… cedeu de vez. O corpo dela foi puxado com facilidade, o movimento conduzido por ele, mas sem apagar o fato de que tinha sido ela quem começou aquilo. O quarto pareceu diminuir, o ar mais quente, mais pesado, mais intenso, e tudo que existia era o toque, o calor, a forma como os dois se encaixavam sem esforço. — Você me deixa sem controle — ele disse, a voz baixa, carregada, olhando direto nos olhos dela. Mariana aproximou mais, sem hesitar. — Então não tenta controlar. E foi isso. A última barreira caiu. Horas depois, o quarto estava silencioso de novo, mas completamente diferente. Mariana estava deitada ao lado dele, a respiração ainda mais calma agora, mas o corpo ainda sensível, ainda vivo, e Miguel mantinha o braço sobre ela, como se não tivesse intenção nenhuma de soltar. — Você não vai sair ilesa depois disso — ele murmurou, passando a mão devagar pelo braço dela. Ela soltou um leve riso, virando o rosto pra ele. — Nem você. Miguel olhou pra ela com intensidade, mas dessa vez mais calma, mais profunda. — Eu não sei o que você fez hoje… — disse — mas você mudou alguma coisa. Mariana sustentou o olhar. — Eu só parei de esperar você começar tudo. O silêncio que veio foi diferente. Carregado de algo novo. De equilíbrio. E Miguel… sorriu de leve. — Então continua assim. Ela se aproximou mais, encostando nele. — Pode deixar. Porque agora… ela também sabia o poder que tinha
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD