Já era noite, Eleanor e Rae decidiram assistir a um filme antes de irem dormir, era uma tradição de todo sábado a noite que elas passavam juntas. Eleanor não prestou muita atenção no filme pois era a milésima vez que ela assistia "Miss Little Sunshine" mas ela adorava observar Rae, e o modo como ela sorria ou como ela franzia a testa de vez em quando, o modo como seus dedos retiravam com cuidado o cabelo da testa. Eram detalhes tão imperceptíveis, mas inexplicavelmente adoráveis. "O que está acontecendo comigo?" ela pensou.
— Você está com sono? — Rae perguntou a Eleanor e desligou a televisão.
─ Um pouco e você?
─ Não, estou meio agitada. ─ Rae a encarou.
─ Se quiser podemos assistir outro filme, Rae. Não me importo.
— Não, quero conversar com você.
— Conversar sobre o quê?
— Como seus olhos são extremamente verdes? — Rae sorriu e encarou o teto. — Tô brincando. No que você está pensando neste momento? — Era uma pergunta frequente que as duas faziam a outra de forma natural e sem nenhum motivo.
─ Em nada.
— Você nunca não está pensando em nada, Eleanor.
— Hmm. — Eleanor refletiu antes de traduzir seus pensamentos em palavras. — Pensando nisso tudo que aconteceu nas últimas vinte e quatro horas e como as coisas serão daqui pra frente.
─ Eu também penso nisso.
— Pensa?
— Claro que penso, Eleanor. Tudo isso é meio louco, tipo, você é minha melhor amiga e de repente você virou minha meio-irmã e está na mesma casa que eu, com o quarto ao meu lado.
— Nunca pensei que isso fosse acontecer.
— Você acha isso bom?
— Acho.
— Seja sincera, Elea. Você está odiando tudo isso, dá pra perceber, só queria entender o motivo. Ok, é tudo muito novo, mas é só isso mesmo?
— Seu pai é um cara legal, mas tenho um pouco de trauma, minha mãe e meu pai viviam brigando e se isso acontecer novamente?
— E se você parasse de tentar prever o futuro toda hora?
— Não consigo parar. — Eleanor disse sussurrando.
— Consegue sim, só preciso te distrair. — Rae pegou a mão de Eleanor e a colocou em seu próprio rosto. — Sua mão está quentinha.
— A sua está fria.
— O sol e a lua. — Foi a vez de Rae sussurrar.
— O sol e a lua. — Eleanor repetiu e fechou os olhos com a sensação da pele de Rae contra a sua. Ela odiva achar isso tão bom.
***
Eleanor abriu os olhos com dificuldade, não tinha fechado a cortina na noite passada e o sol parecia entrar até pelo teto. Depois de se acostumar com a claridade ela olhou para o lado, Rae estava em um sono pesado, m*l se importando com a luz do sol peoo quarto todo. Seus cabelos escuros estavam desgrenhados e seu rosto transmitia tanta tranquilidade que Eleanor teve inveja e o pensou se passava essa impressão enquanto dormia, "provavelmente não" ela concluiu.
Ela levantou-se e foi tomar o café da manhã. Era domingo, provavelmente Colette e John iam ficar em casa o dia todo.
— Bom dia. — Eleanor disse a sua mãe quando chegou à cozinha, Colette estava preparando ovos mexidos com bacon.
— Bom dia, filha. Dormiu bem?
— Sim, Rae dormiu comigo.
— Ah... — Colette ficou surpresa. — Acho que morar na mesma casa não basta para vocês. — Ela pegou uma tigela e colocou os ovos mexidos nela. — Enfim, o carro de mudança já trouxe nossas coisas, mas ainda sobraram alguns itens pequenos para buscarmos.
─ Entendo, vai ir lá hoje?
— Provavelmente daqui a pouco.
— Bom dia, Eleanor. — John surgiu na cozinha, ele ainda estava de pijama e pantufas. — Bom dia, meu bem. — Ele deu um beijo na testa de Colette.
— Bom dia, John. — Eleanor disse e pegou um copo de suco e um pouco de bacon. Comeu sem pressa enquanto via John ajudar sua mãe a lavar as louças, e depois voltou para seu quarto. Eram oito horas da manhã, Rae não ia gostar que Eleanor a acordasse apenas para ir em uma casa antiga pegar velharias, então trocou-se em silêncio e saiu sem fazer barulho.
Ela deitou no imenso sofá na sala de estar e ficou jogando Subway Surfs enquanto esperava sua mãe se arrumar.
— Pronto, vamos lá? — Colette desceu as escadas depois de dez minutos.
— Aham.
As duas seguiram juntas em direção ao carro de Colette que havia passado a noite na rua, não fazia diferença guardá-lo ou não, era um quarteirão de pessoss ricas. Pessoas ricas não invadem e roubam carros.
─ O que ficou para trás? ─ Eleanor disse quando entrou no carro cheirando a essência de baunilha, o cheiro favorito de sua mãe.
─ Umas coisas antigas que deixei no sótão, nada muito importante.
Eleanor apoiou a cabeça no banco e ficou olhando a paisagem mudar conforme saíam do quarteirão, passaram por uma avenida pacata típica de um domingo de manhã e seguiram pela rua que ela conhecia cada milímetro, cada coqueiro, cada concreto rachado e duro.
— Eu vi que não gostou muito de ter Rae como meio-irmã. Pensei que fosse gostar. — Colette disse.
— Por que pensa isso?
─ Vi como você reagiu no almoço ontem.
— Não sei explicar. — Eleanor disse e era verdade, ela entendia porque não estava gostando de se mudar, de sua mãe namorar com John e das inseguranças que sentia, mas por que não conseguia gostar de ter Rae como meio-irmã? Por que isso a incomodava tanto? Bem no fundo ela achava que sabia, só não queria ter que lidad com aquele sentimento no momento. Poderia ficar guradado por algum tempo até que a poeira abaixasse.
— Você é do tipo daquelas pessoas que minhas colegas do trabalham comentam? Amam de longe?
— Quê? Não. Eu adoro ter ela por perto, isso realmente não é o problema.
Colette parou o carro para o alívio de Eleanor, a conversa ia acabar por ali, pelo menos por hoje.
As duas entraram na casa e subiram para o sotão, haviam apenas três caixas grandes no meio dele, estavam bem fechadas e uma tinha a etiqueta "Recordações" então era isso que sua mãe falou que era "Sem importância" e "Irrelevante".
Elas levaram as caixas com dificuldade até o carro e trancaram a casa, Eleanor olhou uma última vez para o lugar, agora doía menos sair dali, aos poucos a ferida ia se fechando, assim como a porta da velha casa que tinha "Eleanor" escrito com canetinha permanente rosa.
***
Já era quase onze da manhã, quando Eleanor voltou para seu novo quarto. Ela estava levando consigo a grande caixa de recordações para ver com calma mais tarde, colocou o objeto cuidado no fundo do closet e deitou ao lado de Rae que dormia serenamente. Ela aproveitou o momento para admirar a beleza da amiga, os cílios longos, os lábios bem desenhados e nariz fino. Ela desejou não achar Rae tão linda.
─ Gosta de me olhar? ─ Rae disse ainda de olhos fechados e Eleanor desviou o olhar com as bochechas coradas.
─ Está acordada desde quando?
─ Desde que deixou essa caixa aí. ─ Rae sentou na cama e esfregou os olhos. ─ Combinei com a Jane da gente passar o domingo na praia. O que acha?
─ Sabe que eu não gosto muito de praia, não é?
— Eu sei que você não gosta de muitas coisas e faço de tudo para não fazê-las, mas sou uma garota tropical, preciso de praia.
— Tudo bem, eu topo.
— E eu também marquei de irmos lá, porque adoro te irritar.
— É o que você mais faz. ─ Eleanor sorriu e jogou um travesseiro de leve em Rae.
─ E você gosta. ─ Rae fez um círculo na clavícula exposta de Eleanor por conta de sua regata e ela ficou imóvel observando o ato.
─ Gosto muito. ─ Eleanor disse tensa.
Rae sorriu divertidamente e se levantou.
─ Deixei nossa bolsa arrumada. Vou ir me aprontar, te vejo em quinze minutos?
─ Sim, capitã.