Capítulo Três

1370 Words
Já era noite, Eleanor e Rae decidiram assistir a um filme antes de irem dormir, era uma tradição de todo sábado a noite que elas passavam juntas. Eleanor não prestou muita atenção no filme pois era a milésima vez que ela assistia "Miss Little Sunshine" mas ela adorava observar Rae, e o modo como ela sorria ou como ela franzia a testa de vez em quando, o modo como seus dedos retiravam com cuidado o cabelo da testa. Eram detalhes tão imperceptíveis, mas inexplicavelmente adoráveis. "O que está acontecendo comigo?" ela pensou. — Você está com sono? — Rae perguntou a Eleanor e desligou a televisão. ─ Um pouco e você? ─ Não, estou meio agitada. ─ Rae a encarou. ─ Se quiser podemos assistir outro filme, Rae. Não me importo. — Não, quero conversar com você. — Conversar sobre o quê? — Como seus olhos são extremamente verdes? — Rae sorriu e encarou o teto. — Tô brincando. No que você está pensando neste momento? — Era uma pergunta frequente que as duas faziam a outra de forma natural e sem nenhum motivo. ─ Em nada. — Você nunca não está pensando em nada, Eleanor. — Hmm. — Eleanor refletiu antes de traduzir seus pensamentos em palavras. — Pensando nisso tudo que aconteceu nas últimas vinte e quatro horas e como as coisas serão daqui pra frente. ─ Eu também penso nisso. — Pensa? — Claro que penso, Eleanor. Tudo isso é meio louco, tipo, você é minha melhor amiga e de repente você virou minha meio-irmã e está na mesma casa que eu, com o quarto ao meu lado. — Nunca pensei que isso fosse acontecer. — Você acha isso bom? — Acho. — Seja sincera, Elea. Você está odiando tudo isso, dá pra perceber, só queria entender o motivo. Ok, é tudo muito novo, mas é só isso mesmo? — Seu pai é um cara legal, mas tenho um pouco de trauma, minha mãe e meu pai viviam brigando e se isso acontecer novamente? — E se você parasse de tentar prever o futuro toda hora? — Não consigo parar. — Eleanor disse sussurrando. — Consegue sim, só preciso te distrair. — Rae pegou a mão de Eleanor e a colocou em seu próprio rosto. — Sua mão está quentinha. — A sua está fria. — O sol e a lua. — Foi a vez de Rae sussurrar. — O sol e a lua. — Eleanor repetiu e fechou os olhos com a sensação da pele de Rae contra a sua. Ela odiva achar isso tão bom. *** Eleanor abriu os olhos com dificuldade, não tinha fechado a cortina na noite passada e o sol parecia entrar até pelo teto. Depois de se acostumar com a claridade ela olhou para o lado, Rae estava em um sono pesado, m*l se importando com a luz do sol peoo quarto todo. Seus cabelos escuros estavam desgrenhados e seu rosto transmitia tanta tranquilidade que Eleanor teve inveja e o pensou se passava essa impressão enquanto dormia, "provavelmente não" ela concluiu. Ela levantou-se e foi tomar o café da manhã. Era domingo, provavelmente Colette e John iam ficar em casa o dia todo. — Bom dia. — Eleanor disse a sua mãe quando chegou à cozinha, Colette estava preparando ovos mexidos com bacon. — Bom dia, filha. Dormiu bem? — Sim, Rae dormiu comigo. — Ah... — Colette ficou surpresa. — Acho que morar na mesma casa não basta para vocês. — Ela pegou uma tigela e colocou os ovos mexidos nela. — Enfim, o carro de mudança já trouxe nossas coisas, mas ainda sobraram alguns itens pequenos para buscarmos. ─ Entendo, vai ir lá hoje? — Provavelmente daqui a pouco. — Bom dia, Eleanor. — John surgiu na cozinha, ele ainda estava de pijama e pantufas. — Bom dia, meu bem. — Ele deu um beijo na testa de Colette. — Bom dia, John. — Eleanor disse e pegou um copo de suco e um pouco de bacon. Comeu sem pressa enquanto via John ajudar sua mãe a lavar as louças, e depois voltou para seu quarto. Eram oito horas da manhã, Rae não ia gostar que Eleanor a acordasse apenas para ir em uma casa antiga pegar velharias, então trocou-se em silêncio e saiu sem fazer barulho. Ela deitou no imenso sofá na sala de estar e ficou jogando Subway Surfs enquanto esperava sua mãe se arrumar. — Pronto, vamos lá? — Colette desceu as escadas depois de dez minutos. — Aham. As duas seguiram juntas em direção ao carro de Colette que havia passado a noite na rua, não fazia diferença guardá-lo ou não, era um quarteirão de pessoss ricas. Pessoas ricas não invadem e roubam carros. ─ O que ficou para trás? ─ Eleanor disse quando entrou no carro cheirando a essência de baunilha, o cheiro favorito de sua mãe. ─ Umas coisas antigas que deixei no sótão, nada muito importante. Eleanor apoiou a cabeça no banco e ficou olhando a paisagem mudar conforme saíam do quarteirão, passaram por uma avenida pacata típica de um domingo de manhã e seguiram pela rua que ela conhecia cada milímetro, cada coqueiro, cada concreto rachado e duro. — Eu vi que não gostou muito de ter Rae como meio-irmã. Pensei que fosse gostar. — Colette disse. — Por que pensa isso? ─ Vi como você reagiu no almoço ontem. — Não sei explicar. — Eleanor disse e era verdade, ela entendia porque não estava gostando de se mudar, de sua mãe namorar com John e das inseguranças que sentia, mas por que não conseguia gostar de ter Rae como meio-irmã? Por que isso a incomodava tanto? Bem no fundo ela achava que sabia, só não queria ter que lidad com aquele sentimento no momento. Poderia ficar guradado por algum tempo até que a poeira abaixasse. — Você é do tipo daquelas pessoas que minhas colegas do trabalham comentam? Amam de longe? — Quê? Não. Eu adoro ter ela por perto, isso realmente não é o problema. Colette parou o carro para o alívio de Eleanor, a conversa ia acabar por ali, pelo menos por hoje. As duas entraram na casa e subiram para o sotão, haviam apenas três caixas grandes no meio dele, estavam bem fechadas e uma tinha a etiqueta "Recordações" então era isso que sua mãe falou que era "Sem importância" e "Irrelevante". Elas levaram as caixas com dificuldade até o carro e trancaram a casa, Eleanor olhou uma última vez para o lugar, agora doía menos sair dali, aos poucos a ferida ia se fechando, assim como a porta da velha casa que tinha "Eleanor" escrito com canetinha permanente rosa. *** Já era quase onze da manhã, quando Eleanor voltou para seu novo quarto. Ela estava levando consigo a grande caixa de recordações para ver com calma mais tarde, colocou o objeto cuidado no fundo do closet e deitou ao lado de Rae que dormia serenamente. Ela aproveitou o momento para admirar a beleza da amiga, os cílios longos, os lábios bem desenhados e nariz fino. Ela desejou não achar Rae tão linda. ─ Gosta de me olhar? ─ Rae disse ainda de olhos fechados e Eleanor desviou o olhar com as bochechas coradas. ─ Está acordada desde quando? ─ Desde que deixou essa caixa aí. ─ Rae sentou na cama e esfregou os olhos. ─ Combinei com a Jane da gente passar o domingo na praia. O que acha? ─ Sabe que eu não gosto muito de praia, não é? — Eu sei que você não gosta de muitas coisas e faço de tudo para não fazê-las, mas sou uma garota tropical, preciso de praia. — Tudo bem, eu topo. — E eu também marquei de irmos lá, porque adoro te irritar. — É o que você mais faz. ─ Eleanor sorriu e jogou um travesseiro de leve em Rae. ─ E você gosta. ─ Rae fez um círculo na clavícula exposta de Eleanor por conta de sua regata e ela ficou imóvel observando o ato. ─ Gosto muito. ─ Eleanor disse tensa. Rae sorriu divertidamente e se levantou. ─ Deixei nossa bolsa arrumada. Vou ir me aprontar, te vejo em quinze minutos? ─ Sim, capitã.
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