— Helena, ela vai escapar! — Samuel avisa, indicando que a bola está descendo ladeira abaixo.
Isso eu já havia percebido, mas não consegui pegar o brinquedo antes. Agora, sou obrigada a correr pela ladeira para não perdermos a bola. Nós não temos muito dinheiro, papai e mamãe nunca me deram uma bola, ou uma boneca. Na verdade eu não tenho muitos brinquedos, os que eu consegui vieram em forma de doação. Além de vivermos com pouco, sendo difícil sobrar para a diversão, papai acha que brincar é perda de tempo. Ele prefere que eu passe meu tempo com a leitura da Bíblia, estudando sobre ela, ou na igreja com mamãe.
Mas todas as crianças da rua pediram aos seus pais uma bola, então eles se juntaram, dando suas poucas economias para comprar essa única bola que temos. Eu e minha família fomos a única que não demos nada. Agora, corro como se não houvesse amanhã. Samuel resolveu que devia me seguir. Hoje estamos apenas nós dois brincando, cada dia a bola fica na casa de uma criança diferente – tirando eu – e é a vez do Samuel guardar.
— Eu vou conseguir! — Garanto para ele aos gritos, mantendo os olhos na bola.
Papai e mamãe saíram, eles tem serviço voluntário toda sexta. É quando aproveito para sair e brincar com meus amigos. Mas não tenho muito tempo, então mesmo não sabendo direito as horas, eu sei que é quase hora de ir para casa ou terei problemas. Mas também não posso voltar sem alcançar nosso brinquedo que demorou tanto para conseguirmos, ainda mais eu sendo a única que não ajudou a compra-lo.
— LENA! — Sam não me deixa, mas mesmo ouvindo seu grito, eu não paro. É quando vejo que a bola parou em um buraco, no meio da pista.
Com a velocidade que eu corria, não consigo parar de primeira e quando tento usar meus pés como uma espécie de freio, meu corpo se choca com força nos paralelepípedos da rua. É um grande estrago, é doloroso. Meu joelho se parte, minhas mãos são esfoladas, arranhões estão por todo meu corpo. É normal para uma criança de oito anos, mas ainda dói. Dói muito. As lágrimas desesperadas em meu rosto comprovam isso.
Não consigo dizer nada, apenas choro e tremo com meu corpo franzino e machucado. Samuel me alcança, ele também não sabe o que fazer de início, me olhando em choque. Depois, ele me ajuda a sentar, tentando que eu fique de pé. Mas como levantar se nem consigo esticar minhas pernas?
— Eu disse que era para você parar, que não devia correr tanto. — Samuel não perde a oportunidade de dizer que estava certo. Garotos... — Menina teimosa!
— Eu já entendi, está bem? — Encaixo entre os soluços. — Pegue a bola, eu já vou levantar.
— Está bem. — Samuel se afasta de mim, indo calmamente buscar nosso brinquedo. Mas é aí que o horror começa.
Tudo é tão rápido que meu cérebro ainda tão pequeno não consegue acompanhar. Tudo bem, nós moramos em uma favela que sempre acontece coisas ruins. Papai e mamãe sempre falam do perigo, de tomar cuidado, de pessoas malvadas. Mas que espécie de monstro tiraria a vida de uma criança inocente de propósito?
A dor em meu corpo se torna nada, eu não sinto mais, porque cada parte minha está dormente.
Não há tempo nem de gritar, nem de me mover. Vários carros enormes, pretos e em alta velocidade nos alcança. Não são carros normais, não são pessoas sem controle passando, eles sabem o que estão fazendo. Suas armas estão apontadas para o lado de fora e eles não param quando veem o Samuel. Seu corpo pequeno, a nossa bola, o meu coração, tudo é esmagado pelo carro da frente que passa por cima dele, antes de parar.
Algo estranho acontece com meu estômago, um gosto amargo sobe por minha garganta e eu que havia levantado no susto, torno a despencar no chão em cima de meus joelhos machucados, em prantos e tremores.
Samuel é... Era... O meu melhor amigo. Ele estava comigo desde que eu nasci. No meu primeiro dia de aula, Samuel estava lá. A cada machucado, Samuel estava lá. Quando eu me lembro de momentos felizes, Samuel estava lá.
Agora, o corpo do meu amigo está debaixo de um carro, bem em minha frente. Eu quero correr até ele, ver se por um milagre ele ainda está respirando, se Deus não o levou de mim. Mas como estaria? Aquele carro grande... O esmagou.
O pior é quando o motorista desce. Não há arrependimento em seus olhos, não há dor, há apenas morte nos olhos castanhos claros, mas negros como o inferno. Mamãe e papai sempre me falaram sobre o d***o, mas agora, eu estou frente a frente com ele. Porque se existe o d***o, com certeza é esse homem.
Ele é o homem mais alto que já vi, é forte, muito forte. Seus cabelos são negros, assim como a roupa que ele veste. Me sinto ainda menor do que já sou quando esse homem mau olha para mim. Ele me encontra ajoelhada no chão, tremendo, e ousa sorrir para mim. Não consigo me mexer quando ele caminha até mim, como se algo me prendesse no chão.
Eu sinto medo, o maior medo que me foi apresentado. Mas ao mesmo tempo eu desejo que ele me mate, porque eu não quero viver em um mundo sem o Samuel. Não quero ver o corpo dele e seu sangue espirrando todas as vezes que eu for dormir. Quero ir com meu amigo, quero ir com o Sam.
Mesmo com os tremores em meu corpo, eu o observo. É possível ver uma tatuagem em sua mão direita, em forma de asas. O que representa? Com certeza não são de anjos. Mas os demônios foram anjos um dia, não foram? Em minha cabeça isso faz mais sentido, um anjo caído, um anjo da morte.
É isso que ele representa. Sua barba o deixa mais velho que aparentemente deve ser, seus olhos me fitam como se eu fosse um inseto. A escuridão que vejo neles, me assombrarão para sempre. A forma de andar dele mostra que é o dono do mundo, ou ao menos, de todas as vidas desse planeta. Eu só quero que a dor pare, que ele termine com isso.
— Estradas são perigosas, criança. — Sua voz apesar de jovem é tão dura que parece fazer meus tímpanos sangrarem. Ele pega sua mão tatuada e toca meus cabelos soltos, acariciando-os. — Seu amigo ficou no meu caminho.
Fecho os olhos, sentindo uma dor que eu não sei explicar, só sei sentir. É como se meu coração estivesse sufocando em meu próprio peito, é como se eu não conseguisse senti-lo bater. Não acho a voz, apenas continuo chorando em silêncio, sentindo o assassino com cheiro de morte com os dedos entranhados em meus fios lisos.
— Chefe, nós temos que ir. — Não abro os olhos, apenas ouço alguém chama-lo.
— Melhor ir para casa, criança. A morte está aqui agora. — Ele tira sua mão de mim e eu fico de pé não sei como. Olho para Samuel mais uma vez, desejo que fosse eu, mas não há nada que posso fazer.
Eu faço como ele falou, correndo sem parar sobre minhas pernas feridas até chegar em minha casa. É pequena, com uma porta de madeira azul e blocos sem tinta. Quando entro, sem saber de onde tirei tantas lágrimas, sinto um pouco de alívio por encontrar papai e mamãe em casa.
Queria dizer a eles o que aconteceu, queria contar como meu coração está sangrando, como a morte chegou para nós e que acabo de perder uma das pessoas mais importantes para mim. Samuel era mais que um amigo, era um irmão. Queria deitar minha cabeça no colo de mamãe e que ela acariciasse meus cabelos que agora há pouco estavam nos dedos do homem da tatuagem na mão. Queria o abraço do papai. Queria que eles me segurassem até a dor passar.
Mas no mesmo momento, eu vejo que isso é a última coisa que eles querem. Há raiva nos olhos deles. Papai não se importa com minhas lágrimas, nem com os machucados em meu corpo, os que são visíveis. Ele não deixa que eu mostre a ferida sangrando que acabo de ganhar em meu coração. Sinto sua mão apertar meu cabelo com força e começar a me arrastar.
Meu pai caminha comigo, apertando os dedos nos meus fios. Machuca, machuca muito. Não é minha primeira surra, mas tenho certeza que é a que mais vai doer. Sou arremessada no sofá. Abraço uma almofada, entranhando meu rosto na tentativa de que isso deixe tudo menos pior. Mas não, não deixa.
Eu sangro por dentro e por fora, mesmo assim, papai distribui lapiadas com seu cinto por todo meu corpo magro. Até meus ossos doem, sentindo o couro grosso atingindo minha pele com força. Já não sei mais qual o motivo das minhas lágrimas, mesmo assim, meu choro é livre molhando o nosso sofá.
— Você espera que seus pais saiam para você ir para a rua, sua vagabunda? Você quer ser como as mulheres da vida? — Ele grita entre os golpes. — Que Deus a castigue. Qual meu pecado para ter uma filha como você?
Minha mãe não faz nada, apenas assiste a cena, em silêncio. Ela nunca diz nada, apenas o apoia como uma boa esposa submissa.
— Papai...
— Cale a boca, Helena. — Rosna. — Receba seu castigo em silêncio.