O show seguiu, mas Ana já não estava completamente na mesma leveza de antes. Cantava com profissionalismo, com domínio, mas havia uma pequena tensão que ela não conseguia explicar. Como se algo tivesse se instalado no fundo da mente e não quisesse sair.
E ela sabia exatamente o que era.
Ele.
Dom Mariano continuava no mesmo lugar, imóvel, observando como se aquele fosse o único ponto de interesse do mundo inteiro. Não era a forma de um espectador comum. Era atenção total. Direcionada. Pessoal demais.
Gabriel percebeu o desconforto dele aumentar.
— Você devia ir embora depois disso — ele falou baixo.
Mariano não respondeu.
— Mariano.
— Eu vou quando eu quiser.
Gabriel soltou um suspiro, cansado daquela teimosia.
— Isso não é só curiosidade. Você tá entrando numa coisa que não tem controle.
Mariano finalmente desviou os olhos do palco por um segundo.
— Controle nunca foi o problema.
Gabriel olhou pra ele com firmeza.
— Mentira. Sempre foi.
Um silêncio curto caiu entre os dois.
No palco, Ana terminou a música e foi aplaudida novamente. Sorriu, agradeceu, fez a transição para a próxima canção. Mas quando respirou fundo, seus olhos voltaram rapidamente para a plateia.
E de novo, encontraram ele.
Ela travou por meio segundo, só o suficiente para perceber que ele não estava ali por acaso.
Ele estava por ela.
E isso fez algo estranho crescer no peito dela — não medo direto, mas uma inquietação difícil de nomear.
Ela desviou o olhar de novo, dessa vez mais rápido, como se estivesse tentando recuperar o controle.
— Você tá errando isso — Gabriel disse.
Mariano continuava olhando.
— Errando o quê?
— Ela.
Mariano soltou uma leve risada, quase sem humor.
— Eu não tô errando nada.
— Tá sim — Gabriel insistiu — você tá tratando uma mulher comum como se fosse uma exceção no seu mundo. Isso sempre dá problema.
Mariano ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois falou, baixo, sem tirar os olhos dela:
— Ela já é um problema.
Gabriel franziu a testa.
— Ou uma fraqueza.
Mariano virou levemente o rosto.
E nesse olhar tinha algo que não era mais dúvida.
Era decisão.
— Eu não tenho fraqueza — ele disse.
Mas nem ele parecia totalmente convencido disso.
Lá no palco, Ana terminou a apresentação principal da noite sob aplausos mais fortes. Sorriu, agradeceu, fez sua despedida.
Mas antes de sair do palco, por um instante rápido demais pra parecer importante, seus olhos voltaram para a plateia.
Ele ainda estava lá.
E dessa vez, não havia mais como fingir que era coincidência.
Ela desceu do palco com o coração levemente acelerado, pegando o caminho dos bastidores.
Enquanto isso, lá embaixo, Mariano se levantou.
Gabriel levantou junto.
— Não faz isso — ele disse firme.
Mariano ajustou a postura, já decidido.
— Eu não tô fazendo nada.
— Tá indo atrás dela.
Ele passou por Gabriel sem parar.
— Eu sempre vou atrás do que não sai da minha cabeça.
E foi nesse momento que Ana entrou no corredor dos bastidores… e, antes mesmo de conseguir respirar direito, sentiu a presença dele atrás dela.
Sem precisar olhar.
Ela já sabia.
E isso, de alguma forma, mudou tudo de novo.
Ana parou no meio do corredor dos bastidores como se o próprio ar tivesse ficado mais pesado. Ela não virou de imediato, mas sentiu com precisão aquela presença atrás dela, firme, próxima demais pra ser coincidência.
Ela respirou fundo, tentando manter a calma que sempre usava no trabalho.
— Você não deveria estar aqui — ela disse por fim, sem olhar.
Dom Mariano deu mais um passo, lento, controlado. O som dos sapatos dele no chão parecia alto demais naquele silêncio.
— Eu não gosto de lugares que me mandam embora — ele respondeu.
Ana finalmente virou o rosto.
Ele estava ali. Mais perto do que no show. Sem a plateia, sem luz, sem distrações. Só ele e ela.
E isso era pior.
— Isso não é sobre gostar ou não gostar — ela falou, cruzando os braços de novo, tentando recuperar a postura — isso aqui é área dos artistas. Segurança deveria ter te tirado lá de dentro.
Ele observou ela por alguns segundos.
— Eles tentaram.
Ana franziu a testa.
— E você fez o quê?
Um leve silêncio.
— Nada que tenha deixado eles insistindo — ele respondeu, simples.
Ela soltou uma risada curta, mais de nervoso do que de humor.
— Claro… devia ter imaginado.
Mariano deu mais um passo. Agora estavam mais próximos, mas ele não invadia o espaço dela de forma agressiva. Era outra coisa. Controle demais até no silêncio.
— Você me viu lá — ele disse.
— Eu vi — ela respondeu direto.
— E fugiu.
Ana abriu um sorriso mínimo, sem alegria.
— Eu saí do palco, não fugi.
Ele inclinou levemente a cabeça, como se aceitasse parcialmente, mas não totalmente.
— Você ficou diferente depois.
Ela soltou o ar pelo nariz.
— Porque isso é estranho, Mariano. Você apareceu na minha casa ontem, ferido, me pediu em casamento e hoje está aqui como se nada tivesse acontecido.
Ele não desviou o olhar.
— Pra mim não foi nada.
Aquilo fez ela travar por um segundo.
— Como assim “nada”?
Ele demorou um pouco pra responder, como se escolhesse as palavras.
— Eu só comecei a enxergar você.
Ana piscou devagar.
— Isso não é normal.
— Normal não me trouxe até aqui — ele respondeu.
Ela sentiu o desconforto crescer de novo, agora misturado com algo que ela não queria nomear.
— Olha… você precisa ir embora. De verdade. Eu tenho trabalho, minha vida, isso aqui não é um—
— Mundo meu — ele completou por ela.
Ela respirou fundo, impaciente.
— Exatamente.
Ele ficou em silêncio por um instante longo.
E então falou:
— E se eu disser que já entrou?
Ana franziu a testa.
— O quê?
Mariano deu mais um passo, parando a uma distância segura, mas impossível de ignorar.
— Você entrou no meu mundo sem saber — ele disse baixo — e agora eu tô aqui fora, tentando entender como ele funciona sem você.
O corredor pareceu menor.
Ana ficou alguns segundos sem resposta, como se aquela frase tivesse passado direto pelas defesas dela.
Mas então ela recuperou o controle.
— Isso não é coisa que você fala pra alguém que acabou de conhecer — ela disse firme — isso é… obsessivo.
Ele não negou.
E isso foi pior.
— Eu não sei fazer diferente — ele respondeu.
Silêncio.
Ana passou a mão pelo cabelo, tentando organizar os pensamentos.
— Mariano… você precisa de ajuda, ou precisa ir embora. Eu não sou… não sou isso que você tá imaginando.
Ele a observou com calma.
— Você não é o que eu imagino.
Ela hesitou.
Ele continuou, mais baixo:
— Você é pior.
Ana piscou, confusa.
— Pior?
Um leve quase sorriso apareceu nele.
— Porque você não me deixa te esquecer.
O ar ficou preso entre os dois por um segundo.
E pela primeira vez desde que se conheceram, Ana não soube exatamente como responder de imediato.
Porque não era só ele que estava fora do controle.
E isso começava a assustar um pouco mais do que ela queria admitir.