Ana ficou em silêncio por alguns segundos, encarando ele como se tentasse encontrar lógica em algo que claramente não cabia na lógica dela. Depois soltou o ar devagar, balançando a cabeça.
— Isso não é verdade — ela disse, mais firme do que realmente se sentia — você me conheceu ontem. Ontem, Mariano.
Ele não desviou o olhar nem por um segundo.
— Eu sei.
— Então para de falar como se… como se tivesse alguma coisa entre nós.
A palavra ficou estranha na boca dela.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Tem.
Ana riu, mas dessa vez sem humor nenhum.
— Não tem nada.
Ele deu mais um passo, parando de novo. Agora a distância entre os dois era pequena demais pra ignorar.
— Você acha que eu vim até aqui por acaso? — ele perguntou baixo.
— Eu acho que você tá confundindo as coisas — ela respondeu rápido.
Ele ficou em silêncio por um instante, como se aceitasse ouvir tudo sem interromper.
Depois falou:
— Eu não confundo nada.
Ana respirou fundo, tentando manter o controle.
— Mariano, eu trabalho aqui. Eu canto aqui. Eu tenho uma vida normal. Você apareceu do nada, machucado, eu ajudei porque qualquer pessoa ajudaria. Isso não cria… isso não cria nada.
O olhar dele endureceu só um pouco, não de raiva, mas de certeza.
— Não foi “qualquer pessoa”.
Ela hesitou.
Ele continuou, mais baixo ainda:
— Qualquer pessoa teria medo de mim.
Ana engoliu seco.
Porque isso era verdade.
— Eu não tive medo — ela respondeu, quase como desafio.
Ele sustentou o olhar dela por mais tempo.
— Eu sei.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Ana desviou o olhar por um segundo, como se aquilo começasse a incomodar mais do que ela queria admitir.
— Olha… você precisa ir embora, sério — ela repetiu, agora mais cansada — isso aqui não é lugar pra você ficar.
Ele não respondeu de imediato.
Só observou ela.
Como se estivesse tentando entender algo que não estava escrito em nenhuma regra que ele conhecia.
— Você sempre manda as pessoas embora assim? — ele perguntou por fim.
Ela franziu a testa.
— O quê?
— Quando não quer lidar com elas.
Aquilo acertou mais do que ela esperava.
Ela respirou fundo, cruzando os braços de novo como defesa automática.
— Eu não tô mandando você embora por medo ou por “não querer lidar”. Eu tô mandando você embora porque você é um estranho.
Ele assentiu lentamente.
— Eu era.
Ela piscou.
— Era?
Ele deu um leve movimento de cabeça.
— Antes de você me ver.
Ana sentiu o desconforto crescer de novo, mais forte agora.
— Isso não faz sentido.
— Faz pra mim.
Ela soltou um suspiro, passando a mão no rosto.
— Mariano… isso não é normal. Você tá falando como se—
— Como se o quê? — ele interrompeu, mas sem agressividade.
Ela hesitou.
— Como se eu fosse importante demais.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
Depois respondeu, simples:
— Você é.
Ana ficou imóvel.
O ar pareceu parar de novo.
E dessa vez ela não teve resposta pronta.
Porque, no fundo, a parte racional dela gritava que aquilo era absurdo.
Mas outra parte… aquela que ela não queria ouvir… já tinha começado a prestar atenção demais nele.
Ana ficou parada, olhando pra ele como se estivesse tentando decidir em que momento aquela conversa tinha deixado de ser estranha e passado a ser perigosa de outro jeito.
Ela soltou uma risada curta, incrédula, passando a mão no cabelo.
— Você fala como se… como se tivesse me estudado — ela disse, ainda tentando manter o tom leve, mas falhando um pouco — isso é muito estranho, Mariano.
Ele não desviou o olhar.
— Eu observei.
— Isso não é normal — ela respondeu de imediato.
Ele deu de ombros, simples.
— Normal não salvou minha vida.
Ela respirou fundo, ficando séria de novo.
— Eu não te levei pra minha casa porque você era homem, porque você era… sei lá o quê. Eu nem pensei nisso. Eu te ajudei porque eu vi alguém ferido. Só isso.
Ele a interrompeu com calma:
— E me deu comida na boca.
Ana fechou os olhos por um segundo.
— Eu te ajudei! Isso não significa nada disso que você tá inventando na sua cabeça.
Ele deu um leve passo mais perto, sem invadir demais, mas o suficiente pra deixar a presença dele mais forte no espaço.
— Eu não tô inventando — ele disse baixo — eu senti.
Ana abriu os olhos, encarando ele.
— Isso não é argumento.
Ele soltou um ar leve pelo nariz, quase um sorriso.
— Eu não tô tentando ganhar discussão.
— Parece.
Ele ficou em silêncio por um instante. Depois a voz saiu mais baixa, diferente:
— Você cuida de mim como se fosse… natural.
Ana piscou.
— Isso é porque eu sou uma pessoa normal.
Ele negou levemente com a cabeça.
— Não. Isso é porque você é diferente.
Ela cruzou os braços, defensiva de novo.
— Eu sou normal, Mariano.
Ele a observou por alguns segundos, como se estivesse organizando o que ia dizer.
— Você dormiu no mesmo ambiente que eu, sozinha, sem medo. Sem saber quem eu era. Sem tentar me controlar. Sem tentar tirar vantagem.
Ana respirou fundo.
— Eu não vi motivo pra ter medo.
Ele deu um leve sorriso de canto.
— Exatamente.
Ela franziu a testa.
— Isso não prova nada.
Ele inclinou um pouco a cabeça.
— Prova pra mim.
Silêncio.
Ana desviou o olhar por um segundo, incomodada com o rumo da conversa.
— Olha… eu te ajudei porque eu sou uma boa pessoa. Só isso. Não tem romance nisso, não tem nada disso que você tá construindo aí.
Ele ficou quieto, ouvindo.
Ela continuou:
— E deixa eu ser bem clara: eu não fui pra cama com você. Eu dormi com você porque você tava machucado e apagado, não porque existe alguma coisa entre nós.
Ele assentiu lentamente.
— Eu sei.
Ana piscou.
— Sabe?
Ele respondeu simples:
— Eu nunca disse que você foi pra cama comigo.
Ela ficou em silêncio por um segundo, percebendo que tinha se exaltado sozinha.
Ele continuou, mais calmo:
— Eu disse que você ficou.
Aquilo ficou no ar.
Ana respirou fundo, tentando reorganizar a conversa.
— Mariano… você não pode falar comigo como se já tivesse uma história comigo.
Ele deu um leve sorriso, quase suave.
— Mas eu já tenho.
Ela abriu a boca, mas não saiu nada de imediato.
Ele continuou:
— Você pode negar isso o quanto quiser, Ana… mas você não age como alguém que ignora pessoas que precisam de ajuda.
A voz dele baixou um pouco mais.
— E eu quero cuidar de você também.
Ana piscou devagar.
— Isso não é necessário.
— Pra mim é — ele respondeu na mesma hora.
Silêncio.
Ela passou a mão pelo braço, desconfortável com a intensidade dele.
— Você não me conhece o suficiente pra isso.
Ele respondeu sem hesitar:
— Eu conheço o suficiente.
Ela soltou uma risada curta, cansada.
— Isso é impossível.
Ele deu um leve sorriso.
— Eu já te observei o bastante pra saber quem você é.
Ela franziu a testa.
— Observou…?
Ele assentiu.
— Você é forte. Independente. Não gosta de ser controlada. Gosta de resolver tudo sozinha… mesmo quando não devia.
Ana ficou séria.
— Isso não é exatamente uma qualidade.
— Pra mim é — ele respondeu.
Ela desviou o olhar por um segundo.
Ele continuou, mais baixo:
— E você ajuda mesmo quando não devia. Até desconhecidos.
Ela voltou a encará-lo.
— Isso não significa nada disso que você tá pensando.
Ele deu um passo leve pra trás, como se respeitasse o espaço dela.
— Pra você não.
Silêncio.
E então ele completou, mais baixo ainda:
— Mas pra mim significa tudo.