capítulo 7

1328 Words
Ana ficou em silêncio por alguns segundos, encarando ele como se tentasse encontrar lógica em algo que claramente não cabia na lógica dela. Depois soltou o ar devagar, balançando a cabeça. — Isso não é verdade — ela disse, mais firme do que realmente se sentia — você me conheceu ontem. Ontem, Mariano. Ele não desviou o olhar nem por um segundo. — Eu sei. — Então para de falar como se… como se tivesse alguma coisa entre nós. A palavra ficou estranha na boca dela. Ele inclinou levemente a cabeça. — Tem. Ana riu, mas dessa vez sem humor nenhum. — Não tem nada. Ele deu mais um passo, parando de novo. Agora a distância entre os dois era pequena demais pra ignorar. — Você acha que eu vim até aqui por acaso? — ele perguntou baixo. — Eu acho que você tá confundindo as coisas — ela respondeu rápido. Ele ficou em silêncio por um instante, como se aceitasse ouvir tudo sem interromper. Depois falou: — Eu não confundo nada. Ana respirou fundo, tentando manter o controle. — Mariano, eu trabalho aqui. Eu canto aqui. Eu tenho uma vida normal. Você apareceu do nada, machucado, eu ajudei porque qualquer pessoa ajudaria. Isso não cria… isso não cria nada. O olhar dele endureceu só um pouco, não de raiva, mas de certeza. — Não foi “qualquer pessoa”. Ela hesitou. Ele continuou, mais baixo ainda: — Qualquer pessoa teria medo de mim. Ana engoliu seco. Porque isso era verdade. — Eu não tive medo — ela respondeu, quase como desafio. Ele sustentou o olhar dela por mais tempo. — Eu sei. O silêncio que veio depois foi pesado. Ana desviou o olhar por um segundo, como se aquilo começasse a incomodar mais do que ela queria admitir. — Olha… você precisa ir embora, sério — ela repetiu, agora mais cansada — isso aqui não é lugar pra você ficar. Ele não respondeu de imediato. Só observou ela. Como se estivesse tentando entender algo que não estava escrito em nenhuma regra que ele conhecia. — Você sempre manda as pessoas embora assim? — ele perguntou por fim. Ela franziu a testa. — O quê? — Quando não quer lidar com elas. Aquilo acertou mais do que ela esperava. Ela respirou fundo, cruzando os braços de novo como defesa automática. — Eu não tô mandando você embora por medo ou por “não querer lidar”. Eu tô mandando você embora porque você é um estranho. Ele assentiu lentamente. — Eu era. Ela piscou. — Era? Ele deu um leve movimento de cabeça. — Antes de você me ver. Ana sentiu o desconforto crescer de novo, mais forte agora. — Isso não faz sentido. — Faz pra mim. Ela soltou um suspiro, passando a mão no rosto. — Mariano… isso não é normal. Você tá falando como se— — Como se o quê? — ele interrompeu, mas sem agressividade. Ela hesitou. — Como se eu fosse importante demais. Ele ficou em silêncio por um segundo. Depois respondeu, simples: — Você é. Ana ficou imóvel. O ar pareceu parar de novo. E dessa vez ela não teve resposta pronta. Porque, no fundo, a parte racional dela gritava que aquilo era absurdo. Mas outra parte… aquela que ela não queria ouvir… já tinha começado a prestar atenção demais nele. Ana ficou parada, olhando pra ele como se estivesse tentando decidir em que momento aquela conversa tinha deixado de ser estranha e passado a ser perigosa de outro jeito. Ela soltou uma risada curta, incrédula, passando a mão no cabelo. — Você fala como se… como se tivesse me estudado — ela disse, ainda tentando manter o tom leve, mas falhando um pouco — isso é muito estranho, Mariano. Ele não desviou o olhar. — Eu observei. — Isso não é normal — ela respondeu de imediato. Ele deu de ombros, simples. — Normal não salvou minha vida. Ela respirou fundo, ficando séria de novo. — Eu não te levei pra minha casa porque você era homem, porque você era… sei lá o quê. Eu nem pensei nisso. Eu te ajudei porque eu vi alguém ferido. Só isso. Ele a interrompeu com calma: — E me deu comida na boca. Ana fechou os olhos por um segundo. — Eu te ajudei! Isso não significa nada disso que você tá inventando na sua cabeça. Ele deu um leve passo mais perto, sem invadir demais, mas o suficiente pra deixar a presença dele mais forte no espaço. — Eu não tô inventando — ele disse baixo — eu senti. Ana abriu os olhos, encarando ele. — Isso não é argumento. Ele soltou um ar leve pelo nariz, quase um sorriso. — Eu não tô tentando ganhar discussão. — Parece. Ele ficou em silêncio por um instante. Depois a voz saiu mais baixa, diferente: — Você cuida de mim como se fosse… natural. Ana piscou. — Isso é porque eu sou uma pessoa normal. Ele negou levemente com a cabeça. — Não. Isso é porque você é diferente. Ela cruzou os braços, defensiva de novo. — Eu sou normal, Mariano. Ele a observou por alguns segundos, como se estivesse organizando o que ia dizer. — Você dormiu no mesmo ambiente que eu, sozinha, sem medo. Sem saber quem eu era. Sem tentar me controlar. Sem tentar tirar vantagem. Ana respirou fundo. — Eu não vi motivo pra ter medo. Ele deu um leve sorriso de canto. — Exatamente. Ela franziu a testa. — Isso não prova nada. Ele inclinou um pouco a cabeça. — Prova pra mim. Silêncio. Ana desviou o olhar por um segundo, incomodada com o rumo da conversa. — Olha… eu te ajudei porque eu sou uma boa pessoa. Só isso. Não tem romance nisso, não tem nada disso que você tá construindo aí. Ele ficou quieto, ouvindo. Ela continuou: — E deixa eu ser bem clara: eu não fui pra cama com você. Eu dormi com você porque você tava machucado e apagado, não porque existe alguma coisa entre nós. Ele assentiu lentamente. — Eu sei. Ana piscou. — Sabe? Ele respondeu simples: — Eu nunca disse que você foi pra cama comigo. Ela ficou em silêncio por um segundo, percebendo que tinha se exaltado sozinha. Ele continuou, mais calmo: — Eu disse que você ficou. Aquilo ficou no ar. Ana respirou fundo, tentando reorganizar a conversa. — Mariano… você não pode falar comigo como se já tivesse uma história comigo. Ele deu um leve sorriso, quase suave. — Mas eu já tenho. Ela abriu a boca, mas não saiu nada de imediato. Ele continuou: — Você pode negar isso o quanto quiser, Ana… mas você não age como alguém que ignora pessoas que precisam de ajuda. A voz dele baixou um pouco mais. — E eu quero cuidar de você também. Ana piscou devagar. — Isso não é necessário. — Pra mim é — ele respondeu na mesma hora. Silêncio. Ela passou a mão pelo braço, desconfortável com a intensidade dele. — Você não me conhece o suficiente pra isso. Ele respondeu sem hesitar: — Eu conheço o suficiente. Ela soltou uma risada curta, cansada. — Isso é impossível. Ele deu um leve sorriso. — Eu já te observei o bastante pra saber quem você é. Ela franziu a testa. — Observou…? Ele assentiu. — Você é forte. Independente. Não gosta de ser controlada. Gosta de resolver tudo sozinha… mesmo quando não devia. Ana ficou séria. — Isso não é exatamente uma qualidade. — Pra mim é — ele respondeu. Ela desviou o olhar por um segundo. Ele continuou, mais baixo: — E você ajuda mesmo quando não devia. Até desconhecidos. Ela voltou a encará-lo. — Isso não significa nada disso que você tá pensando. Ele deu um passo leve pra trás, como se respeitasse o espaço dela. — Pra você não. Silêncio. E então ele completou, mais baixo ainda: — Mas pra mim significa tudo.
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