A água quente do chuveiro escorria pelo corpo dela, mas a mente não acompanhava o alívio. A imagem daquele homem ainda estava ali, como se tivesse entrado junto com ele na casa.
“Quem era ele…?” pensava, passando as mãos pelo rosto.
Enquanto isso, no quarto, Dom Mariano permanecia deitado. O corpo pesado, as feridas ainda latejando, mas o olhar já tinha mudado. Ele não estava mais apenas ferido. Estava atento.
Ele tinha visto guerra antes. Sangue, traições, emboscadas. Mas aquilo… era diferente.
Uma mulher desconhecida o tinha tirado de um ônibus como se ele fosse apenas alguém precisando de ajuda. Sem medo. Sem perguntas. Sem hesitar.
E agora ele estava na casa dela.
Os olhos dele percorreram o ambiente simples, silencioso. Tudo ali era leve demais para alguém como ele. Ainda assim, havia algo forte naquele lugar — e esse algo tinha nome.
Ela.
Quando ela voltou do banho, já com roupas simples e o cabelo ainda levemente úmido, parou na porta ao vê-lo acordado.
— Você não devia estar de pé… — disse ela, num tom firme, mas calmo.
Ele não respondeu de imediato. Apenas a observou de novo. Como se estivesse gravando cada detalhe dela na memória.
— Você me trouxe pra sua casa… sem saber quem eu sou — a voz dele saiu baixa, rouca, carregada de dor e curiosidade.
Ela cruzou os braços, mantendo a postura.
— Você estava sangrando no meu lado do ônibus. Não precisava saber quem você era pra ajudar.
Um silêncio pesado tomou o quarto.
Dom Mariano soltou um riso curto, quase sem humor, mas não era desprezo. Era surpresa.
Pouca gente fazia aquilo por ele. Ninguém fazia aquilo por ele.
— Você é corajosa… ou muito ingênua — ele murmurou.
Ela se aproximou devagar, checando o curativo improvisado no ombro dele.
— Ou só não gosto de ver alguém morrendo do meu lado e fingir que não vi.
Ele acompanhou cada movimento dela, ainda mais atento agora. Havia algo naquela calma que o desarmava mais do que qualquer arma já apontada contra ele.
— Como você se chama? — ele perguntou.
Ela hesitou por um segundo.
— Ana.
Ele repetiu mentalmente o nome, como se testasse o som.
— Ana… — ele disse baixo, como se aquilo fosse importante demais para ser desperdiçado.
Ela se afastou um pouco, indo até a cozinha.
— Você precisa descansar mais. Amanhã talvez você consiga sair daqui.
Mas quando ela virou de costas, ele falou algo que fez o ar mudar.
— Eu não vou embora amanhã.
Ela parou no meio do caminho.
E, pela primeira vez, sentiu de verdade que talvez tivesse colocado dentro da própria casa alguém que não pertencia ao mundo dela… e que talvez nunca mais fosse embora tão facilmente quanto entrou.