capítulo 3

647 Words
Na manhã seguinte, o silêncio da casa era leve, quase preguiçoso. A luz do sol entrava pelas frestas da janela e caía sobre o quarto de forma suave. Dom Mariano abriu os olhos devagar, ainda sentindo o corpo pesado, mas muito mais vivo do que na noite anterior. E então ele viu. Ana dormia ao lado, tranquila, como se o mundo inteiro não fosse capaz de encostar nela. Os cabelos ondulados, castanhos, espalhados pelo travesseiro, o rosto sereno, a pele morena iluminada pela luz da manhã, os lábios levemente entreabertos. Ela parecia completamente fora de alcance de tudo o que ele era. Ele ficou em silêncio, só observando. Por alguns segundos, não era o chefe da máfia ali. Não era o homem ferido, nem o nome temido. Era só alguém olhando para uma cena que não combinava com a vida dele. Um sorriso discreto surgiu no canto da boca dele. — Quase morri… — ele murmurou baixinho, sem tirar os olhos dela — mas ganhei uma mulher. Ana mexeu levemente, depois abriu os olhos devagar, ainda meio perdida. Quando o olhar encontrou o dele tão perto, ela se assustou e se sentou rápido. — Ai… parece um psicopata — ela soltou, sem pensar. Ele riu na mesma hora, um riso rouco, sincero. — Ah, agora sou psicopata? — Sim — ela respondeu, ainda tentando entender se estava acordada mesmo. Ele gargalhou mais um pouco, encostando melhor no travesseiro. — Você que me tirou do ônibus, me trouxe pra tua casa, me deu comida na boca, cuidou dos meus ferimentos… e agora eu que sou o psicopata? Ela riu também, mais leve, como se a tensão tivesse quebrado por um instante. — Tá bom… tá bom. Psicopata não. Mas é estranho. Ele continuou rindo, olhando ela como se aquilo tudo fosse a coisa mais absurda e interessante que já tinha vivido. Ana levantou devagar da cama e só então percebeu o que estava vestindo. A camisola leve demais, quase transparente na luz da manhã. — Ai meu Deus… não olha! — ela falou rápido, cobrindo o corpo com os braços. — Fecha o olho! — ela insistiu. Ele riu, obediente, fechando os olhos sem pressa nenhuma. — Tô fechado. Ela saiu apressada, pegou roupas e voltou em segundos. Vestiu um short e uma blusa simples, respirando fundo como se estivesse tentando recuperar a dignidade. — Agora pode olhar — ela disse, cruzando os braços. Ele abriu os olhos devagar e, sem esconder o sorriso, falou com naturalidade: — Você é linda demais, Ana. Ela estreitou os olhos, ainda tentando manter postura. — Já vi que você tá bem curado, né? E já pode ir embora, senhor misterioso. Ele soltou um suspiro leve, como se aquela conversa fosse inevitável. — Eu me chamo Mariano. Ela ficou em silêncio por um segundo, absorvendo o nome. — Bom, Mariano… eu te ajudei, fico muito feliz que você tá um pouco mais forte. Acho que agora você consegue ir embora, né? Foi aí que ele mudou o tom completamente. Sem brincadeira. Sem riso. Só direto. — Casa comigo. Ana piscou, confusa. — O quê? Ele repetiu, como se fosse a coisa mais simples do mundo. — Casa comigo. Ela deu um passo pra trás, incrédula. — Você tá doido? Eu nem te conheço. Meu Deus do céu… eu salvo o homem e o homem me pede em casamento? Ele continuou olhando pra ela, firme, mas sem agressividade. — Ninguém nunca cuidou de mim desse jeito antes. Sem pedir nada. Sem medo de quem eu sou. Ninguém nunca me deu comida na boca… ninguém nunca ficou. Ele respirou fundo. — Casa comigo, Ana. O ar mudou. O riso dela sumiu aos poucos. E pela primeira vez desde que ele chegou, Ana não soube responder na mesma hora. Mas a realidade dela respondeu por ela. Ela travou. — Mariano… por favor… vai embora, tá?
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