Na manhã seguinte, o silêncio da casa era leve, quase preguiçoso. A luz do sol entrava pelas frestas da janela e caía sobre o quarto de forma suave. Dom Mariano abriu os olhos devagar, ainda sentindo o corpo pesado, mas muito mais vivo do que na noite anterior.
E então ele viu.
Ana dormia ao lado, tranquila, como se o mundo inteiro não fosse capaz de encostar nela. Os cabelos ondulados, castanhos, espalhados pelo travesseiro, o rosto sereno, a pele morena iluminada pela luz da manhã, os lábios levemente entreabertos. Ela parecia completamente fora de alcance de tudo o que ele era.
Ele ficou em silêncio, só observando.
Por alguns segundos, não era o chefe da máfia ali. Não era o homem ferido, nem o nome temido. Era só alguém olhando para uma cena que não combinava com a vida dele.
Um sorriso discreto surgiu no canto da boca dele.
— Quase morri… — ele murmurou baixinho, sem tirar os olhos dela — mas ganhei uma mulher.
Ana mexeu levemente, depois abriu os olhos devagar, ainda meio perdida. Quando o olhar encontrou o dele tão perto, ela se assustou e se sentou rápido.
— Ai… parece um psicopata — ela soltou, sem pensar.
Ele riu na mesma hora, um riso rouco, sincero.
— Ah, agora sou psicopata?
— Sim — ela respondeu, ainda tentando entender se estava acordada mesmo.
Ele gargalhou mais um pouco, encostando melhor no travesseiro.
— Você que me tirou do ônibus, me trouxe pra tua casa, me deu comida na boca, cuidou dos meus ferimentos… e agora eu que sou o psicopata?
Ela riu também, mais leve, como se a tensão tivesse quebrado por um instante.
— Tá bom… tá bom. Psicopata não. Mas é estranho.
Ele continuou rindo, olhando ela como se aquilo tudo fosse a coisa mais absurda e interessante que já tinha vivido.
Ana levantou devagar da cama e só então percebeu o que estava vestindo. A camisola leve demais, quase transparente na luz da manhã.
— Ai meu Deus… não olha! — ela falou rápido, cobrindo o corpo com os braços.
— Fecha o olho! — ela insistiu.
Ele riu, obediente, fechando os olhos sem pressa nenhuma.
— Tô fechado.
Ela saiu apressada, pegou roupas e voltou em segundos. Vestiu um short e uma blusa simples, respirando fundo como se estivesse tentando recuperar a dignidade.
— Agora pode olhar — ela disse, cruzando os braços.
Ele abriu os olhos devagar e, sem esconder o sorriso, falou com naturalidade:
— Você é linda demais, Ana.
Ela estreitou os olhos, ainda tentando manter postura.
— Já vi que você tá bem curado, né? E já pode ir embora, senhor misterioso.
Ele soltou um suspiro leve, como se aquela conversa fosse inevitável.
— Eu me chamo Mariano.
Ela ficou em silêncio por um segundo, absorvendo o nome.
— Bom, Mariano… eu te ajudei, fico muito feliz que você tá um pouco mais forte. Acho que agora você consegue ir embora, né?
Foi aí que ele mudou o tom completamente.
Sem brincadeira. Sem riso.
Só direto.
— Casa comigo.
Ana piscou, confusa.
— O quê?
Ele repetiu, como se fosse a coisa mais simples do mundo.
— Casa comigo.
Ela deu um passo pra trás, incrédula.
— Você tá doido? Eu nem te conheço. Meu Deus do céu… eu salvo o homem e o homem me pede em casamento?
Ele continuou olhando pra ela, firme, mas sem agressividade.
— Ninguém nunca cuidou de mim desse jeito antes. Sem pedir nada. Sem medo de quem eu sou. Ninguém nunca me deu comida na boca… ninguém nunca ficou.
Ele respirou fundo.
— Casa comigo, Ana.
O ar mudou.
O riso dela sumiu aos poucos.
E pela primeira vez desde que ele chegou, Ana não soube responder na mesma hora.
Mas a realidade dela respondeu por ela.
Ela travou.
— Mariano… por favor… vai embora, tá?