PT. IV Essa é a nossa resposta para um mundo que não é nosso

1960 Words
A b***a grasnava alto atraindo hordas de espíritos comigo e abaixo de mim. Entrei em pânico logo quando pensei em Cecília. Me movimentei para que fosse solto, mas era muito forte e me apertava mais, escutei o som dos meus ossamento estralando e a dor que jamais imaginei sentir. Quanto mais grasnava, mais os bichos saltitantes de baixo com Cecília e em volta do pássaro das sombras. Rastejando pelo seu tronco moldado com as trevas, sedentos e lentos, sem tirar aqueles lumes amaldiçoados de onde eu estava. Eles salivavam como seu eu fosse seu banquete, eu tentava sem parar de me debater e me libertar, escolhendo morrer com a queda, mas isso ficou tão inútil quando ela apertou mais. Senti meus próprios ossos me perfurando! Gritei ainda mais intenso que seu grasno de corvo. Comecei a cuspir sangue, enfraqueci a ponto de ficar tonto e sem forças para se debater, nem gritar eu podia mais. Ele me alcançava mais, e tudo que estava a minha altura era sofrer e morrer aqui, no alto, sem poder responder como queríamos, sem tocar os lábios de quem amava. E lá estava eu desejando ter o melhor destino, digladiando por um resquício de liberdade que por mais efêmera que fosse, valia a pena? Me enxergando ensanguentado, eu encarava como desperdício do que restava da minha vida lutando, mas em meio a esse desperdício, tinham coisas que valeram a pena para viver enquanto estive lutando. Meu olhar esvanecia, e m*l conseguia enxergar as criaturas que se aproximavam de mim. Naquele momento, as garras que pressionavam mais o meu corpo, já não doía tanto, nem mesmo os ossos que me perfuravam estava incomodando como antes. Aceitei o destino ceifado a partir do momento que decidi entrar em uma luta que já tinha acabado há tempo, talvez. Aquele horror, todo aquele terror, já não parecia afetar-me como antes, e até estava pronto para encarar meu fim que parecia. Enquanto fechava meus olhos, e as criaturas se aproximavam, um grasno eloquente que adentrou minha audição quase apagada. Junto com a minha visão, me manteve acordada e fez com que eu observasse uma luz misteriosa acima dela, daquele corpo horrendo. Era ela, acima daquela ave como uma h*****a estendendo a bandeira após conquistar as terras inimigas, como se estivesse erguendo sua espada banhada de sangue, só que com nada disso. Cecilia estava bem na cabeça do monstro, com o ** da pedra do Sol esbanjado em cima da b***a causando a dor mais indescritível com um estardalhaço. Aos poucos, a criatura foi decaindo grasnando de sôfrego. Cecília se segurava na cabeça do monstrengo até sua queda, enquanto lidava com as demais almas sedentas se aproximando. Eu estava como um pobre coitado ensanguentado nas garras dela apenas aguardando o meu fim. Quando a ave alcançou o chão, apenas apaguei e não senti o impacto de nada que aconteceu, nem ao menos acordei com o estrondo que aquilo ocasionou. Enquanto estive desacordado, relembrei diversas vezes, repassei como uma fita gravada o momento no bar antes de toda essa desgraça acontecer, e foi a única coisa boa que tive durante o caos. Era quando eu e Cecília estávamos dançando, estávamos nos deleitando da presença um do outro trocando carícias e olhares, e um beijo interrompido por um crápula perturbado. Ao invés de relembrar o fato de ter sido interrompido e evitado meu deleite. Ou tocar os lábios dela como o Sol e a Lua fazem durante o eclipse, imaginei repetidas vezes um momento em que eu pudesse tocá-la. Meu corpo mergulhou nas chamas e tive uma sensação tão viva de prazer que não cabiam palavras para distinguir tamanha paixão do que pude sentir, só de pensar nessa possibilidade de beijar. No final de tudo isso, era só o que eu imaginava, era só o que eu desejava... Amar alguém no meio de todo esse caos, mesmo que parecesse impossível eu só queria viver da forma que eu realmente gostaria.   Tonto, desorientado por não entender o que aconteceu, senti o toque quente de suas mãos, a musicalidade de sua voz ao falar mesmo que fosse aflita. Aquilo brilhava dentro de mim com a esperança que me faltava quando esfaleceu com a queda ou quando a fera me agarrou. Devagarinho eu abria meus olhos, e enxergava o seu rosto aflito, preocupado, domado pelo medo que nunca tinha presenciado, vivenciado. Nunca imaginei que apreciar o seu rosto preocupado fosse me trazer tamanho alívio só por relembrar o fato de que ainda estou vivo e ainda ter a chance de viver com você, ou sobreviver. Assim que ela viu meus olhos abrindo, de imediato, me segurou e me deu um abraço mais apertado que afagou os meus pensamentos sombrios. Apagou tão repentino as memórias daquele momento sombrio de quase morte, não pensei duas vezes quando devolvi o abraço com que me restava de força. Suas lágrimas banhavam meu rosto parecendo chuva durante um trágico acidente levando e trazendo toda tristeza. Ela me soltou um pouco e me amparou com seus braços macios de amor, deixando em seu colo acalentado. Minha respiração estava enfraquecendo aos poucos, e não sabia como eu deveria aproveitar o que me restara de força. Cecília fitava-me do mesmo jeito, em prantos, buscando o que fazer ou o que falar, mas o pior era sentir que minha vida se esvaia. Seu desespero lutando para manter uma sobra viva de uma vida prestes a acabar, e o fato de não poder fazer nada, me entorpecia. O silêncio bastava, talvez, mas saí assim, sem pronunciar nada para eternizar em suas lembranças, parece c***l, então:   — Não achava que surgiriam mais surpresas — disse sorrindo, com muita dificuldade sentindo minha respiração enfraquecer mais.   — Não fale! Preciso cuidar de seus ferimentos — ela examinou com os olhos meu corpo ensanguentado, depois com leves toques em minhas feridas.   Apenas retirei sua mão de meu machucado, quase esgotado, com muita dificuldade para mexer qualquer parte de mim. A única coisa que estava ativa e revigorado como de costume, eram meus pensamentos turbulentos e ansiosos, sempre imaginando e falando coisas. Palavras nunca pronunciadas em casos nunca existiria:   — Sabe que não há o que fazer, não trouxemos nada que trate, e nem temos nada me ajude.   — Cala boca! — rebateu de forma agressiva e nada pronta para deixar-me partir.   — Sabe que é verdade. Por favor, deve agir agora. Aquele pássaro é ele, eu sinto que é e agora você deve agir.   — Mas tudo isso não pode ser em vão, lutamos tanto para que finalmente pudéssemos escapar juntos, VOCÊ prometeu.   — Há promessas que não podemos cumprir, diante do acontecimento. O sacrifício de agora não pode ser em vão. — Fui interrompido pela minha tosse intensa expelindo sangue, mas tentei continuar — Você... Deve terminar o que começamos, Cecília.   Ela abraçou-me novamente o mais delicado possível. Preencheu a a******a de seus dedos com meus cabelos acariciando-os e bem devagar deitou-me, como se eu fosse um bebê prestes a cair no sono. Cecília colocou sua mão na bolsa e tirou o frasco para cercar-nos, caminhando em direção a criatura que aos poucos encolhia. Meus olhos pensavam toneladas, m*l podia erguê-los para ver ela e nosso triunfo. Ela despejou, nos cercando, o ** com uma linha grossa para garantir que nada ultrapassasse. Cecília respirou fundo, recostou sua bolsa ao meu lado com seu olhar sobrecarregado de tristura. Caminhando em direção Victor que já estava visível e machucado ainda. Quando ela tocou no infeliz, o furtador de almas e atormentador, bem na cabeça dele com ambas as mãos, emitindo um rápido flash. Ele gritou, se contorceu de dor! E atirou, como sinalizador, uma grande luz para cima. De forma constante, a luz era arremessada, feito um feixe. Lembro que quando olhei para cima, vi várias criaturas, olhos ocupando o céu como se fossem astros. Olhei de volta para ela e Victor e vi que sua mão estava brilhando com uma coloração avermelhada. Ele estava de joelhos e ela com os olhos mortos, sorrindo e sem retirar sua visão dele, que ainda se contorcia. Logo atrás de nós, ou melhor; ao nosso redor, todos eles! Os monstros carniceiros que ansiavam pela vida, chegavam às pressas. Gritavam sem parar “por favor, POR FAVOOOOR” e se empurravam com medo de ultrapassar o círculo. Seus berros eram de fúria, querendo ultrapassar o selamento, mas nenhum tinha coragem suficiente. Rodeavam, sondavam sem parar! Se esbarravam e gritavam mais. Outros com suas bocas costuradas, transmitiam um som agudo que penetrava em minha mente. O caos predominou tanto, que alguns se esmurravam e se matavam para passar e só nos encarar. Mais nada.   Por mais que estivesse tumultuado, só um dos passos era mais coordenado que os demais, suave e paciente. Caminhava de tão distante, mas tinha pressa. Os sapatos eram impecáveis quanto o charme ao caminhar entre os mortos. Quando mais se aproximou, meu olhar aliviara-se do peso que estava antes e quase soltaram da cara. Medi o maior esforço para ao menos sentar-se, mesmo m*l conseguindo falar. Meu coração dizia não, mas meus olhos nunca me enganaram, e eu estava diante que não esperava por hipótese alguma. Ele... era ele que estava detrás das sombras, à espreita e como a tacada final para vir até nós. Tudo parte de um plano que não era nosso. Calcularam até o menor dos passos? Não, recuso que isso seja possível. Esse ser que um dia foi meu consolo para essa desolação, ele... ELE! Caio. Estava diferente com os olhos fúnebre, mas o rosto com amargura estampada, que tirava toda sua elegância de agora. Observou atento círculo que estava desenhado e não ficou nada preocupado, apenas examinou para desdenhar e ultrapassar sem pestanejar. O miserável antes de ir até Cecília, adentrou com seu olhar e aterrou-me com a névoa de cólera, de mágoa e julgamento, como se estivesse com o controle de tudo. Depois continuou seu caminho até Cecília enquanto estirava lentamente sua mão. Numa tentativa desesperada, motivado pela inconsequência e inconsistência, peguei uma adaga na bolsa que usaríamos para realizar o ritual, e tentei me reerguer. Caí de forma brutal e senti uma dor infernal, mas meu frenesi dava forças, minha vontade de matá-lo era meu melhor remédio. Me aproveitei tanto dessa fúria que levantei quase revigorado e partir para cima dele como louco. Ele colocou seus braços na frente para defender, mas pensei rápido e tentei golpear sua barriga, mas pegou de raspão. Então quando sua guarda em baixou, bati com a cabeça nele, nos arremessando um pouco afora do círculo. Fiquei por cima dele golpeando inúmeras vezes seu rosto, sentindo a dor da decepção esvaindo e sendo preenchido pelo ódio. Para se defender do golpe que eu ia deferir com a adaga, esquivou bem na hora sua cabeça, e me empurrou. Caio estava fora do círculo se preparando, se mantendo cauteloso e contando que eu não avançaria por ele estar do lado de fora, mas eu estava imparável, e seria necessário mais que isso. Manquei destilando todo meu veneno em uma investida inesperada! Ele ergueu seus braços em direção a sua face para se resguardar. O nefando ainda segurou a lâmina pondo-a entre os braços em x que o protegia, depois a segurou enquanto eu pressionava mais com meu rosto coberto de sangue. Meu avanço não pararam as criaturas, pelo contrário: elas avançaram e fizeram incisões com suas garras em todas as partes do meu corpo. Eu ignorava apenas pressionando mais e ganhando tempo para que Cecília conseguisse o necessário. Me senti arremessado aos lobos me devorando vivo enquanto tentava eliminar o líder da alcateia. Durante tudo aquilo, o que Caio pôde dizer foi:   — MARCOS, PARE! VOCÊ NÃO ENXERGA O QUE ESTÁ ACONTECENDO?! VOCÊ ESTÁ SENDO i****a E COMETENDO UM ERRO GRAVE ACORDA!
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